Caça a Bin Laden é contada no polêmico e necessário "A Hora Mais Escura"

Por Luísa Pécora - iG São Paulo |

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Acusada de fazer apologia à tortura, diretora Kathryn Bigelow transforma complexa discussão moral em um excelente filme de ação

As primeiras cenas de “A Hora Mais Escura”, excelente e complexo retrato da caça a Osama bin Laden que estreia nesta sexta-feira (15), servem de aviso ao espectador: não espere um filme fácil. Logo de cara, vemos um prisioneiro de guerra, acusado de ligação com a rede terrorista Al-Qaeda, sendo torturado por um funcionário do governo norte-americano. Agredido, humilhado sexualmente e privado de sono e de comida, ele é colocado à força dentro de uma caixa de madeira, obrigado a andar como um cachorro, submetido a uma simulação de afogamento e a outras práticas capazes de causar indignação quando descritas em um texto – que dirá retratadas na tela do cinema.

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Fortes e difíceis de assistir, as cenas de tortura são o ponto-chave de “A Hora Mais Escura”. Por um lado, simbolizam a ousadia e a coragem de seus realizadores em abordar um tema controverso, moralmente complexo e cujos detalhes, em sua maioria, permanecem mantidos em sigilo. Por outro lado, são a razão da polêmica que envolveu o longa, transformou-o em alvo de uma cruzada por parte de senadores americanos e virtualmente destruiu suas chances de ser premiado no Oscar 2013, ao qual teve cinco indicações.

Veja também: Um guia para entender a história e os termos usados no filme

Imagem do filme "A Hora Mais Escura". Foto: DivulgaçãoImagem do filme "A Hora Mais Escura". Foto: DivulgaçãoImagem do filme "A Hora Mais Escura". Foto: DivulgaçãoImagem do filme "A Hora Mais Escura". Foto: DivulgaçãoJessica Chastain em "A Hora Mais Escura". Foto: DivulgaçãoImagem do filme "A Hora Mais Escura". Foto: DivulgaçãoImagem do filme "A Hora Mais Escura". Foto: DivulgaçãoImagem do filme "A Hora Mais Escura". Foto: DivulgaçãoImagem do filme "A Hora Mais Escura". Foto: DivulgaçãoImagem do filme "A Hora Mais Escura". Foto: DivulgaçãoCena do filme de ação "A Hora Mais Escura". Foto: DivulgaçãoImagem do filme "A Hora Mais Escura". Foto: Divulgação

“A Hora Mais Escura” é a segunda parceria entre a cineasta Kathryn Bigelow e o jornalista Mark Boal, ambos premiados pela Academia por “Guerra ao Terror”, de 2009 (ele como roteirista, ela como a primeira e única mulher a ganhar na categoria direção). De certa forma, os filmes são complementares: enquanto o primeiro acompanha um grupo de soldados na Guerra do Iraque, lançada após os ataques de 11 de Setembro de 2001, o mais recente retrata os dez anos da busca por Bin Laden desde a tragédia até a operação do Exército americano que matou o terrorista em Abbottabad, no Paquistão, em 2 de maio de 2011.

A ideia inicial da dupla era fazer um filme sobre a fracassada tentativa de capturar Bin Laden meses depois do 11 de Setembro em Tora Bora, no Afeganistão. O roteiro já estava em pleno desenvolvimento quando a morte do terrorista foi anunciada, forçando uma mudança de planos e levando Bigelow e Boal a encarar o desafio de recontar um episódio histórico recente e ainda envolto em mistério.

O roteirista entrevistou militares, autoridades da Casa Branca e funcionários da CIA (agência secreta americana) - no que levantou a primeira polêmica de “A Hora Mais Escura”: a acusação, por parte de políticos republicanos, de que o governo do democrata Barack Obama estava repassando informações confidenciais aos cineastas na tentativa de fazer do filme um veículo de campanha para o presidente. Por isso, a estreia nos EUA foi adiada para dezembro, depois da eleição que reelegeu o líder.

Filme de mulheres

Quando mergulhou no trabalho de pesquisa, Boal descobriu que uma mulher, agente da CIA e com cerca de 30 anos, tinha sido crucial durante a década de buscas por Bin Laden, mantendo-se focada na missão mesmo enquanto a busca pelo enfraquecido líder da Al-Qaeda perdia espaço diante da ameaça do terrorismo interno. Com a identidade preservada, algumas características omitidas e outras acrescentadas, ela se tornou Maya, a figura central de “A Hora Mais Escura”, interpretada com força e sutileza pela talentosa Jessica Chastain, indicada ao Oscar de melhor atriz.

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Três das mulheres de 'A Hora Mais Escura': Jessica Chastain, Megan Ellison e Kathryn Bigelow

Trata-se de uma personagem fascinante, sobretudo pelo fato de mulheres raramente serem vistas como protagonistas de filmes de ação, desempenhando uma função tradicionalmente associada aos homens e sem par romântico, filhos ou qualquer questão pessoal em jogo. Neste filme de mulheres – além de Bigelow e Chastain, a produtora é a milionária Megan Ellison e a distribuição ficou por conta da Sony Pictures, chefiada pela poderosa Amy Pascal –, o foco está inteiramente no trabalho de Maya na agência e em sua determinação em encontrar Bin Laden.

Com isso, “A Hora Mais Escura” dispensa as fórmulas que Hollywood costuma empregar para oferecer respiros ao espectador. É o caso de "Argo", outro filme sobre um agente da CIA lançado em 2012, no qual cenas de ação e de negociações políticas são intercaladas a momentos cômicos (sob responsabilidade de Alan Arkin e John Goodman) e histórias paralelas (a ex-mulher do protagonista, o filho de quem se sente distante). É um bom suspense, mas, também, um longa convencional.

De certa forma, “A Hora Mais Escura” é o anti-“Argo”. O agente do filme de Ben Affleck, também baseado em um personagem real, se tornou herói por arriscar a vida para salvar seus compatriotas, mesmo que isso tenha significado desrespeitar as ordens de seus superiores. O foco de Bigelow e Boal é oposto: os funcionários da CIA que não foram contra as diretrizes da agência e que aceitaram levar adiante as "técnicas avançadas de interrogação" (lamentável eufemismo do governo americano para a tortura), não porque eram pessoas más ou sádicas - apenas porque decidiram obedecer. Há um incômodo inerente a essa premissa: a admissão de um mundo mais “escuro” no qual as distinções entre bons e maus são menos claras do que nos filmes hollywoodianos comuns.

Tortura polêmica

Não transformar os torturadores em vilões ou incluir personagens que condenassem claramente as ações da CIA custou muito a Bigelow e Boal, que foram acusados de fazer apologia à tortura. Um detalhe específico esteve no centro do debate: a sugestão de que uma informação vital para encontrar Bin Laden foi obtida por meio de tortura, algo que o governo americano nega.

Por causa disso, David Edelstein, da New York Magazine, disse que o filme era uma obra-prima, mas beirava o fascismo. Naomi Wolf, do The Guardian, comparou Bigelow a Leni Riefenstahl, cineasta ligada ao regime nazista. O atual diretor da CIA, Michael Morell, disse que o filme exagerou o papel da tortura na caça a Bin Laden, destacando que “múltiplas fontes foram usadas”. No golpe mais forte, três senadores – incluindo o ex-candidato a presidente John McCain – chamaram o filme de “grosseiramente incorreto” e pediram que a Sony Pictures “considerasse corrigir a impressão de que o uso de interrogação coercitiva pela CIA levou à operação” que matou Bin Laden.

Divulgação
Kathryn Bigelow e Mark Boal no set de "A Hora Mais Escura"

O resultado foi uma rápida derrocada de “A Hora Mais Escura” no que parecia ser uma promissora temporada de prêmios. Bigelow escreveu um artigo no Los Angeles Times explicando a diferença entre retratar e apoiar a tortura, enquanto personalidades como o cineasta Michael Moore, os familiares das vítimas do 11 de Setembro e até Leon Panetta, diretor da CIA na época da morte de Bin Laden, defenderam o filme. Não adiantou: àquela altura, “Argo” já conquistara as principais prévias e se tornara favorito ao Oscar.

A razão de tamanha discórdia parece estar principalmente nas muitas ambiguidades de "A Hora Mais Escura", um filme que provavelmente será interpretado de acordo com a visão de mundo de cada espectador. Para os que acreditam que admitir a eficácia da tortura significa defendê-la e legitimá-lá, é provável que o filme provoque excesso de desconforto.

Veja também: Um guia para entender a história e os termos usados no filme

A mim, Bigelow e Boal parecem dizer o contrário: que as informações obtidas pela tortura não levaram a lugar algum e que a busca por Bin Laden só progrediu de fato depois que Obama tomou posse, proibiu a prática e forçou a CIA a buscar e retomar pistas que tinha desde o início, e às quais não deu atenção em meio à confusão e à falta de comunicação que marcou o trabalho da agência durante e imediatamente após o 11 de Setembro. A forma com que a morte de Bin Laden é retratada, sem heroísmo e marcada por uma perturbadora sensação de que o vazio de Maya e de toda a nação continua existindo, parece oferecer mais perguntas do que respostas: Valeu a pena? Precisava ter sido assim? Para onde vamos agora?

"A Hora Mais Escura" merece ser visto já pela capacidade de provocar esse tipo de questionamento e discussão. Mas, acima da polêmica, da política e da própria história, há um filme de ação brilhante, que mantém o espectador em suspense durante quase duas horas e meia, mesmo que ele já conheça o final de cor. A cena da invasão à casa de Bin Laden é magistral, tão bem executada que parece estar sendo vista ao vivo. Um final grandioso para uma obra impactante e provocadora que cresce imensamente após a subida dos créditos finais – algo raro e maravilhoso.

Assista ao trailer:

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