Eletrizante e visualmente impactante, "Drive" é o filme de ação do ano

Esnobado pelo Oscar, aclamado pela crítica, longa com Ryan Gosling é apoiado em referências pop

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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Ryan Gosling a caráter em "Drive": estilo e o neon as ruas de Los Angeles
Um dos filmes mais falados de 2011 chega finalmente nesta sexta-feira (02) ao Brasil, depois de várias estreias adiadas. "Drive" encabeçou boa parte das listas de melhores do ano passado e desde a sua estreia no Festival de Cannes , de onde saiu com o prêmio de direção para o dinamarquês Nicolas Winding Refn , vem ganhando aura cult e uma legião de fãs, que chiaram quando o filme recebeu apenas uma indicação ao Oscar 2012 (de melhor edição de som).

Tanta agitação tem razão de ser. Estrelado por Ryan Gosling, "Drive" é, além de eletrizante, recheado de elementos que permitem uma rápida identificação com o mundo pop: uma trilha sonora oitentista puxada por sintetizadores a ala Angelo Badalamenti, e estilo, muito estilo, numa caracterização deliciosa.

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Como o Estranho Sem Nome de um faroeste, apresentado apenas como "piloto", "motorista" ou "garoto", o personagem de Gosling usa luvas de couro sem dedos, palito no canto da boca, óculos escuros e uma jaqueta prateada com um escorpião nas costas – a roupa virou febre nas festas do Dia das Bruxas, em outubro. Os enquadramentos e closes parecem ter sido feitos para fazer de qualquer elemento um colecionável em potencial.

Ouça abaixo a música de abertura, com participação da brasileira Luiza Lovefoxxx:

"Drive" é uma adaptação do romance homônimo de James Sallis, publicado recentemente no Brasil. Nas mãos do roteirista iraniano Hossein Amini (indicado ao Oscar por "Asas do Amor"), o noir moderno situado em Los Angeles recebeu outras nuances, falas secas, diretas, e uma estrutura linear que o livro não tem.

Depois que a Universal Pictures, dona inicialmente dos direitos do livro, desistiu de torná-lo um veículo para Hugh Jackman , Gosling entrou em cena e, com ele, Winding Refn, conhecido pelos filmes da série "Pusher" e pelo curioso "Bronson" (2008). Os dois, ator e diretor, colaboraram no roteiro e "Drive" ganhou sua cara, uma mistura de gêneros.

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Carey Mulligan e Ryan Gosling em "Drive": química expressa só com o olhar
A introdução do filme é exemplar. Em pouco tempo já se sabe que o Motorista tem duas frentes de trabalho: uma, oficial, como dublê em Hollywood, e outra como condutor de assaltos. Ele conhece as ruas da cidade com a palma de mão e consegue fugir sem deixar rastros, desde que a ação seja feita em no máximo cinco minutos. Mecânico veterano da indústria cinematográfica, Shannon (Bryan Cranston, de "Breaking Bad") agencia o rapaz em ambos os negócios e tem grandes planos para ele na Stock Car.

Aí surge Irina (Carey Mulligan, de "Educação"), a vizinha de ar angelical, e seu filho Benicio. Sem muito diálogo, centrada nos olhares, a química entre ela e o Motorista é instantânea. "O que você faz?", ela pergunta. "Eu dirijo ['drive', em inglês]", ele responde. A tensão dos dois é tão palpável que daria para colocar numa caixa, embrulhar e dar de presente no Dia dos Namorados.

"Drive" dá uma guinada brusca quando o marido de Irina (Oscar Isaac) sai da prisão. De repente, abrem-se as portas para um banho de sangue (o diretor tem como seu filme favorito "O Massacre da Serra Elétrica) e a ação, até então plácida, entra chutando a porta. O Motorista mostra ser perigosamente violento quando quer e, tal qual o Philip Marlowe de Raymond Chandler, implacável até com as mulheres – que o diga Christina Hendricks , presente numa ponta.

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Albert Brooks, o "vilão" de "Drive"
É só um exemplo de um amontoado de referências. Fica claro que Winding Refn viu e reverencia "Caçador de Morte" ("The Driver"), dirigido por Walter Hill em 1978: do visual às perseguições e a semelhança de Ryan O'Neal com Gosling, está tudo ali. Mas há ainda um quê do Shane de "Os Brutos Também Amam" (1953) e do próprio "Desejo de Matar" de Charles Bronson, quando o Motorista se converte num anjo vingador em busca de justiça.

Fazem parte dessa trama a dupla de mafiosos formada por Nino (Ron Pearlman, que mantém sua fama de mau) e Bernie Rose, interpretado pelo sumido Albert Brooks ("Um Visto para o Céu"), excelente como um ex-produtor de cinema que diversificou seus negócios.

É Bernie quem financia o empreendimento de Shannon na Stock Car e simula, de certa forma, o pêndulo no qual o filme se apóia: paternal e agradável num instante, assassino no outro, como o próprio Motorista. Um simulacro da lenda de Los Angeles, terra do sonhos que mastiga e cospe os desavisados.

null"Drive" não é irretocável, em especial na construção de Irina e próximo do fim, quando o Motorista, próximo da insanidade, não tira o pé do acelerador para concluir o que se propôs. O herói sanguinário, aí, enfraquece sua empatia com o público.

Mas a conclusão mantém mais do que nunca o espírito de faroeste e acentua um clima fantástico, de conto de fadas, que flutua pela história. "Drive" choca, comove, instiga e entretém no mesmo pacote. É irresistível vibrar durante a projeção, de tensão ou de prazer. Um belíssimo filme de Gosling e Winding Refn, que vão repetir a dose, com "Only God Forgives", ambientado na frenética Tailândia – nada mais adequado para a energia da dupla.

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