Andrés Wood sobre Violeta Parra: “Ela sempre foi uma mulher suicida”

Diretor de “Violeta foi para o céu” disse em coletiva no Cine Ceará 2012 que só passou a compreender a cantora ao longo da produção: “Não foi amor à primeira vista”

Priscila Bessa, enviada a Fortaleza |

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O diretor Andrés Wood fala sobre "Violeta vai para o céu"
Após a exibição do longa “Violeta foi para o céu” , de Andrés Wood, na abertura da 22ª edição do Cine Ceará , que aconteceu na noite de sexta-feira (1), o diretor conversou com a imprensa durante coletiva sobre o filme na manhã deste sábado (2).

A ficção conta a história da famosa cantora e folclorista chilena Violeta Parra, preenchida com seu trabalho musical, suas memórias, seus amores e esperanças. O filme traça sua evolução, da infância humilde até se transformar em sensação internacional e heroína nacional, com a intensidade de suas contradições internas, falhas e paixões.

Wood falou sobre as dificuldades de lidar com os parentes de Violeta Parra – a neta Tita Parra publicou um texto no site da Fundação Violeta Parra, fazendo críticas ao filme. “Acho que se fosse um filme sobre a minha mãe ou a minha avó eu pensaria que não corresponde à realidade e entendo perfeitamente que parte da família não esteja de acordo. Mas independente disso há uma parte da família que estava de acordo com o filme”, disse ele, que reconhece a dificuldade de trabalhar com a história de uma personagem que não está mais viva.

Para compor a narrativa, o chileno teve o apoio de um dos filhos de Violeta, Ángel Parra, também compositor e intérprete, autor do livro "Violeta se fue a los cielos", em que o longo se baseia. Hoje com 68 anos, Ángel é um dos representantes mais engajados na preservação da memória da mãe. “Ele tem uma participação muito grande na supervisão , no acompanhamento. Ele nos deu muita liberdade”, contou o diretor, que confessa ter se apaixonado pela personagem ao longo do processo de pesquisa.

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“Cresci ouvindo Violeta Parra desde pequeno. Mas minha relação não é de um amor à primeira vista. Pouco a pouco Violeta me envolveu e passei a entender sua letra, sua dimensão como artista, sua multiplicidade de talentos, e entender também a personalidade. Tentamos resgatar a Violeta como artista e como pessoa”, explicou ele, que define a proposta do filme como “uma viagem emocional e biográfica”.

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Cena de "Violeta foi para o céu" do diretor chileno Andrés Wood
Sobre a ausência de linearidade na ordem dos fatos – Wood optou por uma narrativa fragmentada para contar a história da cantora, compositora e artista plástica chilena – afirma que não buscou copiar o ritmo do livro de Ángel e esclarece: “O livro é uma luz, mas não fiz uma cópia literal da estrutura porque a mim não interessava ser apenas racional. Queria que o espectador acompanhasse esse fluxo emocional da Violeta. Que fosse fragmentado, que fizesse pensar e que chegasse num momento que não importasse mais em que ponto está e, sim, as emoções dela”.

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Wood também comentou sobre a diversidade temática do cinema chileno atual que, só neste ano, arrematou cinco prêmios importantes de cinema – o filme “Não” de Pablo Larraín foi premiado em uma mostra paralela em Cannes e o próprio “Violeta” conquistou o título da World Cinema Dramatic Competition no Festival de Sundance.

Apesar do reconhecimento, Wood se considera ainda um aspirante a artista. “Me considero um artesão que aspira ser um artista. Não sei se autor ou não... Me sinto um coautor, porque um filme para mim é um processo muito coletivo. Se fosse uma ilha não seria capaz de fazer um filme. Preciso de ajuda, preciso canalizar um monte de forças criativas como diretor e estou muito consciente disso”, pontuou ele, que não poupou elogios a protagonista, a atriz chilena Francisca Gavilán.

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“Quando procuramos uma atriz para o papel cantar não era um pré-requisito. Quisemos que cantasse para mostrar apenas se havia um sentido na música, pois não sabíamos se íamos usar as canções originais ou se colocaríamos alguém cantando por ela. Mas vimos que a voz da Francisca é muito boa. Inclusive Francisca é canhota, mas aprendeu a tocar com a outra mão igual a personagem, o que é muito difícil”, contou ele.

Wood explicou a escolha de cenas particulares, como o momento em que Violeta discute após se apresentar em um clube masculino em Paris por ser convidada a comer na cozinha, como um meio de ressaltar como o feminismo da artista era relevante no contexto da época. “Ela é uma mulher feminista de um país que foi o último da América Latina a permitir o voto feminino. Um país machista por definição. Ela foi uma mulher, independente de seu poder criativo, muito decidida do que queria ser. Sua obra e sua música são políticas”, afirmou o diretor.

“Ela sempre foi uma mulher suicida que estava aonde não devia estar. Nunca entendeu que havia gente que não apoiava sua causa. Era muito intransigente com quem não estava na mesma sintonia”, completou ele, lembrando o episódio da morte de Violeta, que se suicidou aos 49 anos.

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