"A Fonte das Mulheres" imagina greve de sexo no Islã

Exibido em Cannes, filme de cineasta romeno combina musical para falar de feminismo em comunidade muçulmana na África

Reuters |

No festivo, musical e politicamente correto "A Fonte das Mulheres", o diretor romeno Radu Mihaileanu ("O Concerto", "Trem da Vida") imagina um manifesto feminista numa pequena comunidade muçulmana no Magreb, norte da África. Coproduzido pela França, Bélgica e Itália, o filme concorreu à Palma de Ouro em Cannes 2011 .

A pequena aldeia, assombrada pela seca, o desemprego e a corrupção das autoridades locais – que atrasam a instalação da água encanada e da eletricidade – sobrecarrega de trabalho pesado suas mulheres. Sempre levando baldes nas costas, ladeira acima, ladeira abaixo, várias delas, grávidas, perdem os filhos.

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Depois de um novo aborto de uma delas, a jovem Leila (Leila Bekhti, de "O Profeta"), uma das raras mulheres que sabe ler, lidera uma greve de sexo, procurando forçar os homens locais a se mexerem para resolver os problemas do povoado.

Divulgação
"A Fonte das Mulheres", de Radu Mihaileanu: olhar diferente sobre o Islã
É uma trama que evoca a peça grega "Lisístrata", de Aristófanes, mas tem outros desdobramentos. Um deles é como se dividem as reações masculinas ao inusitado protesto, num contexto nitidamente machista e conservador. O marido de Leila, Sami (Saleh Bakri, "A Banda"), está entre os liberais. Mas há homens intolerantes e impacientes, que partem para a agressão, acreditando assim poder dobrar as mulheres pela intimidação.

Como era de se esperar, as autoridades religiosas intervêm, o que dá margem a uma animada discussão sobre aquilo que está ou não previsto no Alcorão. Como em qualquer religião, tudo depende das interpretações, que viajam ao sabor da conveniência de quem se habituou a ser sempre amo e senhor e não quer ver o fim desse estado de coisas.

Mesmo entre as mulheres, as opiniões se dividem. A sogra de Leila (Hiam Abbass, de "Free Zone"), está à frente do bloco ultraminoritário que hostiliza as neofeministas, especialmente por ser encabeçado por sua nora – que veio de outra região e nunca foi muito bem-vista por ela.

nullAinda que tratando de temas sérios, o tom grave é quebrado pelo formato musical. Usando canções, injeta-se um bem-vindo humor em inúmeras situações. Não só isso. Se há um mérito no filme de Mihaileanu é lançar uma luz diferente sobre a cultura muçulmana, quebrando o molde monolítico que o fundamentalismo procura fazer crer que seja a sua única voz e expressão. Diante das sucessivas rebeliões recentes no mundo árabe (Egito, Tunísia, Síria), o filme ganha ainda mais interesse e atualidade.

Outro ponto alto é o elenco feminino principal, em que se destacam a veterana atriz argelina Biyouna (como a rebelde Velho Fuzil), Hafsia Herzi ("O Segredo do Grão") e Sabrina Ouazani ("Homens e Deuses").

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