Acusação de racismo em escola chega ao Ministério da Educação

Por David Shalom - iG São Paulo | - Atualizada às

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Mãe de aluna de escola na Grande São Paulo diz que direção obrigou sua filha a pedir desculpas a colegas que a teriam ofendido devido à cor de sua pele e a seus cabelos

Uma acusação de racismo contra uma escola do governo de São Paulo gerou tanta repercussão nas redes sociais que chegou ao ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, nesta semana. Divulgado por meio do Facebook pela mãe de uma aluna da Escola Estadual João Ramalho, em São Bernardo do Campo (Grande São Paulo), o texto – segundo o qual uma menina de 12 anos foi alvo de preconceito de colegas e da direção da instituição de ensino – alcançou na sexta-feira (15) mais de 100 mil curtidas e 70 mil compartilhamentos.

Na quarta-feira (13), data em que foi celebrada a abolição da escravatura no País, Janine citou em discurso o suposto caso ocorrido no ABC paulista. "Episódios que evidenciam a presença de preconceito racial entre crianças e adolescentes nos alertam para o desafio de construir uma escola sem o racismo e todas as formas de preconceito", ressaltou na ocasião. No dia seguinte, o ministro prometeu investigar as acusações junto à Secretaria de Educação paulista.

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Camila dos Santos Reis afirma que sua filha, Lorena, tem sido alvo de racismo de colegas já há alguns meses, atacada com agressões verbais relacionadas à cor da sua pele e a seus cabelos encaracolados, avolumados com apliques trançados nas próprias madeixas. Em desabafo no Facebook, a web designer afirmou ter tomado conhecimento das supostas agressões após receber uma mensagem de texto da menina com o título "olha como eu sofro". Nela, haveria conteúdo de um grupo de colegas de Lorena no Whatsapp.

"Coloquei meu fone no ouvido e, logo a primeira frase, gritada em alto e bom som, foi 'sua preta, testa de bater bife do caralho'", escreveu Camila. "Foram 53 segundos de ofensas horrorizantes, palavrões ofensivos, raciais e, por incrível que pareça, sexuais, vindos de um garoto de aproximadamente 13 anos, morador do condomínio onde vivemos."

Relembre casos famosos de racismo denunciados no Brasil:

Caso do ator Vinícius Romão chamou atenção no Rio de Janeiro no começo deste ano. Foto: ReproduçãoEle ficou 15 dias detido após ter sido erradamente reconhecido por uma vítima de assalto. Foto: Reprodução/ TV GloboO pai do ator, o militar reformado Jair Romão, comemorou a soltura do filho e o arquivamento do processo. Foto: Carlos MoraesCaso não foi o único no Rio. Em fevereiro, um jovem negro suspeito de assalto foi preso pelo pescoço por uma trava de bicicleta. Foto: Reprodução internetO futebol é outro campo em que casos de racismo ocorrem. O tema é preocupação do País para a Copa do Mundo. Foto: Divulgação/CBFO primeiro caso foi vivido por Tinga, no Peru, pela Libertadores. A torcida rival imitou som de macaco quando ele pegava na bola. Foto: VIPCOMM/DIVULGAÇÃOO jogador recebeu mensagens de apoio de diversas torcidas e de representantes da sociedade. Foto: Eugenio Savio/APO volnate Arouca do Santos, foi xingado de 'macaco' por torcedores em uma partida pelo Campeonato Paulista contra o Mogi Mirim. Foto: FLICKR OFICIAL/SANTOS/REPRODUÇÃO O árbitro Márcio Chagas recebeu ofensas durante jogo pelo Campeonato Gaúcho encontrou seu carro amassado, com bananas na lataria. Foto: Arquivo pessoalDilma Rousseff recebe o árbitro Marcio Chagas e o meia Tinga, do Cruzeiro. Foto: Site oficial da Presidência da República

De acordo com Camila, cuja filha ganhou campanha anti-racismo promovida pela comunidade "Preta e Acadêmica" (formada por negras universitárias), havia ainda cerca de 20 áudios no grupo, com mensagens como "quando eu quero ser racista sou racista", "cabelo de movediça" e "toda vez que eu te encontrar na minha frente vou fazer você chorar". Pela situação, a diretora da instituição teria decidido mudar Lorena de classe, sob a justificativa dela não ter se adaptado. E, assim, o caso chegou à supervisão do Estado.

Satisfação de um lado, insatisfação do outro
A Secretaria de Educação do Estado de São Paulo afirma que, ao menos na visão do órgão, o caso foi resolvido logo após uma reunião entre Camila, a filha, a diretora da escola e a supervisora de ensino estadual de São Bernardo, em 14 de abril. Nela, Lorena expôs abertamente as acusações de racismo e citou os nomes dos colegas que seriam responsáveis pelos ataques.

Entretanto, segundo Camila, ao retornar para casa horas depois, Lorena teria afirmado que, após ter sido ofendida e xingada por colegas "por ter se comportado como uma dedo-duro", a diretora a teria feito pedir desculpas a eles, já que todos se acusaram mutuamente de ofensas. "O certo acabou saindo errado", criticou a web designer. Camila afirma que o episódio levou a filha a ser diagnosticada por um médico com "estresse pós-traumático".

"E agora, senhora diretora? O que eu faço? Estou com minha filha em casa, doente e se negando a ir para a escola. Ela disse que só quer ter contato comigo e com o pai. Sim, este é o resultado do racismo e bullying, aliados à falta de postura, sensibilidade e preparo da escola."

"Apenas uma briga entre crianças"
Dirigente regional da Diretoria de Ensino de São Bernardo do Campo, Suzana Aparecida Dechechi de Oliveira nega que o caso tenha ocorrido da forma como foi narrado por Camila. Segundo ela, que tem acompanhado o desenrolar da história junto à E. E. João Ramalho e à Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, tudo começou com a própria Lorena pedindo para mudar de sala, alegando que queria ficar com as amigas.  

O ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, citou caso de Lorena em discurso na quarta-feira
Wilson Dias/Agência Brasil
O ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, citou caso de Lorena em discurso na quarta-feira

"Mas a diretora [Aparecida Circe Ferreira de Silva, não encontrada pela reportagem para comentar o assunto] ficou sabendo depois que as crianças estavam escrevendo na lousa da sala de aula quando a Lorena empurrou no chão um menino que é deficiente. Aí a classe tomou as dores dele e começou a brigar com a menina. Eles não perdoam esse tipo de coisa, e ela acabou se tornando o alvo", explica ao iG Suzana.

"Foi uma discussão entre crianças focada, principalmente, no condomínio onde a Lorena mora. A própria Lorena chamava uma amiga, negra como ela, de 'cabelo de bombril'. A mãe não precisava ter exposto a filha como fez, falar de racismo. As acusações não são verdadeiras."

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A dirigente também afirma que, diferente do denunciado por Camila, Lorena não ficou sem frequentar a escola devido ao trauma. Tanto para Suzana quanto para a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo o caso está resolvido.

"A Lorena pediu desculpas aos outros porque todo mundo xingou todo mundo, não porque a diretora a obrigou. Na verdade, foi basicamente um diz-que-me-diz entre alunos da mesma idade, um problema entre os estudantes. É complicado se institucionalizar o racismo da forma como ela fez", criticou a assessoria do órgão. "Talvez a Camila tenha superdimensionado as coisas. É delicado dizer que uma escola de periferia, onde a maior parte de seus dois mil alunos são negros, é racista."

O Conselho Tutelar foi convocado para conversar com todos os alunos envolvidos no caso. Procurada pelo iG, Camila disse que não se pronunciaria sobre as denúncias "por orientação jurídica".

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