Injeção de droga é apenas um dos extremos por vestibular na China

Exame nacional ocorre todo ano em junho e pressão leva estudantes a rotinas exaustivas em busca de bons resultados

Janaína Silveira, de Pequim especial para o iG |

Na semana passada, um episódio em uma escola de Ensino Médio do interior da China ganhou as manchetes pelo mundo: estudantes recebiam aplicações de aminoácidos para aumentarem o seu rendimento e energia nas semanas que antecedem a aplicação do exame nacional de admissão universitária. A droga era ministrada sob orientação médica e com consentimento dos professores. E mais: uma estudante, que preferiu não se identificar, disse que a direção informou que a escola, a Xiaogan Número 1, da província central de Hubei, receberia subsídio do governo central para ofertar o medicamento.

AFP
Bolsas com aminoácidos que estudantes recebem enquanto estudam nas semanas que antecedem o teste
O fato ganhou notoriedade ao parar no Sina Weibo, o serviço de microblog mais popular da China, que reúne mais de 250 milhões de usuários e onde apareceram as fotos. A primeira questão foi relativa à própria saúde dos estudantes: afinal, o soro com aminoácido seria prejudicial? Para o médico chefe da Sociedade Chinesa de Nutrição, Gao Huiying, alunos em condições normais não precisam da infusão. Além disso, o excesso de ingestão de proteínas que advém daí pode provocar lesões aos rins e ainda perda de cálcio, explicou ao mesmo China Daily.

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Entre os chineses, o tema provoca debate, mas não choca. Há várias estratégias para garantir sucesso no exame. Embora menos impressionantes, são um tanto generalizadas; muitos pais colocam os seus filhos em hotéis durante os exames, a fim de que estes fiquem isolados - conta o reitor assistente da Escola Superior de Educação e diretor-executivo do Centro de Estudos para Graduação em Educação da Universidade Jiaotong, Kai Yu.

Kai ainda fala sobre as mães que largam os empregos apenas para dedicarem-se a uma vigília constante sob os filhos em idade de enfrentarem o exame nacional, o vestibular chinês. No país, ele é conhecido como Gaokao, literalmente, o Grande Exame. Garantir acesso às melhores universidades - onde a pontuação exigida é maior - é visto como o passaporte para uma vida bem sucedida.

Para Kai, todos estes estratagemas refletem a grande importância que tanto os pais quanto os professores atribuem a prova. Sobre o qual não faltam críticas. Aplicado em todo o país anualmente entre os dias 7 e 9 de junho, embora haja diferenças regionais nas provas, o Grande Exame é tido por especialistas como um modelo que prima apenas por decorar, não pela criatividade. Os alunos podem atingir um máximo de 750 pontos nas provas – e universidades top têm média entre 530 e 590.

Quem não atingiu o corte mínimo para ingresso no Ensino Superior, pode tentar novamente no ano seguinte. É o caso de Zhai Ang, de 18 anos, da cidade de Handan, na província de Hebei, vizinha da capital chinesa. De trem, são três horas. E é na Universidade de Peking que ele quer ingressar, para estudar design industrial. Já sabe para que: projetar produtos Apple, mas dentro da China.

“Não pretendo morar fora”, diz o estudante, que enfrenta uma rotina quase diária de 14 horas de estudo. Descanso mesmo, só aos domingos à tarde. É que o recado que vem tanto de casa quanto dos professores, conta Zhai, é o mesmo: “estudar, estudar, estudar, estudar, estudar a cada minuto”.
“É preciso trabalhar duro. Se trabalhar duro, se estudar muito, é possível estar preparado para o Gaokao, sem precisar de subterfúgios extras, como os aminoácidos”, acredita Zhai.

Para ele, o fato de ter falhado na primeira tentativa significa tão somente que ele não estava preparado. “Este ano estou bem confiante.”

A confiança é baseada na concentração que mantém nos livros todos os dias, numa rotina que começa às 6h30 e só termina às 23h, quando ele chega em casa. Dormir mesmo, só pela meia-noite.

Cai número de candidatos, aumentam vagas

O Gaokao é considerado o maior vestibular do mundo. Já teve mais de 10 milhões de candidatos, mas o número de inscritos vem decaindo desde 2008. Os dados de 2012 ainda não foram divulgados pelo Ministério da Educação chinês. Fato é que, no ano passado, houve 9,33 milhões de candidatos – dos quais 6,75 milhões deveriam conquistar uma vaga nas escolas, ou 72,3% dos inscritos. O índice de graduandos é maior do que o de 2008, por exemplo, quando apenas 57% dos respondentes conquistaram uma vaga no Ensino Superior.

Para o governo chinês, a queda ocorre porque a população em idade para prestar o exame é menor. Além disso, há mais chineses estudando em universidades do exterior, um incremento de 24,1% de 2008 a 2011.

Entre as universidades chinesas, o que se percebe é mais disposição para atrair os estudantes. Muitas oferecem bolsas integrais e até prêmios extras para os primeiros classificados no Gaokao. É que na China, mesmo nas universidades públicas é preciso pagar anuidade, além de alojamento. A grande maioria dos estudantes, mesmo aqueles que moram nas cidades onde estão localizados os campi, preferem os dormitórios. É um ambiente em que convivem com gente da mesma idade – numa sociedade com cada vez mais famílias de filhos únicos – e no qual a pressão diminui consideravelmente, na comparação com os anos que antecedem o Gaokao.

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