Sylvio Back vai filmar "Angústia", de Graciliano Ramos

Cineasta iniciará filmagem no início de 2013; antes, lançará o documentário "O Universo Graciliano"

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O cineasta Sylvio Back

O diálogo com as letras está sempre presente na carreira de Sylvio Back, como atestam sua cinebiografia poética "Cruz e Sousa - o Poeta do Desterro", e também com a versão do suicídio em Petrópolis do escritor austríaco Stefan Zweig, na produção internacional "Lost Zweig", baseada no livro de Alberto Dines, "Morte no Paraíso".

A vocação de diálogo com a literatura continua agora na adaptação do romance do escritor alagoano Graciliano Ramos, "Angústia", prevista para o início do ano que vem.

Ganhando musculatura para o desafio, Sylvio já filmou o documentário "O Universo Graciliano", com locações em Maceió e Rio de Janeiro, uma espécie de preparação para a abordagem da ficção do autor alagoano. "O filme vai ao encalço de rastros, sombras e escombros imemoriais em torno e sobre o genial Graciliano, que viveu de 1892 a 1953", conta.

Esse documentário prospectivo é definido pelo cineasta como espécie de "ensaio geral" com vistas à abordagem de "Angústia", romance jamais filmado de Graciliano. O difícil trabalho de passagem da prosa do escritor alagoano para as telas terá início no final do ano.

A prática do "documentário prévio" vem ganhando adeptos. Basta lembrar que, antes de Back, Walter Salles filmou um doc percorrendo as trilhas da beat generation como aquecimento para adaptar o clássico de Jack Kerouac "On the Road", que ganhou o título em português de "Na Estrada" e continua em cartaz nas salas brasileiras depois de haver participado do Festival de Cannes.

O desafio maior de Back vem com a filmagem desse grande romance brasileiro que é "Angústia". "Para o início do ano que vem estou preparando as filmagens em Maceió e no Agreste alagoano do romance, com roteiro de minha autoria, e cuja produção encontra-se atualmente em fase de captação de recursos", diz o diretor. É um projeto que Sylvio vem "acarinhando" faz sete anos.

Sabe que, além das dificuldades intrínsecas da versão para a tela terá de enfrentar comparações. "Dos livros 'clássicos' de Graciliano, Angústia é o único ainda não filmado; os demais, 'Vidas Secas' e 'Memórias do Cárcere', ambos de Nelson Pereira dos Santos, e 'São Bernardo', de Leon Hirszman, são hoje obras seminais do cinema brasileiro. Por aí pode-se aquilatar a minha responsabilidade", diz.

De fato, "Vidas Secas" é tido como uma das obras clássicas do Cinema Novo, assim como "São Bernardo". "Memórias do Cárcere" foi o filme considerado como símbolo do processo de abertura política que se realizava no País, após 20 anos de ditadura. Mas, para além de sua implicação política, é a qualidade estética desses filmes que os impõe como padrão e patamar.

"Angústia" é também um grande desafio. É, talvez, o mais "existencial" e atormentado dos romances de Graciliano. Seu personagem, Luís da Silva, sem deixar de ser brasileiríssimo e nordestino, tem um toque dostoievskiano. A narrativa flutua entre a vida presente do funcionário Luís e recordações da sua vida pregressa, da morte do pai e do amor ambíguo por Marina.

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