Antonio Fagundes sobre cinema nacional: "Sem boas histórias não teremos público"

Por Luísa Pécora , iG São Paulo |

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Em entrevista ao iG, ator de "Quando Eu Era Vivo" defende filmes nacionais com baixo orçamento e boas histórias

Depois de um intervalo de seis anos, Antonio Fagundes volta aos cinemas em 2014 com dois filmes aguardados. Em "Quando Eu Era Vivo", que estreia nesta sexta-feira (31), interpreta o pai de um homem perturbado e obcecado pelo passado. Em "Alemão", que chega às salas em março, é um delegado de polícia envolvido na operação de invasão ao morro carioca.

Crítica: Com Sandy e Fagundes, "Quando Eu Era Vivo" tem clima, não sustos

Segundo Fagundes, o longo período afastado das telas é fruto da agenda movimentada no teatro e na televisão (atualmente, por exemplo, ele está no elenco da novela "Amor à Vida" e da peça "Tribos", em cartaz em São Paulo). Mas o ator também tem críticas à falta de boas histórias no cinema nacional.

"Sem contar boas histórias nunca vamos atingir o público que queremos", disse Fagundes, em entrevista ao iG. "E temos de sair do círculo vicioso do patrocínio."

Manuela Scarpa e Marcos Ribas/Photo Rio News
Antonio Fagundes na pré-estreia de 'Quando Eu Era Vivo' em São Paulo


Para o ator, a dependência do cinema brasileiro em relação ao financiamento público cria "deformações na relação com o público". "A partir do momento que a sua obra já está paga, você não deve satisfações a ninguém", afirmou.

Leia os principais trechos da entrevista:

iG: Você ficou cerca de seis anos sem fazer filmes. Quando voltou, encontrou um cinema brasileiro diferente?
Antonio Fagundes: Acho que está tendo uma vontade, tem algumas cabecinhas sendo postas para fora. Mas ainda falta alguma coisa. Falta a gente entender que temos que contar boas histórias. Sem contar boas histórias nunca vamos atingir o público que queremos. E a gente tem de sair do círculo vicioso dos patrocínios. Esse círculo é perverso.

iG: Por quê?
Fagundes: O patrocínio acaba criando uma série de deformações na relação com o público, com a plateia e com a sua própria obra. A partir do momento que a sua obra já está paga, você não deve satisfações a ninguém, então você perde a medida do olhar do outro. Você tem o seu olhar, e este olhar naturalmente vai se voltar para o seu umbigo. Isso é um terror para quem vive de comunicação. Acho que a gente tem de pensar nisso, tem de pensar em filmes de baixo orçamento que possam se pagar com a bilheteria, temos que fugir desse círculo perverso que está nos isolando do público. Alguns filmes brasileiros têm menos de 20 mil espectadores, e menos de 20 mil não quer dizer 19 mil, quer dizer 500, mil. Alguns filmes têm menos espectadores do que técnicos na equipe. Então a gente tem que dar uma sacudida. E tem gente querendo sair desse ciclo e contar boas histórias.

Imagem do filme 'Quando Eu Era Vivo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Quando Eu Era Vivo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Quando Eu Era Vivo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Quando Eu Era Vivo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Quando Eu Era Vivo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Quando Eu Era Vivo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Quando Eu Era Vivo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Quando Eu Era Vivo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Quando Eu Era Vivo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Quando Eu Era Vivo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Quando Eu Era Vivo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Quando Eu Era Vivo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Quando Eu Era Vivo'. Foto: Divulgação

iG: Acredita que dessa forma o público vá assistir mais filmes nacionais?
Fagundes: Com certeza. Temos 40 milhões de analfabetos no País (de acordo com pesquisa do IBGE, feita em 2012 e divulgada em 2013, o Brasil tem 13,2 milhões de analfabetos maiores de 15 anos). Eles vão ver o quê? Filme nacional. Agora, eles vão ver um filme que não entendem? Não, eles não vão. Eles preferem futebol. Se a gente der uma historinha boa para eles, que eles gostem, que eles curtam, que eles possam comentar depois e que modifique de alguma forma essa pessoa, é claro que ela vai voltar na semana seguinte. Agora, se ela senta lá e é totalmente indecifrável o que está sendo feito ali naquela tela - e normalmente é isso o que tem acontecido -, ela não volta.

iG: Por que ficou tanto tempo sem fazer cinema?
Fagundes: Por causa dos horários. O cinema exige que você fique 12 horas lá, então você não pode fazer mais nada. E na grande maioria das vezes é em locação fora de São Paulo ou do Rio de Janeiro, e aí você tem de sair mesmo. Então ou você está de férias de tudo ou não consegue fazer.

iG: Você vai completar 65 anos em abril. Sente que os bons papéis estão ficando mais raros?
Fagundes: O que acontece é que a gente tem um mercado, e particularmente na televisão, que é mais voltado a uma determinada faixa de público. Então as pessoas (na tela) não podem ser nem muito jovens, nem muito velhas. É uma faixa que vai dos 20 aos 50 anos mais ou menos. Mas isso é um erro porque não há faixa de idade para uma boa história. Romeu e Julieta tinham 16 anos. Mas tem essa falha. Acho que o cinema e o teatro podem sair disso. Você tem grandes personagens para mulheres e homens mais velhos. O Spencer Tracy atuava desde jovem, mas quando eu o conheci ele já tinha cabelo branco e aquela cara de velhinho. E os autores e diretores não pararam de chamar o Spencer Tracy. Eles escreviam para o Spencer Tracy, e ele era um sucesso, um grande ator. Por que não conseguimos fazer isso aqui? Talvez porque a gente não saiba escrever histórias.

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