Alice Munro, mestre do conto e da complexidade do coração humano

Por NYT | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Ganhadora do Nobel de Literatura, escritora canadense coloca em histórias curtas o arrebatamento e a densidade de romances longos e íntimos

NYT

Alice Munro, ganhadora do prêmio Nobel de Literatura deste ano, certa vez observou: "A complexidade das coisas - coisas dentro de coisas - simplesmente parece sem fim. Quero dizer, nada é fácil, nada é simples."

Esta também é a descrição perfeita dos contos discretamente radiantes de Munro - contos que a estabeleceram como uma das principais praticantes do gênero. Ambientados em grande parte em pequenas e rurais cidades do Canadá, e muitas vezes focados nas vidas de meninas e mulheres, seus contos têm o arrebatamento e a densidade de romances longos e íntimos, mapeando as marcas nos corações de suas personagens com empatia e sabedoria Chekhovianas.

Leia também: Alice Munro ganha o Nobel de Literatura 2013

Aparentemente simples, estas histórias são, na verdade, construções incrivelmente complexas que vão e vêm no tempo e entre realidade e memória, se abrindo magicamente para revelar visões panorâmicas das vidas dessas pessoas (os inícios, fins e mudanças que se destacam como momentos importantes em suas histórias pessoais) e os detalhes de seu dia a dia: o maçante "comida, bagunça, casa" que só pode consumir o tempo de suas heroínas até certo ponto.

NYT
Alice Munro em Clinton, Ontario (23/06/2013)

Há uma amplitude emocional e uma densidade psicológica nas histórias de Munro que contrasta fortemente com o trabalho minimalista de Raymond Carver e os contos brincalhões e pós-modernistas de Donald Barthelme. Seu entendimento da vida doméstica, sua capacidade de simultaneamente detalhar as paisagens internas de seus personagens e seus lugares em uma comunidade meticulosamente observada, e seu talento para mapear "o progresso do amor" conforme se transforma ao longo do tempo - estes talentos não apenas ajudaram Munro a redefinir os contornos do conto contemporâneo, mas também a transformaram em uma das escritoras mais influentes da atualidade, celebrada por autores tão diferentes quanto Lorrie Moore, Jonathan Franzen, Deborah Eisenberg e Mona Simpson.

Em uma obra que se estende por quatro décadas e meia - da coletânea "Dance of the Happy Shades" (1968) a "Dear Life" (2012), que ela diz ser seu último livro -, Munro nos deu retratos prismáticos de gente comum que revelam sua inteligência, força e capacidade de sonhar, assim como suas mentiras e seus momentos de falta de coragem e boa vontade. Tais descrições são entregues não com julgamento, mas com um tipo de "amor sem piedade" de um amigo ou parente.

Como Munro, muitas das mulheres nessas histórias cresceram em pequenas cidades do Canadá e, em certo momento, tiveram de decidir entre ficar ou ir para um mundo maior. Suas vidas muitas vezes se estendem por décadas de mudança social surpreendente - de um tempo e lugar nos quais chás da tarde e luvas brancas eram "de rigueur" a dias de lojas de alimentos saudáveis e bares com strippers.

As mulheres de Munro, como os homens de John Updike, muitas vezes se encontram às margens de transformações culturais e de costumes, e puxados por imperativos conflitantes - entre enraizamento e fuga, domesticidade e liberdade, entre seguir as responsabilidades familiares ou os sussurros urgentes de seus próprios corações.

Em conto após conto, a paixão é o ímã ou o motor das decisões das mulheres. Amor, sexo, casamento e adultério muitas vezes são espelhos que revelam as expectativas das heroínas de Munro - seus sonhos e cruéis autoilusões, o senso de independência e a necessidade de pertencer.

Munro é adepta de traçar as muitas configurações que a intimidade pode ter ao longo dos anos, mostrando como pode sufocar um casamento ou injetar nele um renovado senso de devoção. Ela mostra como o ardor sexual pode se transformar em um uma chama e como um encontro impulsivo pode se tornar uma estimada memória, um baluarte contra as banalidades da meia-idade.

AP
A escritora canadense Alice Munro, em foto de 2009

Doenças e mortes frequentemente invadem essas histórias e o leitor é frequentemente lembrado sobre a precariedade da vida - e o papel que podem ter a sorte, o acaso e as escolhas imprudentes, feitas no calor do momento. Alguns dos personagens de Munro abraçam a mudança como uma força libertadora que as vai tirar da rotina, ou ao menos satisfazer sua ávida curiosidade sobre a vida. Outras a veem com medo, preocupadas com a possibilidade de perder tudo o que amam - ou que ao menos consideram familiar.

Alguns dos contos mais recentes de Munro trocaram as narrativas elípticas dos anos anteriores por algo mais "antigo". Comparadas a seus trabalhos anteriores, algumas das histórias de "Dear Life" têm narrativas rigidamente traçadas e finais mais claros do que no passado.

Os destaques deste volume são os quatro últimos contos, que ela descreveu como "a primeira e a última coisas que tenho a dizer sobre minha própria vida"- um comentário que lembra o leitor de como as histórias de Munro seguiram os contornos gerais de sua vida: da infância em uma comunidade rural de Ontario ao casamento bem cedo e a mudança para British Columbia, seguido de um divórcio, um novo casamento e mudança de volta para o interior de Ontario.

Escritores e artistas fazem algumas aparições nas histórias de Mundo, mas contar histórias é importante para todos os seus personagens, não importa a profissão - aliás, é uma ferramenta essencial para ordenar e dar sentido às suas vidas. 

Às vezes é uma forma de reimaginar o passado para manufaturar uma identidade ou mistificar uma família. Às vezes um modo de priorizar certos eventos em detrimento de outros. Às vezes é uma forma de encontrar padrões no caos do dia a dia. E às vezes, como nas maravilhosas histórias da própria Munro, é uma forma de conectar passado, presente e futuro - não em termos convencionais de inícios, meios e fins, mas em jeitos novos e surpreendentes que deixam os leitores com uma renovada apreciação da infinita "complexidade das coisas - as coisas dentro das coisas."

Leia tudo sobre: alice munrolivrosnobel de literaturamaislidas

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas