Depois de 50 anos de história, federal do Acre abre sua 1ª turma de doutorado

Por Davi Lira - iG São Paulo | - Atualizada às

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Região Norte tem apenas 3% dos doutorados do País; curso da Ufac começa na próxima semana, com 18 vagas preenchidas

Glauco Capper/Ascom Ufac
Insituição possui cerca de 670 professores. Aproximadamente, 40% deles são doutores

Originalmente criada em 1964, a atual Universidade Federal do Acre (Ufac) precisou de cinco décadas para abrir o primeiro doutorado oferecido exclusivamente pela instituição. Contando com 18 vagas - todas já preenchidas -, o curso de Produção Vegetal vai formar pesquisadores em temas como manejo florestal, agroecologia e genética das plantas. As aulas dessa primeira turma estão previstas para iniciarem na próxima segunda-feira (12).

Enquanto a Ufac precisou de meio século para conseguir abrir o seu primeiro doutorado, a criação dos primeiros cursos desse gênero no País ocorreu a partir da década de 1930 em instituições como a então Universidade do Rio de Janeiro - atual UFRJ -, e a Universidade de São Paulo. Só a USP, por exemplo, já possui mais de 200 cursos desde então. 

Uma análise do panorama da pós-graduação brasileira ajuda a entender o tamanho das disparidades do quadro da produção científica no país. Só para se ter uma ideia, dos mais de 5,6 mil cursos de mestrado, mestrado profissional e doutorado ofertados no Brasil, 70% estão concentrados nas regiões Sul e Sudeste. A região Norte possui apenas 253 cursos, o que representa cerca de 5% do total. Se analisados apenas os cursos de doutorado, a situação é ainda mais crítica: só 3% dos quase 2 mil cursos estão na região Norte. Os dados, atualizados agora em maio, são do Sistema Nacional de Pós-graduação da Capes, a agência de fomento ligada ao Ministério da Educação.

Cenário:
USP tem melhor mestrado e doutorado do País
Apenas 12% dos programas de pós-graduação brasileiros têm padrão internacional

A existência de desigualdades sociais, econômicas e históricas entre regiões e Estados da federação é uma das principais razões para a demora na criação do doutorado na Ufac, afirma Josimar Batista, pró-reitor de pesquisa e pós-graduação da universidade. "Devemos ser tratados com excepcionalidade. A região amazônica concentra um número muito baixo de doutores e de recursos para a pesquisa em relação às regiões Sul e Sudeste. Existem poucos pesquisadores que decidem se fixar no nosso Estado. E para abrir um doutorado, precisamos antes ter doutores para dar as aulas", diz Batista.

Na Ufac, dos cerca de 670 professores, apenas 40% têm o título de doutor, afirma o pró-reitor. Para efeitos de comparação, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que tem menos de 50 anos de existência, 99% dos docentes têm essa titulação. Para abrir um curso de doutorado, uma das exigências demandadas pelo Ministério da Educação (MEC) é que a universidade tenha, ao menos, dez pesquisadores doutores de uma mesma área de conhecimento. "Esperamos melhorar nossos quadros em até três anos. Isso porque, atualmente, temos 130 professores mestres fazendo o doutorado em cursos promovidos com a assistência de outras universidades públicas", fala Batista, o pró-reitor da Ufac.

A história da Ufac data de 1964, com a criação da Fundação da Faculdade de Direito. A federalização da instituição ocorreu 10 anos depois, em 1974 (Imagem: arquivo). Foto: Glauco Capper/Ascom UfacO seu 1º curso de doutorado, o de Produção Vegetal, foi aprovado pelo MEC em 2013. A aprovação do mestrado se deu em 2006. Foto: Glauco Capper/Ascom UfacPor causa de greve, a 1º turma de doutorandos da Ufac vai começar as aulas no dia 12 de maio. Dois meses após a previsão inicial. Foto: Glauco Capper/Ascom UfacA Ufac possui cerca de 670 professores. Destes, aproximadamente, 40% são doutores, 30% são mestres e os outros 30%, são especialistas ou graduados. Alguns dos cursos da Ufac, como o de Engenharia Elétrica e o de Medicina, existe um déficit professores.. Foto: Glauco Capper/Ascom UfacA luta pela aprovação do doutorado não é de agora. Em 2011, uma tentativa frustrada de aprovação impediu a criação do curso naquele momento. Foto: Glauco Capper/Ascom UfacPara conseguirem a aprovação nessa última tentativa, os gestores da universidade contaram com o apoio da Embrapa e UFRRJ. Foto: Glauco Capper/Ascom UfacPara esse novo doutorado, 27 candidatos participaram da seleção. Os candidatos fizeram passaram por prova e análise de currículos. Foto: Glauco Capper/Ascom UfacInicialmente, eram previstas apenas 10 vagas. No entanto, posteriormente, outros 8 candidatos também foram convocados. Foto: Glauco Capper/Ascom UfacO corpo docente do curso de doutorado é formado por 10 professores. Foto: Glauco Capper/Ascom UfacO objetivo da reitoria da Ufac com o doutorado é formar pesquisadores que fiquem no Acre e criem grupos de pesquisa sobre a biodiversidade. Foto: Glauco Capper/Ascom Ufac

Flexibilização e soluções

Diante dessa realidade, a instituição ainda enfrenta outros problemas que dificultam a expansão no número de programas de pós-graduação ofertados pela universidade. A falta de laboratórios de ponta para o desenvolvimento de pesquisas, o pouco interesse de doutores formados em outras regiões em se fixarem no Acre, e a baixa produção científica de relevância dos atuais pesquisadores são algumas delas.

Tais causas levam a instituição a defender uma maior flexibilização das exigências na abertura de novos cursos de doutorado. A hipótese de abrandamento de normas de regulação, no entanto, é criticada pela Capes, entidade responsável pela autorização desses cursos no país. "As disparidades regionais têm sido uma preocupação constante há vários anos. Mas não dá para flexibilizar a qualidade. Não tem jeito, não vamos flexibilizar as normas", afirma Jorge Guimarães, presidente da Capes.

Essa posição de Guimarães também é compartilhada pelo economista Claudio de Moura Castro, especialista em educação. Ao invés da flexibilização das regras, Castro prefere apontar o caminho dos doutorados em parceria com outras universidades, os chamados cursos interinstitucionais, como medida para ampliação no número de doutores no corpo docente de instituições como a Ufac. Atualmente, a instituição já conta com parcerias com as universidades federais do Paraná (USP), a Fluminense (UFF) e a USP, além de possuir outro programa de doutorado em biodiversidade ofertado em rede com outras instituições.

O presidente da Capes ainda defende outra ação para estimular a formação de doutores e a fixação de cérebros na região amazônica. Ele cita a existência de um programa que busca levar estudantes de graduação para fazer estágios de férias em laboratórios de instituições de ponta, com o objetivo de aproximar futuros mestrandos e doutorandos a orientadores de prestígio. "Pagamos tudo e o aluno pode escolher qualquer universidade. Mesmo propondo inúmeras vezes a reitores da região Norte, praticamente, não houve adesão de estudantes", fala Guimarães.

Expectativa de décadas

Arquivo pessoal
A engenheira agrônoma, Kelceane Azevedo, de 36 anos, é uma das candidatas aprovadas para a 1ª turma do doutorado da Ufac. Ela esperou mais de 10 anos para a abertura do curso no Acre.

Para a então engenheira agrônoma Kelceane Azevedo, o sonho de fazer uma pós-graduação era quase inalcançável. Acreana de origem, assim que finalizou sua graduação na Ufac, em 2001, ela se deparou com um impedimento que fugia do seu alcance. A universidade não tinha um curso de pós em sua área. A Ufac sequer oferecia o mestrado - o curso de mestrado em Produção Vegetal foi aberto apenas em 2006.

Assim, não lhe sobrou outra alternativa senão buscar uma pós-graduação em outro Estado. O problema é que ela era casada e tinha duas filhas pequenas. Mesmo assim, o sonho foi mais forte que os impedimentos. "A sensação de querer prosseguir nos estudos na sua cidade mas não conseguir é muito ruim. Porque você quer ter uma qualificação maior, mas ou faltam opções ou não há condições financeiras para buscar cursos em outros Estados. Foi então que me organizei e consegui entrar no mestrado similar que havia na Universidade Federal de Lavras [Minas Gerais]", fala Kelceane, hoje com 36 anos.

Depois de dois longos anos de estudo em Minas, Kelceane resolveu voltar ao Acre assim que acabou o mestrado. "Tinha que voltar para a minha família, mas assim que cheguei em casa, em 2003, percebi que o problema tinha aparecido novamente: onde poderia continuar meus estudos?", diz.

A espera não foi curta. Somente depois de 10 anos a Ufac conseguiu aprovar o seu primeiro doutorado em Produção Vegetal. "Quando soube, fiquei logo interessada. Mas não acreditava que iria passar, já estava há muito tempo distante da academia". Foi então que ela soube da grande notícia. "Quando eu vi, no computador, o meu nome entre os aprovados, gritei muito. Fiquei muito feliz".

A engenheira agrônoma, que já passou pela Fundação Chico Mendes e hoje trabalha como coordenadora técnica da ONG Centro dos Trabalhadores da Amazônia, quer agora dar continuidade ao sonho iniciado lá em 2001. "Agora quero voltar a estudar, vou sentar com o orientador, definir o meu projeto, concluir o doutorado para, se Deus quiser, conseguir ser uma professora universitária no futuro", afirma Kelceane.

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