"O que o Mordomo viu" é besteirol com super produção

Por Ana Ribeiro | - Atualizada às

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Miguel Falabella e Marisa Orth dividem o palco nessa comédia onde o texto do inglês Joe Orton não tem pudor de ir se enrolando numa farsa deliciosamente absurda

Divulgação/Facebook
Marisa Orth é Mirtes e Falabella o dr. Arnaldo na comédia em cartaz no Teatro Procópio Ferreira

"O que o Mordomo Viu" não está aí para fazer sentido. Para começar, o mordomo não viu nada, simplesmente porque não há mordomo algum no texto. Os personagens da peça são um psiquiatra (Falabella), sua mulher (Marisa Orth), uma pretendende ao cargo de secretária na clínica (Alessandra Verney), um funcionário do Hotel Central (Magno Bandarz), um detetive (Ubiracy Brasil) e o presidente do setor de psiquiatria do governo (Marcelo Picchi), que aparece para fazer uma vistoria na clínica.

Dr. Arnaldo (Falabella) recebe Denise Barcca (Alessandra) para uma entrevista de emprego. Atraído por ela, decide seduzi-la: pede para ela tirar toda a roupa e se deitar na cama do consultório. Enquanto ela se despe no reservado, aparece Mirtes (Marisa) e assim é dada a largada para uma sucessão de acontecimentos absurdos que envolvem perucas, vestidos, travestismo, mentiras, psicotrópicos, muitas doses de uísque e armas de fogo. Ah sim: e dois medalhões de ouro que se completam.

A peça tem elementos de dois formatos aparentemente opostos: o improviso e o vaudeville. Enquanto os atores, especialmente Falabella, parecem livres para interagir com o texto, o vaudeville se apoia em atos contínuos, em que situações simultâneas exigem marcação exata: no mesmo momento em que um personagem sai de cena por uma porta, o outro aparece por outra, e as duas ações precisam acontecer em perfeita sintonia.

Divulgação/Facebook
Alessandra Verney é Denise Barcca e Miguel Falabella o psiquiatra Arnaldo

Mas como nada faz mesmo muito sentido, vamos relaxar e aproveitar o espetáculo. É sempre um deleite ver Marisa Orth em cena: ela é daquelas atrizes que ficam do tamanho do papel - de qualquer papel. Falabella também está ótimo: ele parece mesmo o psiquiatra inescrupuloso que seria capaz de seduzir a secretária no primeiro dia de trabalho. Os outros atores têm seus altos e baixos, e a vontade que fica é de ver Marisa e Falabella contracenando mais.

O fato é que o começo do espetáculo é bom, divertido, tem ritmo e humor. À medida que a trama vai se estendendo em torno de situações paralelas, que levam cada personagem para um lugar distinto, a narrativa perde a força. E quando todos os caminhos se reencontram no final, já é tarde demais. Os aplausos desanimados na noite da pré-estreia mostraram que falta apertar alguns parafusos para a peça engrenar. 

Mas é sempre bom ver uma comédia despudorada, ver a vida acontecer no palco de um jeito que não tem autorização para acontecer fora dele. O marido teve impulso de comer a secretária, a mulher ninfomaníaca foi fotografada fazendo sexo com outro na noite anterior. Isso são apenas fatos da peça, e não motivo de discussão da relação entre o casal.

Engraçado é que essa coisa toda sem sentido e sem censura acontece em uma produção rica, cenário elaborado, figurino caprichado, com atores globais. Provavelmente se divertir em cena era a intenção de Falabella e Marisa Orth com essa montagem. Falta agora levar o público junto.  


Serviço:

O que o mordomo viu

Teatro Procópio Ferreira - Rua Augusta, 2823

Sexta às 21h30 (R$ 130 (premium) | R$ 110,00 (setor I) | R$ 50 (setor II))| Sábado às 19h e 21h30 | Domingo às 19h (R$ 150 (premium) | R$ 130 (setor I) | R$ 50 (setor II))

Duração: 90 minutos

Classificação 14 anos






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