Rafael Coutinho e a aventura de Cachalote

Quadrinista fala sobre o desafio de desenhar sua primeira graphic novel

Guss de Lucca, iG São Paulo | 23/04/2010 16:34

Texto:
enviar por e-mail
* campos são obrigatórios
corrigir
* campos obrigatórios

Como qualquer segmento em fase de crescimento, o mercado das graphic novels brasileiras ainda carece de mais adeptos - ou, nesse caso, aventureiros - dispostos a descobrir na prática metodologias para a criação e desenvolvimento de HQs desse porte.

Tradicionalmente o Brasil é rico na produção de charges e tirinhas, possuindo em suas fileiras alguns dos melhores cartunistas do mundo. Laerte, Angeli e Fernando Gonsales são alguns exemplos vivos de mestres desta arte que tem como premissa mensagens curtas e diretas - o oposto das graphic novels.

Lançada no País pela Cia das Letras, a graphic novel Maus: a História de um Sobrevivente, de Art Spiegelman, possui nada menos que 296 páginas devidamente ilustradas - um trabalho que consome muito tempo para ser finalizado.

Com a disposição de sobra, o artista plástico Rafael Coutinho dedicou-se durante dois anos a confecção de Cachalote, HQ feita em conjunto com o escritor Daniel Galera que teve seu lançamento adiado em seis meses - prometida para novembro de 2009, a graphic novel deve sair em maio deste ano.

Foto: Augusto Gomes Ampliar

O quadrinista Rafael Coutinho em seu estúdio, em São Paulo

Durante o processo de arte finalização das últimas páginas de Cachalote, o quadrinista conversou pelo telefone com o iG Cultura e falou sobre o desenvolvimento de suas 300 páginas - sem largar a caneta nanquim durante a entrevista.

O que é uma graphic novel?

Acho que a primeira coisa que define uma graphic novel é a temática mais adulta e o nível de profundidade que a história alcança. Desde Batman, das graphic novels do Batman, até as graphic novels européias, a diferença é o quão profunda a história é, como uma série com pretensões de longa-metragem.

De acordo com o André Conti, da Quadrinhos na Cia, os desenhistas brasileiros estão descobrindo o tempo de gestação de uma graphic novel. Foi isso que ocorreu com a Cachalote?

Foi, a gente não sabe nem calcular quanto tempo... Os quadrinistas estão aprendendo, eu tive que aprender a duras penas, o que significa se dedicar a um projeto comprido, você acha que demora um ano e demora dois.

O projeto foi evoluindo conforme a gente foi descobrindo o que ele era e o que a gente queria com ele. Em seis meses ele evoluiu de um projeto de 100 para 300 páginas. Um processo árduo e comprido, quase como se o projeto exigisse o que ele precisa e você só está ali para aprender e executar.

Então vocês não trabalhavam com uma história fechada, digo, com um começo, meio e fim totalmente definidos?

A gente trabalhava com algumas ideias guias e áreas de interesse que os dois alimentavam. E foi muito um processo de descoberta um do outro, como cada um trabalhava, o ritmo de cada um, o tempo que levou para eu descobrir quem era o Galera profissional, para nossa amizade evoluir.

O período que começamos a ser amigos foi o período que a gente começou a entender o tipo de história que tínhamos nas mãos. Foi um pouco isso. O Galera tinha umas histórias, eu tinha outras histórias e acabaram virando seis no total. As seis pareciam respirar numa mesma atmosfera. Foi dai que nasceu o ambiente.

Mas essas histórias se conversam como? Existem personagens que as conectam?

Elas são independentes umas das outras, mas se conversam de uma forma simbólica e narrativa. Estruturalmente elas têm similaridades e acho que até emocionalmente, as personagens estão em busca de algo similar.

Foto: Divulgação

Imagem da graphic novel Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho

Algumas dessas histórias são autobiográficas?

Não. Todo autor projeta dentro da sua história algo de si, aquele que produz conteúdo. Mas eu estaria sendo muito desonesto se dissesse que sim, mas sei que existem experiências minhas e do Galera ali dentro. É uma ficção.

E como foi o seu cotidiano nesses dois anos ilustrando a Cachalote? Você desenvolveu uma rotina, um ritmo de trabalho?

Cada desenhista tem um ritmo, ele tem que descobrir o seu ritmo em projetos compridos. Todos têm que gostar um tanto dessa solidão, é muito difícil, é um projeto que exige muita energia, tempo e concentração. É quase uma atividade budista, um mantra.

Mas há um certo prazer em se isolar e se dedicar “autisticamente” a uma HQ. Se o cara não gostar disso ele não aguenta.

Foto: Divulgação Ampliar

Ilustração de Rafael Coutinho para Cachalote

Mas como é esse ritmo? Você gastava quantas horas diárias na prancheta em média?

Varia. Tem dias que eu não trabalho, tem meses que eu não folgo em um dia. Acho que varia. Houve períodos distintos nesse processo de dois anos. Eu posso dizer que passei por todas as tentativas e experimentações possíveis. Uma coisa é certa, você tem que trabalhar até cansar e depois seguir em frente.

No seu caso o trabalho não é totalmente solitário, você divide o estúdio com o também quadrinista Rafael Grampá. O nome do estúdio de vocês é mesmo Salão de Beleza?

A gente batizou de Salão de Beleza, mas é uma brincadeira. A gente se dedica à incrível arte das coisas belas - risos.

Mas vocês conversam ou trabalham calados?

É quase um divã, uma terapia com os dois de costas falando de tudo, ouvindo música, fumando cigarro e fofocando. Quadrinhos é um assunto infinito, se você quiser pode passar uma vida inteira falando sobre.

No caso vocês devem ter muita bagagem. Imagino que começaram lendo quadrinhos infantis, da Turma da Mônica, passando pelos super-heróis...

Li Turma da Mônica, mas no meu caso fui uma criança diferente, tinha o acervo do meu pai [o cartunista Lerte] em casa, então li coisas como Víbora, que é um quadrinho espanhol quase pornô, Zap Comics... eu devia ser uma criança no mínimo excêntrica - risos.

Texto:
enviar por e-mail
* campos são obrigatórios
corrigir
* campos obrigatórios

Notícias Relacionadas


Mais destaques

Destaques da home iG

Ver de novo