Nos EUA, uma geração imersa em empréstimos estudantis

Estados Unidos têm US$ 1 trilhão em financiamentos para estudantes; 94% dos bacharéis pagaram seus cursos com dinheiro emprestado

The New York Times |

Kelsey Griffith se formou no domingo passado pela Universidade do Norte de Ohio. Para começar a pagar os US$ 120.000 em empréstimos estudantis que financiaram sua educação, ela já está trabalhando em dois restaurantes e logo deixará seu apartamento alugado para voltar a morar com seus pais. Sua mãe, que co-assinou os empréstimos, resolveu fazer um seguro de vida para sua filha.

"Se alguma coisa acontecer, Deus me livre, mas a dívida também é minha", disse Marlene Griffith.

Kelsey, 23, não parece a aluna perfeita para uma universidade que custa quase US$ 50.000 por ano. Seu pai é paramédico e sua mãe professora pré-escolar. Ambos têm rendimentos modestos, e ela tem quatro irmãs. Mas quando ela visitou a Universidade do Norte de Ohio, ela foi conquistada por professores e funcionários de admissões que encorajavam os estudantes a seguir seus sonhos ao invés de se preocupar com o preço deles.

No Brasil: Em 2012, 140 mil pediram o financiamento estudantil do governo federal

"Como uma jovem de 18 anos, parecia uma boa opção. A escola realmente vendeu uma ideia", disse Griffith, que se formou em Marketing. "Eu sabia que uma universidade particular custaria muito dinheiro. Mas quando eu me formar, vou dever cerca de US$ 900 por mês. Ninguém me disse isso."

Com mais de US$ 1 trilhão em empréstimos estudantis em torno do país, as dívidas excessivas já não preocupam apenas ex-alunos que desistiram de faculdades com fins lucrativos ou estudantes de pós-graduação que devem muitos anos de estudos. Quase todos os americanos em busca de uma formação universitária pedem um empréstimo. À medida que os preços sobem, um diploma universitário estatisticamente continua a ser um bom investimento, que muitas vezes vem com um ônus anos financeiro sem precedentes.

Noventa e quatro por cento dos estudantes que recebem um diploma de bacharelado nos Estados Unidos atualmente pediram empréstimos para pagar seu curso - em 1993, apenas 45% faziam isso. Estes dados incluem empréstimos do governo federal, bancos, financiadoras e parentes.

Entre os que pediram empréstimos, a dívida média em 2011 foi de US$ 23.300, com 10% devendo mais de US$ 54.000 e 3% mais de US$ 100.000, segundo o Federal Reserve Bank. A média da dívida para graduados em cursos de bacharelado varia de US$ 10.000 em escolas de elite, como Princeton e Williams, frequentada na sua maioria por estudantes ricos e que oferece bolsas aos menos abastados, a quase US$ 50.000 em algumas faculdades privadas com alunos menos abastados e menos ajuda financeira.

Na Universidade do Norte de Ohio, recém-formados estão entre os mais endividados do país. Os formandos de mais de 200 faculdades e universidades de Ohio têm as dívidas mais altas do país, de acordo com os dados divulgados pelas faculdades e compilado por um grupo de defesa da Educação. O saldo de empréstimos estudantis federais em todo o país é de US$ 902 bilhões, com outros US$ 140 bilhões em empréstimos estudantis particulares.

NYT
E. Gordon Gee, presidente da Universidade Estadual de Ohio, em seu escritório. Ele admite que a faculdade não pensa nos custos para as famílias

"Se alguém não está pensando para onde isso irá nos levar nos próximos anos, então não está percebendo os sinais de alerta", disse Rajeev V. Date, diretor adjunto do Gabinete de Proteção do Consumidor Financeiro, órgão federal criado após a crise financeira.

Date comparou o excessivo endividamento estudantil com as hipotecas de risco. E como aconteceu com a bolha imobiliária antes do colapso econômico, o crescimento extraordinário dos empréstimos estudantis tem pego muitos de surpresa. Mas suas raízes são profundas e os fatores que contribuem para a atual situação - incluindo equipes de marketing das universidades, legisladores estaduais, estudantes e suas famílias - tem sido possíveis por causa de uma dinâmica econômica básica: uma demanda insaciável por educação universitária, a quase qualquer preço, e a facilidade de se obter empréstimos, principalmente do governo federal.

As raízes da farra de empréstimos data dos anos 1980, quando a anuidade dos cursos universitários de quatro anos começou a subir mais rápido do que a renda das famílias americanas. Na década de 1990, as universidades com fins lucrativos passaram a investir pesadamente em marketing e recrutamento. Apesar de alguns deslizes éticos, o número de inscrições dobraram na última década. Cerca de 11% dos estudantes universitários americanos agora frequentam universidades particulares, e cerca de um quarto deles pediram empréstimos estudantis federais e doações.

Na última década, mesmo à medida que as matrículas em universidades estaduais e federais têm crescido, alguns Estados passaram a cortar subsídios ao Ensino Superior e muitos outros não têm alocado dinheiro suficiente para acompanhar o rápido crescimento do corpo discente. Essa tendência acelerou à medida que os orçamentos estaduais encolheram ainda mais por causa da recente crise financeira e da impopularidade dos aumentos de impostos.

Como os corretores de hipotecas que prometem empréstimos fáceis para a compra de imóveis, muitas faculdades não oferecem avisos sobre a dívida estudantil nas cartas enviadas aos futuros alunos. Em vez disso, elas pedem que os estudantes não se preocupem com os custos. Isso porque a maioria dos estudantes não paga o preço cheio.

Mas mesmo com desconto, o preço está além das possibilidades da maioria. No entanto, muitas vezes alunos e pais ouvem sem questionar.

"Eu admito", disse E. Gordon Gee, presidente da Universidade Estadual de Ohio. "Eu não penso muito nos custos. Eu não acho que nós precisamos pensar no impacto da faculdade nos gastos das famílias."

Claro, economistas e muitos pais dizem que pior do que se formar com dívidas é não ter uma formação universitária, já que estudos demonstram que pessoas com diploma têm uma vida melhor. Além disso, a maioria dos estudantes universitários americanos eventualmente paga seus empréstimos estudantis.

O governo Obama ofereceu mais subsídios e empréstimos do que qualquer outro para estudantes universitários com o objetivo de colocar os Estados Unidos entre os países desenvolvidos com maior número de diplomados. Os empréstimos estudantis federais cresceram mais de 60% nos últimos cinco anos.

Ainda assim, segundo os economistas, os as dívidas dos empréstimos estudantis pairam sobre a recuperação econômica como uma nuvem escura para uma toda uma geração de universitários. Um estudo realizado com recém-formados por pesquisadores da Universidade Rutgers e divulgado na semana passada revelou que 40% dos participantes adiou uma compra grande, como uma casa, por causa da dívida da faculdade, enquanto um pouco mais de um quarto adiou a continuação de seus estudos ou voltou a morar com os pais para economizar dinheiro. Cerca de metade dos diplomados estava empregada.

"Vou pagar isso para sempre", disse Chelsea Grove, 24, que abandonou seu curso na Universidade Estadual Bowling Green e deve US$ 70.000 em empréstimos estudantis. Ela está trabalhando em três empregos para pagar sua parcela mensal de US$ 510 e não tem intenção de voltar a estudar.

"Para concluir o curso eu teria de pedir mais dinheiro emprestado", explicou. "Só de pensar em pedir mais dinheiro emprestado eu passo mal."

(Por Andrew Martin e Andrew W. Lehren)

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