Mosquito transgênico no combate à dengue

Por Alessandro Greco - colunista do iG* |

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Brasil testa uma solução promissora no combate a uma doença que infecta pelo menos 50 milhões de pessoas por ano

Getty Images
Cientista trabalha com mosquitos geneticamente modificados no laboratório da Oxitec

Os últimos dias foram marcados por dois fatos nada bons no combate à dengue. No dia 21, cientistas publicaram uma pesquisa no periódico cientifico PLoS One mostrando que o mosquito Aedes aegypti, que transmite a dengue, criou resistência ao dietiltoluamida (DEET), princípio ativo comum em repelentes.

Para completar a má notícia, o Ministério da Saúde divulgou na segunda-feira (25) o aumento do número de casos em 190% em relação a 2012 para o período de 1º de janeiro a 16 de fevereiro). E, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 2,5 bilhões de pessoas em todo o mundo corre o risco de contrair a doença. Atualmente, a estimativa da OMS é de que a dengue infecte entre 50 e 100 milhões de pessoas todos os anos e cerca de meio milhão sejam hospitalizados por causa da doença (em inglês - http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs117/en/index.html)

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Em resumo: a situação está se complicando apesar dos dados do Ministério da Saúde também terem mostrado uma diminuição de 20% no número de mortes.

A boa notícia – finalmente – é que os pesquisadores estão testando soluções para o problema da dengue. Uma delas é a criação de mosquitos transgênicos que não geram descendentes vivos. A ideia é simples. Como a dengue é transmitida apenas pelas fêmeas do Aedes, cria-se uma combinação de genes nos machos que faz com que ao copular com as fêmeas, as larvas não sobrevivam.

A primeira tentativa de criar essa combinação foi utilizando a chamada técnica de irradiação. Nela, os machos do Aedes recebiam uma carga de radiação que provocava lesões nas gônadas (órgão em que se produz as células sexuais utilizadas na reprodução), tornando-o estéril. A tecnologia não foi em frente pois a radiação também prejudicava os outros órgãos dos mosquitos, tornando-os menos capazes de copular.

Uma empresa inglesa chamada Oxitec usou então o mesmo conceito de “macho estéril”, nome “oficial” dos Aedes machos submetidos à irradiação, com uma outra tecnologia: a transgenia. A linhagem foi então adaptada ao Brasil por uma equipe liderada por Margareth Capurro, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo SP, e está sendo produzida em escala pela empresa pública Moscamed.

A tecnologia foi testada nos bairros de Mandacaru e Itaberaba, na cidade de Juazeiro, Bahia, em 2011 e 2012. Os resultados mostraram uma diminuição de cerca de 90% na incidência do mosquito que era muito alta nos dois locais. Em julho de 2012, o ministro da saúde Alexandre Padilha inaugurou uma fábrica de machos estéreis transgênicos na cidade com a capacidade de produzir quatro milhões deles por semana. O primeiro local a recebe-los será Jacobina, também na Bahia, município com 79 mil habitantes que teve 1.647 casos de dengue e dois óbitos devido à ela apenas no primeiro semestre de 2012.

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E como toda tecnologia, o segredo do sucesso está nos detalhes. Um deles é o fato de uma fêmea Aedes copular apenas uma única vez durante toda a vida, mas o macho, não. Cada macho copula diversas fêmeas, tornando muito mais eficaz o processo de não deixar descendentes vivos. O outro é o fato de serem soltos apenas os machos estéreis.

Mais detalhes sobre o mosquito transgênico podem ser encontrados no artigo “Mosquito transgênico: do paper para a realidade”.

*Alessandro Barros Greco é jornalista e engenheiro mecânico pela POLI-USP. Escreve sobre ciência desde 1998. Acredita que falar sobre ela ajuda as pessoas a viverem melhor. Foi o terceiro brasileiro a receber a bolsa Knight Science Journalism Fellowship do Massachusetts Institute of Technology (MIT) 

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