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Dionísio Neto apresenta metateatro com direito a serial killer

24/03 - 17:38 - Michel Fernandes, especial para o Último Segundo

CURITIBA – Antes de iniciar no SESC Consolação a temporada paulistana de "Desconhecidos", peça escrita por Dionísio Neto e dirigida por Ivan Feijó, a montagem estréia neste semana na Mostra de Teatro Contemporâneo do Festival de Curitiba, trazendo à cena o teatro dentro do teatro e um serial killer que mata mulheres uniformizadas e devora seus corações.

Em entrevista, Dionísio Neto fala sobre o espetáculo e sobre seu papel na produção.

O que o motivou a falar sobre o próprio universo teatral?

De uns tempos prá cá, com todo esse fenômeno da Praça Roosevelt, eu passei a conhecer muitos atores desconhecidos do grande público, ir em suas casas, entrar em suas vidas, emocionado com a garra, a fé e a ingenuidade que muitos carregam. Então olhei para minha própria vida, quando comecei a atuar, ainda nos tempos da turnê que fiz por países da América Latina com "Comala", de Marinho Piacentini. Eu tinha só 19 anos, quase a idade da personagem Flor de Lótus (nome de uma das personagens). E uma das coisas que aprendi em se tratando de dramaturgia é que há mais verdade quando se fala do que se conhece. O personagem Francisco Carlos (nome de outra das personagens) é um ator famoso, bem famoso, que faz novela há dez anos, tem uma visão ácida sobre a carreira e é um contraponto forte às esperanças de sua esposa.

O seu nome é uma homenagem a um dramaturgo amazonense homônimo muito talentoso e quase nunca montado, e sua história é baseada na minha convivência íntima com atores do mesmo diapasão, que conheço bem, principalmente da época em que morei no Rio de Janeiro quando atuei em "As Três Irmãs", dirigida por Bia Lessa, recheada de um elenco estelar. Acho que é hora de o público entrar na intimidade de atores, não pelo caminho das revistas e programas de fofoca, mas com poesia. É isso que estou propondo neste espetáculo.

E o que o levou a adotar a linguagem naturalista no discurso da peça?

Na verdade, como trata-se de um metateatro, o Ivan Feijó optou por utilizar-se de vários estilos de atuação. No primeiro ato há o naturalismo em duas escalas, no meu o Brechtiano, se é que se pode dizer isso, e ela no stanislawskiano, com ênfase na técnica do Lee Strasberg - para isso convidei a diretora e preparadora de atores Lucia Segall, com quem eu já havia trabalhado no CPT. No segundo ato há o realismo fantástico: as interpretações não são nada naturalistas em sua forma, e sim em sua essência, também com a técnica do Actor's Studio, de quem sou mais do que fã, um entusiasta.

De que maneira o que você propõe como "realismo fantástico" está mesclado à linguagem naturalista da peça?

Como eu disse acima, são vários estilos de interpretação, quatro personagens, metateatro, enfim, é um prato cheio prá nós, atores. Na verdade o realismo fantástico aparece só no ato do suspense do serial killer e mais propriamente na figura do Fofão, personagem do carnaval maranhense que me aterrorizava na infância e ainda aterroriza muitos meninos e meninas. Ele é enigmático, tem guizos, uma máscara horrorosa e carrega uma boneca em uma das mãos, para atrair os pequenos, e na outra um pedaço de pau. Ele deve ter alguma origem medieval européia, eu não sei ao certo, e mostra que até mesmo no belo há o horror. É a primeira vez que a terra onde eu nasci aparece em minhas peças. Também tenho influência do espetacular filme "Em Busca da Vida", que a Erika Palomino tanto me recomendou. Utilizamos uma figura que me assombrava na infância para assombrar o personagem. Nada mais Actor's Studio!

Quais as maiores dificuldades em utilizar esses registros de linguagem?

No meu caso, o mais difícil é a não-utilização da "máscara" no personagem do ator Francisco Carlos, porque ele olha no olho do público sem muleta. Eu estou completamente desnudado de artifícios de composição da personagem. O do serial killer é meu personagem mais construído no teatro, até então. Eu me escondo mais através dele. No do ator eu me exponho. No começo fiquei morrendo de vergonha. Agora começo a entender porque fiz uma comédia ultra-comercial há uns 2 anos, "Adoráveis sem-vergonhas". Quebrei inúmeros preconceitos que tinha com relação a quase todo tipo de teatro, menos ao pretensioso e ao de má qualidade.

O que o serial killer canibal e a aeromoça da foto representam em seu imaginário e por qual símbolo você deseja que sejam decodificadas pela platéia?

Eu não sei como fui me meter com essa história de serial killer. Odeio filmes de terror, demorei décadas para abrir os olhos em trens fantasmas de parques de diversão. Sou muito sensível. Por outro lado, sempre quis interpretar um vilão. Acredito que em breve poderei fazer o Macbeth. Durante a pesquisa fizemos entrevistas com especialistas em serial killers e vi documentários terríveis. Caí de cama, quis desistir do papel porque eu disse "eu não quero defender esses monstros". Isso mudou muito e interferiu no texto da peça. O meu serial killer é um personagem com pensamento de extrema-direita, absolutamente preconceituoso e moralista, quase um Hitler, quase um Bush. E para mim foi uma escalada ao Everest criá-lo. Eu tive que lidar com meus mais terríveis fantasmas e monstros interiores e por fim humanizá-lo e fragilizá-lo. Essa é a tarefa do ator, não? A aeromoça interpretada pela estreante Simona Queiroz também representa esta sociedade de consumo desenfreada com valores morais duvidosos de ter antes de ser. Acredito que o encontro dos dois no palco vai provocar o inconsciente coletivo do público e fazê-lo refletir sobre seus próprios valores morais mais sombrios, como num espelho. Como disse meu mestre Antunes Filho, é preciso colocar o mal no seu devido lugar, porque todos nós temos o lado bom e o terrível.

E em relação à interpretação, como é o processo pelo método de Lee Strasberg?

Quando conheci Lucia Segall, eu tinha somente 19 anos. Não tinha a bagagem de vida que tenho hoje aos 36 para absorver aquele conhecimento todo. Ela é uma apaixonada e apaixonante mestra que ficou anos no Instituto de Nova Iorque e introduziu aqui no Brasil essa história de preparação e direção de atores. Eu estava um dia deprimido em casa, fui assistir a um "pret-à-porter" do Antunes e lá encontrei a Lucia e sua mestra, a Hope Arthur, que leciona até hoje em NYC e foi mestra de vários atores americanos de Hollywood. Foi um encontro mágico. Estamos tentando trazer a Hope para workshops aqui no Brasil. O método Lee Strasberg é simplesmente o dos meus atores favoritos, como Marlon Brando, Montgomery Clift, Al Pacino e tantos outros. Ele consiste basicamente no famoso "memory recall", que dá vida às sensações que a ficção propõe. Nossos cinco sentidos ficam aguçados e há sempre a relação da cena com a memória pessoal, em analogias bem objetivas, como é da natureza dos americanos. Eu coloco Lucia Segall ao lado de Sergio Penna e Fátima Toledo, com quem já trabalhei no cinema. E o Ivan Feijó tem um trabalho que complementa o dela. Enfim, estou nas nuvens.

E o diálogo entre autor, diretor e elenco?

Separo completamente o autor que há em mim do ator e do diretor. No palco, na cena, eles são conflitantes. Fora dos ensaios eles também se complementam, mas durante viraria um samba do crioulo doido. Muitas habilidades podem ser um problema se não colocarmos todas no seu devido lugar. Eu também canto nessa peça. Há três anos tenho uma banda de rock com músicos profissionais, a Krepax. E lá aprendi a cantar e aperfeiçoei o canto em aulas semanais. Além de ator e autor, também produzo o espetáculo. Do Brás à 25 de março, tudo tem minha mão. Adoro fazer isso, como os primeiros atores de grandes companhias que lavam o chão do palco. Isso me dá mais humanidade, me dá mais chão e me deixa livre para voar, voar e voar. Além de Ivan Feijó, com quem tive o prazer de trabalhar no recente "Os Dois Lados da Rua Augusta", onde criamos uma lenda urbana - a do ônibus pink da Augusta -, também coloco seu talento ao lado do Antunes, do Zé Celso. Ele é um grande diretor de teatro, muito educado, estudioso, talentoso e culto. Espero que neste espetáculo o trabalho dele seja levado para um público cada vez maior e melhor. Tem também a Solange Akierman, que é meu braço direito. Trabalho com ela desde "A Casa de Bernarda Alba", não a deixo por nada. Ela é meu grilo falante e minha fada Sininho também.

Quais são seus planos futuros?

A labuta, porque somos qual pedreiros, e o estrelato, porque ninguém é de ferro. Quero protagonizar longas como já faço no teatro e trabalhar com grandes diretores em grandes personagens e filmes. Na verdade, já trabalho em cinema e televisão, já fiz novela ("Cidadão Brasileiro") e minissérie ("Carandiru - outras histórias"). Tomei um susto quando vi meu nome em destaque nos créditos iniciais da Rede Globo. Tenho excelentes relações nas emissoras de TV, que vivem me chamando para protagonizar novelas. Recentemente fiz "Alice", da HBO, com o magnífico Karin Ainousz, no meu primeiro papel de homem rico. Pelo meu biotipo latino, que me abre portas no exterior, aqui no Brasil só faço papel de "homem brasileiro" e, na cabeça deles, "homem brasileiro" é pobre. Na minha visão, o "homem brasileiro" é o que há de mais sofisticado no planeta. É a mistura de todas as raças e é de uma riqueza e beleza infinita. Essa mentalidade caipira colonizada atrasa muito o país. Quando eu viajo, o fato de ser latino e brasileiro encanta a todos. Por que aqui no meu próprio país as novelas tem que ser só de pseudo anglo-saxões? O Lázaro Ramos com seu magistral talento está mudando a história de toda uma cultura. Quero ajudar a mudar também. Essa é minha missão aqui na Terra. Também quero tocar muito com minha banda e montar dignamente todos os meus textos. Tenho um projeto de monólogo com o Ivan, baseado em escritos do Padre Antonio Vieira, que amo, e de um musical samba-cabaret chamado "Olerê! Olará", com minhas atrizes divas do teatro paulistano. Poder para o povo pardo!

* Michel Fernandes viajou a convite do Festival de Curitiba.





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