"Nelson Rodrigues era superestimado"

Dramaturgos e diretores como Sérgio de Carvalho, Mario Bortolotto e José Fernando Azevedo falam sobre o autor e cronista

Augusto Gomes , iG São Paulo | - Atualizada às

"Toda unanimidade é burra." A frase, uma das mais famosas de Nelson Rodrigues, foi usada pelo escritor e dramaturgo para justificar as reações ruins que recebia de parte da crítica e do público. "A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem", afirmou certa vez.

Em seu centenário, o cenário é diferente. Rodrigues é aclamado com um dos maiores - talvez até o maior - dramaturgos brasileiros do século 20. A aclamação que sua obra recebe talvez até o decepcionasse. É uma admiração quase unânime. Quase.

Sérgio de Carvalho, um dos fundadores da Companhia do Latão, é crítico em relação à obra de Rodrigues. "Acho que Nelson Rodrigues é superestimado como autor. Construiu-se uma imagem de um dramaturgo central no teatro brasileiro e essa imagem é falsa. Há outros nomes tão ou mais inspirados do que ele, como Jorge Andrade e Oswald de Andrade", diz.

"Obviamente, ele tem qualidades. Uma grande capacidade de linguagem, um bom faro para contradições subjetivas. E produziu algumas obras e cenas específicas que valem a pena", continua. "Mas é um autor com quem tenho pouca vontade de dialogar. Até porque ele era um cronista extremamente conservador, quase fascista."

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O dramaturgo Mario Bortolotto é outro que não se sente próximo do universo de Rodrigues. "É sempre aquele monte de tias, de tara familiar. Não é a minha praia, não tem nada a ver com o que eu escrevo", avalia.

Mas Bortolotto considera "brilhante" o autor de "Vestido de Noiva" e "Bonitinha, Mas Ordinária". "Ele sabia escrever para teatro. Sempre colocava a palavra do jeito certo na boca das personagens", explica. "Não consigo lembrar de textos fracos dele. Lembro dos fortes, como 'Toda Nudez Será Castigada'."

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Para a dramaturga Marici Salomão, a maior qualidade de Rodrigues foi ter sido "o grande 'terrorista' da classe média brasileira". "Ele bombardeou as estruturas de uma burguesia careta, moralista e aparentemente 'normal'", afirma.

O problema, na opinião José Fernando Azevedo, do Teatro dos Narradores, é que "as pessoas tendem a se identificar" com o retrato que Rodrigues pinta dessa burguesia. "Rodrigues mimetizou um certo tipo social, mostrou como ele opera. Mas as pessoas não vêem esse retrato de uma forma crítica", diz.

Para ele, é necessário fazer uma leitura "a contrapelo" (em oposição) ao que Rodrigues escreveu. "Se eu fosse encenar algum texto dele, seria para evidenciar em que medida ele denuncia e em que medida ele vê como positivo esse 'caráter brasileiro'."

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O próprio Rodrigues se definia como "reacionário". São famosas as suas frases contra o feminismo ("As feministas querem reduzir a mulher a um macho mal-acabado"), a liberação sexual ("O homem começou a própria desumanização quando separou o sexo do amor") e a juventude ("Não importa o que faça 'o jovem'. Se nasceu no ano X, tudo lhe é permitido").

Suas posições políticas também eram conservadoras. Nos textos que escrevia na imprensa, defendia a ditadura militar de 1964 e criticava as esquerdas ("Considero os marxistas de minhas relações uns débeis mentais de babar na gravata"). Só se engajou na defesa da anistia, nos anos 1970, depois que seu filho foi preso e torturado.

"Para mim é irrelevante se ele era moralista ou não, se era obcecado ou não, se era de direita ou não. O importante é a obra dele", diz Marici Salomão. Mario Bortolotto tem opinião semelhante. "Não vou ficar putinho porque a opinião dele era diferente da minha. Para mim, não tem problema ele ser 'reaça'. O importante é que ele escrevia bem."


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