Karim Aïnouz: "Brasil não faz comédia, faz chanchada"

Por Luísa Pécora , iG São Paulo |

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Em entrevista ao iG, diretor de "O Abismo Prateado" comenta cenário nacional e defende subsídios e intervenção do governo na distribuição: "Senão a gente acaba"

Finalizado em maio de 2011, "O Abismo Prateado", quarto longa do cineasta cearense Karim Aïnouz finalmente estreou nos cinemas de São Paulo e do Rio de Janeiro na sexta-feira (26). A demora de quase dois anos não foi exatamente motivada pelas habituais dificuldades do processo de distribuição do cinema nacional, mas pela vontade do diretor de se dedicar ao lançamento. "Quando você não tem um orçamento gigantesco, todo esforço e cada detalhe é importante", afirma, em entrevista ao iG. "Faço tudo meio a mão, como nos filmes."

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Divulgação
O diretor cearense Karim Aïnouz

Entre a finalização e a estreia de "O Abismo Prateado", o diretor dos elogiados "Madame Satã", "O Céu de Suely" e "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo", filmou outro longa, "Praia do Futuro", que está em processo de montagem e deve ser lançado no ano que vem. A história sobre dois irmãos que vivem separados (Wagner Moura e Jesuita Barbosa) foi filmada no Brasil e na Alemanha, os países entre os quais Aïnouz se divide, e inspirada na canção "Heroes", de David Bowie.

Será o segundo longa do diretor que começa a partir de uma música, já que "O Abismo Prateado" transforma "Olhos nos Olhos", de Chico Buarque, na história de uma mulher abandonada pelo marido. Neste filme, Aïnouz decidiu inserir elementos dos filmes nacionais de grande público, a começar pela protagonista, Alessandra Negrini.

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“Eu disse: 'vou ser um desabusado e fazer um filme com uma atriz superconhecida e com uma das canções mais conhecidas'”, explica. "É claro que pode dar errado, e acho que só não deu porque em nenhum momento deixei de exercer meu olhar, de escrever o negócio do jeito que a minha letra é. Não tentei mudar de caligrafia."

Na entrevista a seguir, Aïnouz fala sobre como buscou "apagar" a fama da atriz em cada take, discute a apropriação da estética televisiva pelo cinema nacional e defende intervenção governamental tanto na produção quanto na distribuição dos filmes. "Não dá para deixar o mercado se regular."

Alessandra Negrini em "O Abismo Prateado". Foto: DivulgaçãoAlessandra Negrini em "O Abismo Prateado", de Karim Ainouz. Foto: Mauro Pinheiro Jr. / DivulgaçãoCena de "O Abismo Prateado". Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Abismo Prateado'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Abismo Prateado'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Abismo Prateado'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Abismo Prateado'. Foto: Divulgação

iG: "O Abismo Prateado" ficou pronto em 2011. Por que demorou tanto para chegar aos cinemas?
Karim Aïnouz:
Porque logo emendei outro longa, “Praia do Futuro”, e não queria lançar “O Abismo Prateado” sem estar acompanhando tudo de perto. Como não temos um esquema de lançamento industrial, com várias cópias e orçamento de publicidade gigantesco, todo esforço e cada detalhe é importante. Lembro que na época de “Madame Satã” a gente virava a noite vendo lista de convidado da pré-estreia. Faço tudo meio a mão, como nos filmes. Nunca fiz um longa em escala industrial e estou sempre presente, em todos os momentos. É o jeito que sei e gosto de fazer. 

iG: O filme estreia na mesma semana de "Homem de Ferro 3", um dos grandes blockbusters do ano. Houve uma estratégia de contraprogramação?
Aïnouz:
Eu nem sabia disso, na verdade (risos). Acho que existe a contraprogramação, mas posso falar uma coisa? Nada importa. A graça e a tragédia da distribuição é que muitas coisas são impossíveis de planejar. Você decide uma data, daí “Homem de Ferro” antecipa uma semana. Ou faz o maior sol e ninguém vai ao cinema naquele fim de semana. Algumas coisas você controla, outras não. Depois de 20 anos fazendo esse negócio, acho que não tem fórmula. Mas penso que a avalanche de “Homem de Ferro” não vai tirar salas da gente porque é um filme muito diferente. Mais complicado seria competir com outro longa brasileiro, como o do Renato Russo ("Somos Tão Jovens”, cinebiografia do vocalista da Legião Urbana que estreia em 3 de maio), que também é inspirado em música.

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iG: Você é a favor de regulação governamental para a distribuição de filmes nacionais?
Aïnouz: Sou a favor de um monte de coisa, de intervenção mesmo. Sou a favor, por exemplo, de que a gente subsidie museus que expõem trabalhos de arte brasileira. Já passamos por essa coisa de "o mercado pode regular tudo". Isso é uma mentira, não existe. É um desastre, principalmente na produção cultural. Acho que tem de existir regulação em várias áreas da cultura, e acho que estamos fazendo isso na produção, no Vale-Cultura, na lei que estabelece a presença de conteúdo nacional dentro da televisão paga.
É a mesma coisa em relação à cota de tela no cinema. Não dá para deixar o mercado se regular. Não vai dar certo. Quais são as cinematografias diversas e de expressão significativa dos últimos 30 anos? São as de países onde houve cota de tela, como a França e a Coreia do Sul. Acho que estamos no caminho, estamos tomando consciência disso. Essa lei da televisão é o primeiro passo e está mudando o cenário audiovisual brasileiro. Tem muita gente de 35 anos que está filmando mais do que eu filmei, porque têm mais possibilidade de estar em um set. É óbvio que isso vai fazer com que a gente tenha uma cinematografia mais apurada. É como piloto de avião: quanto mais você voa, melhor você voa. As coisas estão mudando, mas levam tempo.

Manuela Scarpa/Foto Rio News
Alessandra Negrini e Karim Aïnouz lançam 'O Abismo Prateado' em São Paulo

iG: O boom das comédias é positivo para o cinema brasileiro?
Aïnouz: Acho bom que as comédias existam, mas não suficiente. Tem de haver uma regulação, uma defesa de outras práticas cinematográficas. E eu também acho o seguinte: isso não é comédia. Vamos com calma.
Comédia para mim é outra coisa. Isso é chanchada. Comédia é um gênero, chanchada é outro. Não acho que a gente faça comédia no Brasil, não conheço uma comédia feita no Brasil. Conheço farsa e chanchada, então primeiro vamos dar nome aos bois. A chanchada é um gênero brasileiro historicamente contundente que começa na década de 1950 e sempre fez sucesso – já tivemos pornochanchadas, "globochanchadas". É o gênero predominante, mas por um motivo óbvio: 90% da população brasileira está acostumada a ver chanchada na televisão, então é óbvio que vai reconhecer aquilo no cinema. Mas a gente não pode parar aí e achar que esta é a solução da bilheteria do cinema brasileiro. Esse raciocínio é no mínimo tosco. É a mesma coisa do “Homem de Ferro”. É claro que eu vou ver “Homem de Ferro”, porque um domingo à tarde eu vou querer ir ao cinema e as 50 salas que estão em volta da minha casa vão estar passando “Homem de Ferro”. Então eu vou ver o quê? “Homem de Ferro”. Isso não é sucesso, é um cálculo financeiro, um cálculo estratégico que está dando certo e não tem como dar errado. Então não podemos parar por aí. Um país é sofisiticado culturamente quando é diverso culturalmente. Vamos poder bater no peito e ficar orgulhosos quando tivermos uma cinematografia que nos represente. A chanchada não nos representa – representa apenas uma parcela da gente.

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iG: Você acha que o cinema nacional reproduz uma estética da televisão?
Aïnouz:
 Já fiz uma série para a HBO ("Alice"), uma das emissoras mais sofisticadas que existem. Filmava cinco páginas de roteiro por dia. Quando faço um longa, filmo duas. É óbvio que é diferente. Quando você filma cinco páginas por dia, precisa ser muito mais rápido. Não pode mudar a luz de posição, por exemplo, porque se fizer isso, não vai dar tempo - e não tem refilmagem amanhã. A diferença é essa: um tem apuro x e o outro tem apuro y. O que me preocupa um pouco em relação a esse estouro de bilheteria de algumas produções cinematográficas é que eu não acho que cinema é melhor do que TV, mas vamos dar nome aos bois. O que a gente está tendo no cinema são produções com características televisivas. Isso é bom ou ruim? Isso é distinto. Mas a gente não pode ter só isso. É uma discussão complexa, e que não avança quando ficamos criando antagonismos e dicotomias.

iG: Como a atual disputa entre "O Som ao Redor" x "De Pernas Pro Ar 2"?
Aïnouz: Cada um tem uma função distinta. Só acho uma pena que "De Pernas Pro Ar" tenha um orçamento de lançamento maior que o de "O Som ao Redor". Por isso acho que tem de existir regulação. Primeiro: por que "De Pernas Pro Ar" tem de ter subsídio público? Não é um filme que vai dar lucro? O outro filme é de pesquisa e precisa ter subsídio público, sim. E vamos dizer que os dois tenham, mas por que "O Som ao Redor" não pode ter um orçamento de lançamento igual? Porque já se parte do princípio que um filme vai ter menos bilheteria do que o outro. Isso está errado. Isso é preconceito. E tem outra coisa que se chama "branding". "Madame Satã" teve 180 mil espectadores no Brasil e foi vendido para 20 países, tanto em TV quanto lançamento em sala. Alguém já viu "De Pernas Pro Ar" na Argentina? Não tem interesse nenhum. Alguém vai ver "De Pernas Pro Ar" no Japão? O "branding" do Brasil no exterior, audiovisualmente, não é feito pelos mesmos filmes que fazem grande público no cenário interno. E tudo certo. Mas acho que o cinema brasileiro, como várias expressões culturais nacionais, precisam ser, se não totalmente, então parcialmente subsidiadas. Porque senão a gente acaba.

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Divulgação
O cineasta Karim Aïnouz

iG: Essa é a primeira vez que você trabalha com uma atriz muito conhecida pelo trabalho na TV. Foi uma preocupação evitar que o filme ficasse com cara "global"?
Aïnouz: Claro que foi. Eu falei: “vou ser um desabusado e fazer um filme com uma atriz superconhecida e com uma das canções mais conhecidas”. Porque eu também queria usar os instrumentos que se usa no cinema de grande público. É claro que pode dar errado, e acho que só não deu errado porque em nenhum momento deixei de exercer meu olhar, de escrever o negócio do jeito que a minha letra é. Não tentei mudar de caligrafia. Essa era a primeira coisa que tinha de ficar me lembrando o tempo todo. A outra coisa era o exercício de apagamento que você precisa fazer quando trabalha com alguém muito conhecido, como a Alessandra. Alguns atores têm uma exposição pública tão grande que você não consegue voltar para o personagem – está sempre vendo o ator. Isso é complicado em todo lugar e exponencialmente mais complicado no Brasil porque não são estrelas de cinema, são de televisão. Acho que é o único país do mundo onde existe um star system de televisão. Talvez aconteça algo parecido no México e na Itália, mas o caso do Brasil é muito singular. Então como você traz essa pessoa para dentro de um filme sem que fique todo tempo se remetendo à Taís e à Paula (personagens da atriz na novela "Paraíso Tropical")?

iG: Como foi o trabalho de "apagar" a Alessandra Negrini?
Aïnouz: Foi o tempo todo isso: como olho para essa pessoa e vejo a Violeta e não a Alessandra Negrini? E não é algo sobre o qual você tem total controle. Em alguns planos vêm a Alessandra Negrini. Por isso você faz quatro, cinco takes. E tem também a questão de que a televisão não tem plano geral. É mais close, no máximo plano médio. É como um bailarino que é filmado da cintura para cima e perde um pouco a musculatura de baixo. Ele usa tudo no rosto, no cabelo da mão. Então tinha essa coisa de fazer com que esse bailarino de televisão se tornasse um bailarino do palco, de limpar o rosto e filmar o corpo, de trazer de volta a musculatura.

iG: Principalmente porque o filme tem pouco diálogos, e muito da expressão é corporal.
Karïm: Na verdade havia várias cenas com diálogos pra burro e que eu inclusive filmei desse jeito. Fui criado até os 20 anos de idade com três novelas todo dia. Vai fazer um filme tendo sido criado assim! Mas aí você observa, corta, faz o take quatro sem diálogo. Em “O Abismo Prateado” ela não interage muito com ninguém, é mais uma interação com o tempo e o espaço, que são os grandes antagonistas. É um filme mais de sensação do que de discurso. Ou pelo menos essa era a minha vontade.

iG: Apesar do silêncio dos personagens, o filme tem muitos sons – mar, obra, rádio do carro, chuveiro. Qual a importância desse aspecto cinematográfico para você?
Aïnouz: A ideia era traduzir sensorialmente o que a personagem estava passando, construir sensações. Meu primeiro trabalho no cinema foi como assistente de montador de som. É algo sobre o qual me interesso e me preocupo. O som tem a capacidade de criar uma realidade alterada e ajuda a colocar você na pele do personagem. Isso potencializa a linguagem cinematográfica.

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