Filhos de agricultores com Bolsa Família contrariam estigma no Ceará

Alunos de escolas com 12ª melhor média do País no Ideb em Pedra Branca moram no campo, mas recebem incentivo de professores e familiares para se dedicar aos estudos

Daniel Aderaldo - iG Ceará |

Os 360 alunos das duas escolas com maior nota do Ceará no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2011 na avaliação dos anos iniciais (1ª à 4ª série) são filhos de pequenos agricultores e beneficiários do programa federal Bolsa Família.

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Encravada em uma serra castigada pela seca, a 300 quilômetros de Fortaleza, a pequena Pedra Branca tem uma rede municipal de ensino formada por 60 instituições de ensino e foram justamente as escolas de Ensino Infantil e Fundamental Cícero Barbosa Maciel e Sebastião Francisco Duarte, localizadas na zona rural, onde normalmente os resultados são inferiores, que obtiveram nota 8,1. Esse resultado representa a 12ª melhor pontuação entre todas as instituições públicas do País.

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Maria Ducilene Pereira da Silva é diretora da Escola Cícero Barbosa Maciel há seis anos. Conhece bem seus alunos e, a todo instante, cuidava de dividir o mérito do sucesso no Ideb entre gestores, professores, alunos e pais.

“Embora tenhamos aqui praticamente 100% filhos de agricultores que vêm de famílias simples, eles tem um diferencial. Não temos problemas com violência, com drogas, com desrespeito de alunos para com professores ou a direção da escola. Nós não temos atritos entre alunos”, afirmou.

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Filha de agricultores, Francisca Diany Martins do Nascimento, 11 anos, orgulha-se das notas que tira na escola e, como praticamente todos os colegas, alimenta o sonho de ser “doutora” – médica. O pai passa mais tempo em São Paulo do que em Pedra Branca. Seguiu a sina de ir cortar cana-de-açúcar para tentar fazer chegar à mesa de casa um pouco mais do que o programa federal Bolsa Família proporciona.

“Ele liga para mim sempre para saber se eu estou bem nos estudos. Eu conto que estou bem nas provas: tirei oito, nove, dez

A realidade de Diany é compartilhada por Ana Carla Alves Furtuoso, 11 anos, assim como ocorre com quase todos os alunos matriculados nas duas escolas campeãs em Pedra Branca. A casa simples da família, de paredes pintadas com cal e chão de cimento frio, tem quatro cômodos, que são divididos com duas irmãs mais velhas e os pais, pequenos agricultores.

Daniel Aderaldo
Ana Carla Alves Furtuoso, 11 anos, estuda com a mãe Gonçalina Alves Feitosa, ou simplesmente Dona Branca

Uma saca de milhão (60 quilos) e meia saca de feijão é o saldo do que foi plantado no início do ano, antes da quadra chuvosa mais uma vez decepcionar. Do pouco colhido, a família separa uma parte do feijão para a alimentação e outra é vendida. A própria prefeitura compra a safra, que vai para a merenda escolar das crianças, toda baseada na agricultura familiar. O milho fica para o consumo da criação de animais.

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Estudante do turno da manhã da 6ª série na Escola Sebastião Francisco Duarte, Carla já havia feito a tarefa de casa quando a reportagem do iG pediu para que ela mostrasse onde e como estudava em casa. Tímida, a menina buscou no quarto o caderno de capa dura e o livro de Matemática, mas não o lápis. Explicou que havia emprestado para uma colega, moradora de um sítio vizinho, que estava com o material escolar incompleto. “Ela passou aqui e levou para fazer o dever de casa também”.

Com uma caneta, revisou a lição feita no dia anterior. Tudo sob a supervisão da mãe. Como estudou somente até o ensino fundamental, a ajuda de Gonçalina Alves Feitosa, ou simplesmente Dona Branca, limita-se ao incentivo. “Quem tira as dúvidas mesmo é a irmã mais velha”.

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