Zona Leste de SP é berço de grupos de rock inspirados no "lado B" dos anos 1960

Por iG São Paulo , especial por Miguel Martins | - Atualizada às

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Região formou mais de uma dezena de bandas; letras compõem retrato de uma cidade vivida em suas ruas e esquinas.

Antes das facilidades da internet, quem conhecia grupos obscuros e movimentos musicais do passado geralmente era iniciado em alguma rede local, formada por músicos, jornalistas e colecionadores. Ou pelo menos tinha acesso a uma das fitas cassetes gravadas por eles.

Em bairros da zona leste de São Paulo como Vila Diva, Vila Nova Iorque e Vila Formosa, a circulação de fitinhas com coletâneas de bandas “lado B” dos anos 1960 - como The Chocolate Watchband, The Seeds, Strawberry Alarm Clock, entre outras ainda mais obscuras - foi um dos combustíveis para o surgimento de uma cena musical espontânea na região.

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Davilym Dourado
Membros das bandas Skywalkers, Os Migalhas, Laboratório SP, Transistors, Fuzz Faces e Sunglasses com amigos em frente ao Bar do Aranha, em 2003

Desde o fim dos anos 1990, grupos independentes de rock como Os Skywalkers, Laboratório SP, Modulares, Fuzz Faces, Os Migalhas, Haxixins, Transistors, Surfin’ Bastards, Los Nachos e Sunglasses foram formados na região mais populosa de São Paulo, habitada principalmente por integrantes das classes C e B.

Leia também: Bar do Aranha era local de shows de bandas roqueiras da zona leste

A cena, que viveu sua “era de ouro” há dez anos, ainda é alimentada por remanescentes. Os Skywalkers preparam o terceiro disco da carreira; os Modulares estão para lançar um vinil por um selo francês; e os Haxixins, mesmo com mudança de integrantes, ainda estão na ativa.

Davilym Dourado
Apresentação do Laboratório SP, em julho de 2003

Nos últimos 15 anos, a turma da zona “lost” - como eles próprios a chamam - ecoou a preferência por equipamentos antigos, experimentação psicodélica e o espírito pré-punk “faça você mesmo” das bandas de garagem dos anos 1960.

“O sessentismo sempre foi uma coisa espontânea da turma”, conta Pedro Bizzelli, 35, vocalista e guitarrista dos Skywalkers. “E, de repente, umas figuras novas acabavam se encontrando em algum show, e sacando que não eram os únicos esquisitos do bairro.”

Os “esquisitos” trafegavam por várias tendências, do mod do Laboratório SP à psicodelia retrô do Haxixins, passando pelo cozido de Tropicália, Jovem Guarda e Tim Maia dos Skywalkers.

Com canções que abordam desde experiências lisérgicas - como em “Depois de um LSD”, dos Haxixins - a visões iconoclastas de ídolos do rock – como em “27 – Ou Quem Quer Ser Kurt Cobain”, dos Skywalkers -, as letras das bandas da zona leste compõem um retrato de uma São Paulo vivida em suas ruas e esquinas.

Caso de “Sob o Céu de São Paulo” (do álbum homônimo, de 2003), em que o Laboratorio SP fala de um “mundo paralelo”, onde garotas nas esquinas mostram como a vida pode ser melhor, “longe das novelas, da televisão”. Ou de “Meu Amor no Centro Velho” (do álbum "Zenmakumba", de 2005), em que Os Skywalkers narram as peripécias de um encontro romântico entre “bocadas e becos tortos/ junto aos fantasmas dos prédios mortos”.


Para Jun Santos, 39, guitarrista das bandas Laboratório SP e Modulares, a turma não tinha apenas referências musicais e o perímetro geográfico em comum. Havia um clima de fraternidade entre os membros da cena, que compareciam em peso aos shows, mesmo quando eram mais distantes de casa.

“As pessoas começaram a pensar que éramos uma gangue, porque simplesmente adorávamos as bandas da nossa quebrada”, lembra Jun, que cresceu na Vila Diva.

Essa atmosfera efervescente que envolveu a zona leste na década passada, entretanto, tem perdido algum fôlego nos últimos anos. Para Bizzelli, foi o encerramento natural de um ciclo. “A coisa esfriou pelo fato de que ninguém vivia de música, e, afinal, esse tipo de som atraia um público muito específico.”


Apesar de algumas turnês fora do país e o reconhecimento de publicações especializadas, a cena da zona leste atravessou os últimos dez anos em uma espécie de “underground do underground", como Jun Santos define.

Cenário não muito diferente das bandas garageiras dos anos 1960, que só foram sendo mais conhecidas pelo público com a edição de coletâneas nas décadas seguintes. Talvez, não em fitinhas, mas em podcasts ou blogs pela internet, compliações das bandas da zona leste também possam inspirar novas cenas musicais no futuro.

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