"O Espião que Sabia Demais" tem mistério e suspense na dose certa

Gary Oldman estrela adaptação de Tomas Alfredson para obra de John Le Carré, que entra para a história do cinema de espionagem

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

É um filme de espionagem , mas não espere smokings, armas sofisticadas, garotas fatais ou qualquer sinal de glamour. "O Espião que Sabia Demais", que estreia nesta sexta-feira (13) no Brasil, retrata o universo do MI6, serviço secreto britânico (o mesmo de James Bond), sem romantismo – o que nem de longe é um defeito.

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Situada na década de 1970, a trama baseada no romance de John le Carré (mesmo autor de "O Jardineiro Fiel", filmado por Fernando Meirelles) utiliza o clima de ar rarefeito imposto pela Guerra Fria para criar o que um filme com espiões deveria ter como princípio: mistério e suspense constante.

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Gary Oldman em "O Espião que Sabia Demais": reconstrução de personagem clássico de John le Carré
O herói da história já deixa claro que não se trata das fantasias popularizadas por Ian Fleming, criador do 007. George Smiley (Gary Oldman) é um agente de meia-idade, cabelos grisalhos e de poucas palavras, desprovido de charme ou encantamento. Para quem precisa viver à margem, anônimo, nada mais funcional.

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Após uma missão desastrosa na Hungria, Control (John Hurt), o chefe do MI6, chamado aqui de Circo, é aposentado compulsoriamente e leva Smiley junto para o ostracismo. A suspeita de que há um agente duplo soviético na cúpula da inteligência britânica, no entanto, faz com que Smiley volte à ativa para descobrir o traidor, ou seja, espiar os espiões. Ao seu lado, está o agente interpretado por Benedict Cumberbatch, que, apesar de famoso como Sherlock Holmes na série contemporânea da BBC, faz agora as vezes de Watson.

O elenco impecável de suspeitos é formado por Colin Firth, Toby Jones, Ciarán Hinds e David Dencik, alvo dos codinomes do título original em inglês ("Tinker Tailor Soldier Spy"). Os quatro são os pilares de uma rede ardilosa da qual também fazem parte os agentes vividos por Mark Strong e Tom Hardy (vilão do novo "Batman"). Em jogo, buscar a identidade do culpado, eficaz desde sempre, de "O Caso dos Dez Negrinhos" a "Os Suspeitos".

Só que "O Espião que Sabia Demais" não tem nada de trivial, a começar pela ambientação. Os anos 1970 na Inglaterra aparecem na tela de modo asfixiante, em seus escritórios com jeito de repartição pública, saias e ternos de tweed, manhãs frias e cores esmaecidas.

No seu primeiro trabalho em inglês, o diretor sueco Tomas Alfredson, do celebrado filme de vampiro "Deixa Ela Entrar" , mostra desde aí seu completo domínio da mise en scène, expresso no rigor e na criatividade com que a câmera passeia pelo cenário (atenção para o olhar de dentro do elevador de documentos, que flagra as entranhas do serviço secreto).

O cineasta já havia mostrado em "Deixa Ela Entrar" seu talento para criar tensão sem pirotecnia, e ele aparece novamente. Cumberbatch encabeça uma sequência modelo, quando desce aos arquivos do MI6 para tentar surrupiar documentos secretos. Suspense de primeira, de fazer suar e escorregar para a pontinha da poltrona.

Entrevista: Gary Oldman volta às sombras em "O Espião Que Sabia Demais"

Alfredson ainda prova que não precisa nem de diálogos para emocionar – o desfecho, brilhante, é conduzido apenas ao som de "La Mer", clássico da chanson française, na voz de Julio Iglesias.

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Benedict Cumberbatch: de Sherlock a Watson
Mas os méritos não são todos do diretor. Não dá para esquecer o roteiro do casal Peter Straughan ("Os Homens que Encaravam Cabras") e Bridget O'Connor (que morreu de câncer antes da estreia), que transpôs a complexa ação do livro, narrada como se fossem memórias do agente Smiley, para o tempo presente. O resultado, acertado, usa o flashback com parcimônia e eficiência.

A outra força-motriz de "O Espião" é Gary Oldman, em um de seus melhores papéis. George Smiley protagoniza alguns best-sellers de John le Carré e já foi interpretado diversas vezes – aparece, por exemplo, em "O Espião que Veio do Frio" (65) e na adaptação anterior de "O Espião que Sabia Demais", uma minissérie inglesa de 1979. Essa é justamente sua versão mais famosa e idolatrada pelos britânicos, que viam o Smiley de Alec Guinness (o Obi-Wan Kenobi) como imbatível.

Eles não contavam com Oldman. O ator consegue minimizar sua performance a ponto de sumir atrás da armação dos óculos. Sobram os olhos atentos, a expressão corporal, uma insignificância que esconde genialidade e uma dor profunda: Smiley sofre com a separação da mulher e por ter deixado escapar Karla, codinome do espião-chefe soviético. O rosto dos dois, aliás, não é mostrado em nenhum momento, numa jogada de mestre.

Esnobado pelo Globo de Ouro e com uma campanha forte para figurar entre os indicados ao Oscar 2012 , "O Espião que Sabia Demais" usa peças de xadrez para ilustrar a astúcia que permeia toda a história. O xadrez é elegante como o filme, mas um jogo de cartas repleto de blefes seria ainda mais apropriado. Porque por baixo das camadas com linguagem em código e do punhado de personagens que lotam a trama, sobressai-se a traição. Traição à pátria, à amizade, a uma causa, ao amor. Um mundo traiçoeiro, em que não se pode confiar em ninguém. Mas isso não é exatamente do que trata um filme de espionagem? "O Espião que Sabia Demais" é exemplar.

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