Preso durante operação em favela em 2010, MC Smith estreia como ator em "Alemão"

Por Nina Ramos , iG Rio de Janeiro | - Atualizada às

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"Estou aqui para ser história, para virar matéria de escola", diz o funkeiro, que foi considerado inocente 15 dias após a detenção

Em 2010, Wallace Ferreira da Mota, conhecido no Complexo do Alemão, em várias outras comunidades e na internet como MC Smith, teve sua ficha manchada, como o mesmo contou ao iG. Durante a invasão ao Alemão para a criação da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), MC foi preso por soldados das Forças Armadas sob a acusação de apologia ao crime e associação ao tráfico de drogas. Quinze dias depois, foi considerado inocente e liberado. E quatro anos depois, lança o filme “Alemão”, no qual aparece como ator e integra a trilha-sonora.

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MC Smith (de preto, com arma na mão) em imagem do filme 'Alemão'

“Tenho uma resposta para isso (para a situação que viveu). Não pagar o mal com o mal. Eu poderia ter me revoltado, virado criminoso, e não foi isso que aconteceu. Enquanto todos estavam me tachando como bandido, eu estava ali como revolucionário. Nelson Mandela precisou ficar 27 anos preso para ser reconhecido. Se um dia for para eu perder minha vida em prol do que eu faço, tudo bem. Eu não estou aqui para ser milionário e nem ser conhecido até os 90 anos. Eu estou aqui para ser história, para virar matéria de escola. Essa é a minha pegada. Eu quero deixar um legado”, disse o jovem de 26 anos que no filme dirigido por José Eduardo Belmonte interpreta o bandido Mata Rindo.

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Cena do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Alemão'. Foto: Divulgação

O episódio aconteceu na sala da casa da sua mãe. MC se declarou e se declara inocente, disse que tudo o que fez e faz é sua música, e contou até uma história curiosa do momento em que foi detido. “Eles chegaram, chamaram meu nome e já falaram que eu estava preso, enquadrado em quatro artigos, e eu meio que fiquei tranquilo. O policial civil que sentou no meu sofá até falou: ‘Caraca, se meu filho souber que eu estou te prendendo ele vai ter um troço, porque ele é muito seu fã’. Os caras deram uma atenção de leão para gente, porque as pessoas viam que o que estavam fazendo com a gente era puro sensacionalismo”, falou.

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Para MC, que serviu de guia para o elenco de “Alemão” pelas comunidades durante o laboratório, sua prisão foi um ato de desespero. “Quando as Forças Armadas entraram no Alemão, eles não acharam as pessoas que queriam pegar. Sim, teve muita morte, muitas pessoas presas inocentemente. E a Secretaria de Segurança tinha que dar uma resposta para a sociedade. Como a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco, aconteceu isso. Foi uma coisa triste, dolorosa e frustrante para mim, porque eu não cometi nenhum crime, eu não roubei dinheiro público, eu não tirei a vida de ninguém, eu não fiz nada ilícito. E fui preso por expor minhas ideias”, relembrou.

“Vocês viram pela TV, mas para quem estava lá, foi como se a gente estivesse em Israel. Ver o tanque (de guerra) chegando, passando por cima dos carros, a correria, ônibus pegando fogo. Foi bem doloroso. Eu moro no Complexo desde pequeno, acompanhei todas as ocupações anteriores, mas essa vai entrar para a história. Foi uma coisa muito extraordinária quando as Forças Armadas entraram na jogada. Foi coisa de Hollywood. Só quem estava lá mesmo que sabe”, relata.

Atualmente morador da Penha (“O funk conseguiu me dar uma outra estrutura social e eu saí de lá”), MC Smith acredita que “Alemão” vai marcar sua vida. “Esse filme vai ser um divisor de águas. Vão me olhar daqui a uns dez anos como foi na época do tropicalismo, com Caetano e todo aquele povo que foi preso por expor suas ideias”, afirma.

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