Sem concessões e artifícios, Eric Clapton faz show próximo da perfeição

Guitarrista inglês se apresenta pela terceira vez no País em 21 anos

Luiz Antonio Ryff, iG Rio de Janeiro |

Marcelo Carnaval/Agência O Globo
Eric Clapton no HSBC Arena, em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio de Janeiro
Eric Clapton não é Deus, como diziam os grafites dos muros londrinos nos anos 60, mas está bem perto da perfeição. As quase duas horas de show do cantor e guitarrista inglês no domingo no HSBC Arena, no Rio de Janeiro, foram irretocáveis. Mesmo em um ano de tantas atrações internacionais estelares vindo ao Brasil, vai ser difícil alguém superar Clapton, que se apresenta novamente nesta segunda no HSBC Arena; e no estádio do Morumbi, em São Paulo, na quarta-feira.

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E isso tudo fazendo uma apresentação puramente musical, despida de qualquer artifício (incluindo fogos) para entreter a plateia. Nada de pirotecnia, de telões gigantes, bonecos infláveis, playbacks, bandeira do Brasil, camisa do Flamengo ou frases em português sofrível; sem dançarinas seminuas e coreografias de pole dance ou trocas de figurinos e de guitarras. Pois é, o público teve que se contentar só com música mesmo, quem diria. E gostou.

Clapton entrou e saiu de cena com o mesmo jeans surrado. E tocou com apenas duas guitarras, uma quando estava em pé, outra quando estava sentado.

Seu show não teve concessões fáceis. Nem mesmo as musicais. O maior sucesso pop dele, a lacrimosa “Tears in Heaven” (feita em homenagem ao filho morto, como é sabido), foi ignorado. Ele também deixou clássicos como “White Room”, “Sunshine of Your Love” e “After Midnight” de fora.

A primeira parte do show, com cinco canções e Clapton de pé, teve 41 minutos. Isso dá uma média de pouco mais de 8 minutos por música – uma eternidade para padrões radiofônicos, mas o público adorou. O guitarrista também dá espaço para a excelente banda se exibir, principalmente os dois tecladistas, Chris Stainton (que o acompanha há mais de três décadas) e Tim Carmon (este no órgão). Nessas horas, Clapton fica na penumbra, enquanto os coadjuvantes ganham o holofote. No meio do show, o guitarrista senta, chega a tocar violão, em "Driftin' Blues", por exemplo, e volta a ficar em pé na terceira e última parte da apresentação.

O repertório foi calcado no blues. Mas teve espaço para o pop de “Badge”, o country de “Lay Down Sally”, a balada romântica em “Wonderful Tonight” e o reggae de “I Shot The Sheriff” (que entrou no lugar de “Tearing Us Apart”, tocada em Porto Alegre, no primeiro show da turnê no Brasil, na quinta-feira, 6). Clapton revisitou boa parte de seu repertório, incluindo Cream (“Crossroads” e “Badge”) e Derek and The Dominos (“Layla”, “Nobody Knows You When You’re Down and Out” e “Key To The Highway”).

Com solo endiabrado – interrompido duas vezes no meio por aplausos – ele tocou a balada “Old Love”, do disco “Journeyman” (1990), uma boa lembrança para quem viu a primeira apresentação dele no Brasil, há exatos 21 anos. Do mesmo disco ele também tocou “Before You Accuse Me”. Já o CD “Reptile” (2001) – um ponto baixo em sua carreira, quando veio pela segunda e última vez ao País - , não foi lembrado.

Dessa vez, o guitarrista praticamente ignorou o último CD, o ótimo “Clapton”. Tocou apenas uma música, uma regravação: a deliciosa “When Somebody Thinks You’re Wonderful”, com sua irresistível atmosfera de entre guerras.

Ele emendou com uma “Layla” desacelerada, despojada do riff clássico e sem a tensão e a ansiedade originais. A canção desesperada feita para a mulher do amigo ganha uma reinterpretação mais madura e tranquila. Quarenta anos depois, a paixão e o sofrimento continuam lá, mas com um filtro mais melancólico e nostálgico.

E ainda teve “Cocaine”, para fechar. O bis foi com “Crossroads”. Que está para o blues como “Chega de Saudade” está para a bossa nova.

Setlist:
"Going Down Slow"
"Key To The Highway"
"Hoochie Coochie Man"
"Old Love"
"I Shot The Sheriff"
"Driftin' Blues"
"Nobody Knows You When You're Down And Out"
"Lay Down Sally"
"When Somebody Thinks You're Wonderful"
"Layla"
"Badge"
"Wonderful Tonight"
"Before You Accuse Me"
"Little Queen Of Spades"
"Cocaine"

Bis :
"Crossroads"

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