Pichação volta à Bienal pela porta da frente

Responsáveis pelos ataques ao evento de 2008 ganham espaço na próxima edição para debater o "pixo"

Guss de Lucca, iG São Paulo |

Augusto Gomes
"Sabemos que somos artistas, se quiserem reconhecer ou não, é problema de vocês", diz o pichador Djan
No último dia 1 a curadoria da 29ª Bienal de Artes de São Paulo anunciou os 148 nomes que participarão do evento, a ser realizado no Parque do Ibirapuera a partir de 25 de setembro. Na ocasião, o trabalho denominado "Pixação SP" causou comoção entre os jornalistas presentes na coletiva.

Desta vez, o grupo responsável pelos ataques à Bienal anterior, que resultaram na prisão da gaúcha Caroline Pivetta da Mota, vai entrar pela porta da frente, com direito a apresentar registros de seu trabalho e abrir debates que visam defender a pichação como uma expressão artística.

De acordo com Moacir dos Anjos, um dos curadores-chefes do evento, os pichadores foram incluídos nesta edição por questionarem "os limites usuais que separam o que é arte e o que é política - uma questão que interessa muito ao projeto curatorial desta Bienal". O tema central desta edição, "Há sempre um copo de mar para um homem navegar", é a relação entre arte e política.

Na coletiva de imprensa, o outro curador-chefe, Agnaldo Farias, já havia explicado que jamais convidaria os pichadores para pichar a Bienal, atitude que viria a ferir o princípio do trabalho que, em suas palavras, "não é domesticado".

AE
Moacir dos Anjos, curador chefe do evento: "Nem tudo que é arte a Bienal é capaz de abrigar ou de entender plenamente"
"Para tanto, pretendemos fazer uso de estratégias diversas de documentação (fotografias, vídeos, coleções de tags) e de discussão. Estratégias que não se confundam com o "pixo" propriamente dito, já que este só existe como tal nas ruas. Mas que evoquem, desde o interior do mundo da arte, o fato de que nem tudo que é arte a Bienal é capaz de abrigar ou de entender plenamente", afirmou Moacir. "Pixo", com X, é a grafia adotada pelos pichadores para definir seu trabalho.

Procurado pelo iG , o pichador Djan Ivson, de 26 anos, um dos responsáveis pelos ataques ao Centro Universitário Belas Artes e à 28ª Bienal de São Paulo, ambos ocorridos em 2008, aceitou conversar sobre a participação do "pixo" na exposição deste ano.

Como surgiu o convite para que o grupo responsável pelos ataques de 2008 participasse desta Bienal?

Esse convite foi feito por intermédio do Ministério da Cultura. Fomos procurados após os ataques de 2008 e a gente vem mantendo esse diálogo, porque a nossa luta na realidade é de legitimar a pichação como cultura brasileira, mas sem tirar nada da essência dela.

Essa pichação, a escrita protestante, começou na revolução estudantil, mas a pichação de São Paulo é um movimento distinto desses protestos só de cunho político ou de frases poéticas. Ela é diferenciada disso, pois tem uma estética única e a forma de apropriação na cidade é diferente. Tem um conceito tanto estético como de apropriação. Existem várias modalidades na pichação.

Então tudo nasceu de uma proposta do Ministério da Cultura?

A sugestão foi do Ministério da Cultura. Começamos a trocar e-mails com os representantes da Bienal. Foi delicado para nós e para eles encontrar uma forma de fazer isso sem se submeter.

Os curadores do evento disseram que o "pixo" será enfocado em outros registros que não a pichação em si: imagens, fotografias, vídeos e debates sobre o tema ocorrerão durante a Bienal. O que você acha disso?

Se a sociedade está interessada em ouvir a gente, estaremos lá para falar. Sem querer apaziguar, sem querer dar uma de bonzinho. A gente sabe o que a pichação representa, sabe que incomoda muita gente, mas esse é o nosso papel. A gente vê a cidade como suporte para nossa arte, sem restrição. Esse conflito vai existir sempre.

Estaremos lá para debater o que a sociedade quiser. Principalmente quem consome arte. Só quisemos levar para o campo da arte por que o assunto não existia. Desde o TCC (trabalho de conclusão de curso) do Rafael [Guedes Augustaitiz] na Belas Artes, a invasão da Bienal, os atropelos do grafite, tudo isso faz parte dessa contestação do privado. Falam que fomos contra a Belas Artes, contra a Bienal... Não tem nada de contra no que a gente faz. Só estávamos levantando a bandeira da pichação dentro do circuito. Nossa busca é essa. Só estamos legitimando. Sabemos que somos artistas, se quiserem reconhecer ou não, é problema de vocês. Mas a gente existe. O que fizemos foi um grito existencial no circuito das artes. Estamos aqui, queiram vocês ou não.

AE
Pichações no Centro Universitário Belas Artes: ação fez parte do trabalho de conclusão de curso de um aluno
Então logo no início já foi definido que não haveria razão para ocorrer pichações nesta Bienal. Afinal, de acordo com a curadoria, trata-se de uma ação que normalmente ocorre sem autorização, e do contrário perderia o sentido. O que o grupo pensa a respeito disso?

Ia ser muito vazio. Só reproduzir a estética do "pixo" lá dentro ia ser uma cópia da pichação, uma representação estética. Na última Bienal foi dentro do nosso contexto, de forma ilegal. Já tínhamos negligenciado esse espaço de certa forma. A ideia era chegar a uma fórmula que nos permitisse levar essa expressão lá para dentro de forma que não fosse perder sua essência.

Nossa participação é de forma documental, porque nosso papel é contestar o privado. Pichação é arte libertária, se apropria do que for sem ter restrição. Se tivesse algo autorizado não seria interessante. Seria chato.

No dicionário, pichação está escrito com CH e nas ruas é normalmente escrito com X. Como é que vocês explicam isso?

Esse é um detalhe que diferencia a "pixação" paulista das outras. Ela subverte até a língua portuguesa. A gente reinventou a língua. Tem códigos próprios como, por exemplo, o pessoal que picha "A Galera" escreve "Hlera", ou há quem piche "Caras" com C e "Karas" com K.

No meio da pichação se criou uma linguagem em que cada um cria sua regra. Se você falar que aquilo ali está escrito, está escrito e pronto. Cada pichador tem sua liberdade. Não só na estética como na escrita, na junção da pronúncia da palavra.

Augusto Gomes
Fachada do edifício São Vito, no centro de São Paulo: prédio sofreu diversas intervenções de pichadores
Dizem que há uma rixa entre pichadores e grafiteiros, principalmente pelo reconhecimento artístico do grafite. Ela existe?

A rixa não é em relação ao reconhecimento que o grafite teve, é mais uma disputa por território que vem sendo cobrada por parte dos grafiteiros. Isso na rua. O que vai pra galeria, o que eles estão vendendo, isso pra gente pouco importa.

A questão é que o grafite no Brasil se tornou um antídoto da pichação. A sociedade começou a usar o grafite para combater a pichação. E boa parte dos grafiteiros se omitiu.

O espaço foi conquistado pela galera do "pixo" e o grafiteiro vai lá, com autorização, e grafita. O conceito do grafite é ilegalidade, mas tem gente que acha que é só decoração. O verdadeiro grafite é ilegal, totalmente ilegal. O que ocorre é um movimento inspirado em grafite. Se for autorizado não temos a obrigação de respeitar.

Isso quer dizer que nenhum dos pichadores espera ter algum reconhecimento artístico ou mesmo financeiro?

Se vier a acontecer pode ser uma consequência, mas não é o objetivo. Ninguém começa pichando com essa pretensão. Acho que o trabalho do pichador como artista representa muito mais do que o trabalho de outras pessoas que se dizem artistas por aí. Depois que o Duchamp colocou o urinol na exposição dele tudo virou arte, qualquer porcaria virou arte. O verdadeiro conceito da arte é transgredir, contestar, ser livre. Em minha opinião, atualmente só vejo os pichadores fazendo arte dessa forma. Sem desmerecer o conceito de ninguém, não tem outra pessoa fazendo arte desse jeito.

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