Musa do tecnobrega, Gaby Amarantos festeja música do Norte

"Beyoncé do Pará" dá espetáculo e provoca reflexão sobre identidade na Virada Cultural

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial do iG Cultura | 17/04/2011 09:50

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Foto: AE

A cantora Gaby Amarantos

"A gente gosta, sim, de ser chamado de índio." O palco é o da alameda Barão de Limeira, por onde só passaram até este amanhecer de domingo artistas nordestinos: Dominguinhos, Anastácia, Genival Lacerda (num genial espetáculo de forró-jazz), Sandro Becker, Flávio José, Eliezer Setton. "A gente é do nordeste. Do nordeste do Pará", satiriza, do alto do palco, a índia amazônica Gaby Amarantos, nascida no bairro dos Jurunas, em Belém do Pará.

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Gaby vive com total consciência o processo de fixar uma identidade à qual o resto do Brasil ainda não está acostumado (talvez nem o próprio Norte do país esteja), a do artista brasileiro firmemente ancorado em suas origens indígenas. Ela canta o gênero musical mais popular de sua terra, o tecnobrega, e atira sem parar ao público das 6h da manhã frases de autoafirmação: "Essa tribo tá chegando do Pará", a música dessa tribo é "o som que bate forte no estado do Pará", "eu saí da floresta, mas a floresta nunca sai de mim".

Por isso, mas não só por isso, Gaby Amarantos é a artísta brasileira que mais entende de identidade neste início do século 21. "Galera da Laje", da conterrânea e contemporânea Gang do Eletro, é um dos gritos de guerra (ou melhor, de paz) de seu rito tribal. Mais de uma vez, durante o show, ela lembra com reverência que a artista que a seguirá naquele palco é Dona Onete, veterana divulgadora de outra tribo musical, o carimbó, mais um ritmos afrobrancoindígena legado pelo Pará a um Brasil em que quase todos (ainda) estão surdos para os sons que vêm dali de cima.

Gaby é intérprete para vários gêneros - soma por exemplo "Eu Bebo, Sim", sucesso da deusa carioca Elizeth Cardoso nos anos 70, ao maroto tecnobrega "Bebadoida". Mas o que a faz explodir mesmo de orgulho é polinizar tecnobrega por aí. Encontra-se num (primeiro) momento de auge, no qual, acompanhada por uma banda afiadíssima, transforma a música sintetizada das aparelhagens paraenses em rock'n'roll (quase) orgânico - mas rock'n'roll paraense, não novaiorquino, inglês ou mesmo paulista.

Por conta de uma versão tecnoindígena de "Single Ladies", Gaby já foi vendida nos domingões da Globo como "a Beyoncé do Pará", e capitalizou o marketing, mas não parece mais satisfeita com o codinome. Resiste em atender os pedidos para que cante a versão "Tô Solteira". Faz só um trecho e profere mais uma frase de afirmação de identidade: "Beyoncé é maravilhosa, mas eu amo ser Gaby Amarantos".

Foto: AE Ampliar

Gaby no Arouche: seios teimavam em pular para fora da blusa cor da pele

A Gaby que ela ama ser é índia de fita na testa, olhos pintados de verde-papagaio e seios livres que pulam a todo instante para fora de uma malha transparente. A roupa colada ao corpo sinuoso lembra a pele de uma cobra, de uma anaconda amazônica - se não for de uma índia pelada, pintada de verde, como não cantou mais cedo a índia ruiva paulistana cherokee Rita Lee. As botas, no entanto, são paulistonas, meio sadomasoquistas, um quê de punk rock no visual, na sonoridade e na atitude paraenses.

Tudo faz o maior sentido: o tecnobrega (ou tecnomelody, como preferem os que se envergonham do termo "brega"), sobretudo em vertentes novíssimas como eletromelody, cybermelody etc., são identidade e atitude faça-você-mesmo com intensidade que não se conhecia desde o levante punk rock de 35 anos atrás. Não estranhe se, daqui a 35 anos, as manchetes de memórias estamparem que a música do Pará foi o som mais punk do planeta no início deste século (não é por bobice que Gaby demarca desde já o território, cobrindo-se a certa altura da apresentação por uma bandeira de dupla face, um lado paraense, outro brasileiro). Como talvez diga mais tarde Paulinho da Viola, as coisas estão no mundo, a gente só precisa aprender.

Os programadores da Virada Cultural captaram algo no ar, mas não entenderam completamente. Escalaram Gaby para horário ingrato, de plateia pouca e dispersa ao início do show. Do resto, a Debbie Harry do Pará se encarrega. Entre os primeiros grupos a perceber que algo está acontecendo ali estão as travestis do centro paulistano, que afluem às dezenas ao show daquela índia "bebadoida". Pouco a pouco, outras tribos vão afluindo e diversificando o kuarup, mas até o final da pajelança tecnobrega a presença das travestis é que fará a diferença.

Não é casual: atrás da festa de aparelhagem que é o corpo de cada travesti, há uma índia de cabelos negros como as noites que não têm luar, pronta e pintada para a guerra (ou para a paz). Os cabelos não são louros como os de seu espelho no alto do palco, mas elas estão, há muito, vestidas com as roupas e as armas de Índia Gaby, vindas de onde antigamente todo dia era dia de índia. O Brasil somos todos índios - pense na transexual Léa T., filha do jogador de futebol Toninho Cerezo, cujos cabelos negros escorridos domam passarelas nos altos circuitos da moda mundial. Gaby é das primeiras a alardear essa cachoeira de identidades por aqui mesmo, em modos de orgulho, marketing e autoafirmação. Gaby, gostamos, sim, de ser chamados de índios.

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