"O Que Se Move" intensifica drama com números musicais

Exibida na competição do Festival de Gramado, estreia em longa-metragem do diretor Caetano Gotardo é difícil, mas surpreende

Marco Tomazzoni - enviado a Gramado |

Depois de um filme infanto-juvenil, "Insônia" , a competição do 40º Festival de Gramado mergulhou no cinema autoral. Na noite desta quarta-feira (15), "O Que Se Move" provocou um misto de curiosidade e rejeição, com um ritmo lento, peculiar, que não faz concessões para o público. Ao mesmo tempo, a estreia do diretor e roteirista Caetano Gotardo em longa-metragem surpreende por, em meio ao drama, fazer aflorar números musicais, embora não haja ali nada de Hollywood.

Divulgação
A atriz Fernanda Vianna em "O Que Se Move", de Caetano Gotardo

Gotardo é um dos integrantes do coletivo paulistano Filmes do Caixote, que tem entre seus membros Juliana Rojas (presente em Gramado com o curta "O Duplo" ) e Marco Dutra, ambos de "Trabalhar Cansa" . O time fica se revezando em seus filmes: Gotardo fez a montagem de "Trabalhar Cansa", tarefa entregue a Juliana em "O Que Se Move", enquanto Dutra assumiu a autoria da trilha sonora e das canções. A parceria confere aos projetos um sentimento de unidade na forma realista de enxergar o cotidiano, mas que não represa as idiossincrasias de cada um.

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Neste caso, ao invés de um desconforto latente com o mundo, característica dos trabalhos de Rojas e Dutra, há uma ideia de consciência plena, balançada através do amor e dor, e uma percepção certeira da sensibilidade feminina. "O Que Se Move" conta as histórias de três mulheres, afetadas pela perda de seus filhos. São episódios independentes, que seguem o mesmo formato – preâmbulo, uma virada trágica e a chegada da música.

A primeira vez é desconcertante. Quando Cida Moreira, sentada numa delegacia, começa a cantar com os olhos marejados, o impacto não poderia ser maior. Nos capítulos seguintes, protagonizados por Andrea Marquee e Fernanda Vianna, a estratégia não é mais uma surpresa, mas não perde a eficácia. A música canaliza os sentimentos mais profundos dos personagens, que comentam ou pontuam sua situação nos versos. Gravadas ao vivo no set, as canções comovem. Há até coreografia, que, sem nada lembrar Fred Astaire, é discreta, contida, manifestada de formas diferentes: primeiro um leve menear de cabeças, depois um videogame e por fim, o balé impresso pela ginástica artística.

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Vencedor do prêmio de melhor curta-metragem em Gramado com "Areia" (2008), também exibido na Semana da Crítica de Cannes, Gotardo cria originalidade ao buscar economia num gênero superlativo. Esse freio confunde ainda mais se levada em conta a intensidade do drama de cada história, com potencial operístico. Aí "O Que Se Move" encontra frescor. Se a estrutura em episódios e o fetiche pelo cinema asiático, expressado em planos longos, contemplativos, não comove, o conjunto, mesmo árido para o espectador, se mostra relevante. Uma brisa boa para o cinema brasileiro.

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