"40% dos docentes são ruins", diz aluna de curso que zerou na OAB

Faculdades Integradas de Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul, teve 102 inscritos no exame, mas nenhum bacharel foi aprovado. MEC já cortou vagas da instituição

Marcelle Souza, especial para o iG |

Divulgação
Estudantes de direito assistem a palestra na Faculdades Integradas de Três Lagoas: "40% dos meus professores são ruins", diz aluna
Com 102 inscritos e apenas um aluno na segunda fase do exame da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), a AEMS – Faculdades Integradas de Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul - é, entre as instituições que não aprovaram nenhum bacharel no último exame da OAB , a que tinha mais participantes e, portanto, obteve um dos piores desempenhos do Brasil. Os dados preliminares do resultado do exame foram obtidos com exclusividade pelo iG .

Veja também: ranking mostra as faculdades de Direito por índice de aprovação na OAB

Em março do ano passado, o Ministério da Educação já havia determinado uma redução das vagas no curso de Direito da AEMS. Das 120 que eram oferecidas sobram 70, mas a faculdade recorreu da decisão.

O corte levou em consideração o desempenho insuficiente da instituição que, em 2007, entrou na lista das 79 monitoradas pelo MEC. Na época, o curso da faculdade foi classificado como 2, em uma escala que vai de 1 a 5, segundo a avaliação do Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes).

Os alunos

Na faculdade, os alunos mostram preocupação e criticam a instituição. Eles reclamam de docentes despreparados, da falta de prática jurídica e da estrutura física. “Acho que 40% dos meus professores são ruins”, afirma a aluna Bruna Toledo, de 21 anos, que está no 4º ano de Direito na faculdade.

“As salas de aula são péssimas, não têm ar condicionado e os ventiladores são muito barulhentos. Além disso, quase não temos prática jurídica e os professores não incentivam os alunos a estudarem outras doutrinas”, diz outra acadêmica do 4º ano, Karolin Freitas, de 21.

Os estudantes ainda reclamam que, apesar da deficiências do curso, só existem duas opções para quem quer estudar Direito em Três Lagoas: a AEMS e a UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). A cidade também é alternativa para quem mora em cidades vizinhas que não têm universidade. Três Lagoas fica perto da divisa com São Paulo e atrai muitos estudantes do vizinho.

Portanto, quem não teve uma boa formação escolar ou um bom cursinho só resta a AEMS: no último ano, havia 12 candidatos por vaga para o curso de Direito da UFMS em Três Lagoas - é a maior concorrência do interior do Estado.

Bruna Toledo é uma das pessoas que saem todos os dias de Andradina (SP) para estudar em Mato Grosso do Sul. “Diariamente, de Andradina, são três ônibus à noite só de universitários que vão estudar na AEMS", conta Toledo.

Thais Pinho, de 30 anos, concluiu a graduação em 2005 pela faculdade de Três Lagoas e demorou dois anos até conseguir ser aprovada no Exame de Ordem. Apesar de ter que investir em um cursinho específico, ela não acredita que o seu despreparo tenha sido culpa da instituição. “Acho que nenhuma faculdade prepara para a OAB. É aprovado mais rápido quem tem mais tempo para estudar, o que eu não tinha”, diz a advogada.

Desde o início deste mês, a faculdade passou a oferecer um curso preparatório para o exame da OAB. Professora da instituição e coordenadora da atividade, Patrícia de Oliveira nega que as aulas sejam uma resposta à baixa aprovação dos alunos da instituição. “É um curso de extensão como outro qualquer”, afirma a docente, que não quis comentar os resultados da avaliação.

Procurados pela reportagem, a faculdade e a coordenação do curso de Direito não responderam. Quando foi anunciado que o MEC cortaria vagas na universidade, o coordenador do Direito, Paulo César Ferreira, culpou os alunos em entrevista ao jornal Hoje MS : “Temos ótimos professores e uma biblioteca excelente. Não há o que torne nosso ensino inferior a nenhum outro. Agora, muito o que falta é a dedicação por parte dos alunos, porque estrutura nós temos”.

Exame será julgado pelo Supremo
A constitucionalidade do Exame de Ordem , que provoca polêmica principalmente pelos altos índices de reprovação, será julgada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) ainda este ano. Com o objetivo de aprofundar e qualificar a discussão do tema, o iG publica durante toda essa semana reportagens sobre a avaliação.

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