Em meio a mais uma greve, UnB cai em ranking de universidades latinas

Instituição caiu 15 posições na avaliação da britânica (QS) Quacquarelli Symonds. Alunos e professores tentam encontrar justificativas em disputas políticas, greves e rápida expansão

Priscilla Borges - iG Brasília |

A Universidade de Brasília (UnB) recebeu uma notícia que mexeu com a autoestima de professores e alunos na última semana. A instituição caiu 15 posições em um ranking que avalia a qualidade das universidades da América Latina . No ano passado, quando o indicador foi divulgado pela primeira vez, estava em 11º lugar. Agora, caiu para 25º.

O resultado nada agradável foi anunciado em meio a mais uma greve de professores , que já dura um mês, e funcionários (que começou há pouco mais de 10 dias). As paralisações que já se tornaram rotinas nas instituições públicas angustiam estudantes, atrapalham o aprendizado e, para muitos, se tornaram causa de queda na qualidade de ensino.

O impacto das greves não aparece como quesito nos rankings de qualidade de ensino, claro. Mas as consequências das paralisações, na opinião de estudantes e professores, podem ser sentidas no cotidiano das universidades. Atrasos nos calendários, quebra no ritmo das aulas e pressa para fechar os semestres depois são algumas delas.

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Paulo Ricardo entende a reivindicação dos professores, mas lamenta quebra de aprendizado com as greves

Para o estudante Paulo Ricardo Xavier Giusti, 21 anos, que está no 7º semestre do curso de Ciência da Computação, as greves atrapalham principalmente pela “quebra” no ritmo do aprendizado e porque, depois, a reposição é feita de forma muito mais corrida. “Eu entendo o lado dos professores, mas as greves afetam. A gente faz três semestres em um ano”, afirma.

O professor do Instituto de Física Antônio Luciano acredita que as inúmeras greves ocorridas em todas as instituições públicas prejudicam, especialmente, a credibilidade delas. “Tenho muitos amigos cujos filhos poderiam estudar aqui (na UnB), mas estão em faculdades particulares para evitar as greves”, comenta.

Luciano diz que as negociações dos professores com o governo durante as greves têm se concentrado na melhoria de salários, mas não nas condições de trabalho. Com isso, muitos departamentos e faculdades enfrentam precariedade de instalações, falta de equipamentos e de docentes qualificados para o trabalho de ensino e pesquisa.

Menos citações

A Quacquarelli Symonds Universities (QS) considera sete indicadores para elaborar o ranking das melhores da América Latina: reputação acadêmica, reputação por empregadores, número de papers por faculdade, relação professor por estudante, citações por papers, corpo docente com doutorado e impacto na internet.

De acordo com relatório recebido pela UnB, a universidade subiu em alguns e caiu em outros. Houve queda na avaliação de citações por papers e reputação junto aos empregadores. Com a situação, a instituição passou de 4ª melhor universidade brasileira para 9ª. Entre as federais, em 2011, a UnB era a 2ª colocada e, este ano, ficou em 5º.

A Universidade de São Paulo (USP), que é estadual, lidera a lista do ranking. É melhor entre as 200 instituições latino-americanas avaliadas. O Brasil tem ainda outras oito representantes entre as 25 melhores. A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) é a 3ª, seguida das federais do Rio de Janeiro (UFRJ), a 8ª, Minas Gerais (UFMG), a 13ª, do Rio Grande do Sul (UFRGS), a 14ª, e de São Paulo (Unifesp), a 15ª. Entre as federais, só a gaúcha não entrou em greve ainda.

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A Universidade Estadual Paulista (Unesp) aparece na 16ª colocação, logo à frente da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio), a instituição particular mais bem colocada entre as brasileiras. A UnB aparece em 25º lugar.

A UnB solicitou mais detalhes sobre a metodologia utilizada para criar o ranking, a fim de compreender melhor a própria performance. Para o reitor da UnB, José Geraldo de Sousa Junior, os resultados em rankings precisam ser relativizados e comparados com outras avaliações. “A universidade permanece no grupo de relevância desse ranking e, no conjunto dos vários indicadores, a UnB está em uma constante ascendente”, diz.

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UnB está em greve há mais de um mês. Nesse período, ranking mostrou queda entre melhores universidades da América Latina

Mas não é só o ranking da QS que mostra uma queda da UnB em relação às outras universidades brasileiras. No Índice Geral de Cursos (IGC), avaliação do Ministério da Educação, a posição da instituição também piorou. O IGC é um indicador que considera a qualidade dos cursos de graduação e de pós-graduação (mestrado e doutorado).

Em 2008, a UnB fez 389 pontos e ficou atrás de 11 universidades públicas. Em 2009, com quase a mesma nota (386 pontos), caiu para 27ª posição. Em 2010, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pela avaliação, divulgou o desempenho do triênio (de 2008 a 2010) e a UnB fez 391 pontos, ficando no 30º lugar.

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As notas (que vão de 0 a 500) se mantém estáveis e são consideradas “boas” pelo ministério. Porém, na época do Provão, que tinha outra metodologia de avaliação, a universidade se destacava mais. Aparecia sempre entre as cinco primeiras. Mas é importante lembrar que menos cursos eram avaliados e rankings mostram “momentos” apenas.

Perdas e mudanças

“A UnB nasceu para ser universidade de referência e perdeu espaço de reflexão de grandes temas nacionais. Nós passamos os últimos anos discutindo problemas administrativos, quem era a favor ou contra fundações de apoio, perdemos pesquisadores importantes”, lamenta Remi Castioni, professor da Faculdade de Educação.

Para Castioni, a recente expansão da universidade – apontada por críticos como mais uma causa da queda de qualidade – não comprometeu critérios de qualidade. Mas reconhece que, algumas áreas ainda estão se adaptando às novas realidades por conta do crescimento de cursos e alunos na universidade. “Não acho também que as greves foram definidoras”, diz.

O reitor da UnB também critica o “impressionismo” que ronda as avaliações de ensino. “Há muito barulho por causa da expansão, as pessoas reclamam de situações provisórias. Mas, do ponto de vista objetivo, aumentamos titulação dos professores, os contratamos em uma escala sem igual. Aumentamos nossos grupos de pesquisas”, afirma.

Veja imagens de protestos pelo País: 


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