Artigo: Rio+20: uma peça em dois atos

Especialista avalia para o iG as expectativas para a conferência de desenvolvimento sustentável da ONU

Aron Belinky, especial para o iG* |

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Aron Belinky, coordenador de processos intenacionais do Instituto Vitae Civilis
Afinal de contas, a Rio+20 vai ser um enorme sucesso ou um fracasso retumbante? Essa é pergunta que ronda as mídias e rodas, a poucas semanas do que certamente será uma conferência histórica, seja por seu tamanho, seja por sua pauta, seja pelo contexto dramático em que acontece. As comparações com a Rio92 são inevitáveis, e começam aí os problemas.

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Primeiro, por que temos momentos muito diferentes no cenário mundial: em 1992 havia um espírito de otimismo, com o fim da guerra fria e os primeiros movimentos da globalização acelerada que assistimos nos últimos 20 anos. Hoje vivemos a ressaca dessa farra: uma crise econômico-financeira sem precedentes, combinada com alarmantes sinais de colapso próximo também nas áreas ambiental, social e política. Por outro lado, há duas décadas fizemos uma conferência global à base de telex e fax, combinados com versões jurássicas dos celulares e da internet. Hoje temos a conexão instantânea global, mídias sociais e tecnologias, que colocam em nosso bolso o planeta, com mensagens, imagens e mapas digitais.

Na Rio92 a ONU foi capaz de focar em poucos temas e, com ótima liderança e o devido tempo de negociação, lançou visões inspiradoras, como a Declaração do Rio e a Agenda 21, e produziu ou encaminhou tratados importantes, sobre clima, biodiversidade e desertificação. Já a Rio+20 chega com uma agenda ampla ( que muitos consideram superificial ou desfocada ), com um rascunho de declaração que demora a ficar pronto e é quase unanimemente avaliado como “pouco ambicioso”. Não traz nenhuma promessa de tratados imediatos. Vendo esse contraste, há quem já anuncie a Rio+20 como um grande fracasso. Mas não é bem assim.

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Medir a Rio+20 com a régua da Rio92 é desconsiderar a enorme mudança de contexto, e ignorar que muita coisa mudou. O que está sendo negociado pelos países reunidos na Conferência da ONU é muito importante, mas tão ou mais relevantes são os milhares de debates e encontros paralelos organizados pelos diferentes setores da sociedade global. É imensurável o valor das reflexões, acordos e conexões produzidos no mundo todo em função dessa conferência. Por esse lado, a Rio+20 já começou, e já é um sucesso.

Mas não podemos menosprezar o que ocorre na conferência oficial: o que os países combinarem – ou deixarem de combinar – terá efeitos enormes sobre nossas vidas. Não há dúvida que a construção do futuro que queremos (e precisamos) passa pela melhoria na capacidade de regulação nacional e internacional, para as quais os governos nacionais são peças-chave.

Quando a ONU convocou a Rio+20, em dezembro de 2009, sua pauta já foi definida: a produção de um documento político focado, com o objetivo de reforçar o compromisso global com o desenvolvimento sustentável. A base para isso deveria ser um retrato dos desafios e acordos atuais e passados, e um balanço do que avançamos – ou não – frente a eles. Os caminhos para a solução deveriam ser buscados na economia – como forma de dar centralidade, capilaridade, volume e velocidade às mudanças necessárias – mas sempre em conjunto com a governança, essencial para direcionar os agentes econômicos e garantir que mercados desregulados e ganância de curto prazo não destruam o que necessitamos e buscamos proteger.

É com esse leque amplo e desafiador que a Rio+20 foi concebida. O enorme debate em torno dela fará sentido se, ao final, formos capazes de identificar as prioridades, os pontos nevrálgicos de consenso e de (re)configuração do cenário global. É preciso, também, definir os processos para que –em dois a três anos – essas prioridades e diretrizes se traduzam em reais compromissos de ação, visíveis e cobráveis por cidadãos de todo o planeta. Ainda há espaço para isso, mas pouco, como alertamos em nosso manifesto de 14/05/2012.

A Conferência da ONU em junho próximo é o primeiro ato dessa peça. Será bem sucedida se deixar a cena pronta e o público engajado e ansioso pela segunda parte. Mas será um fiasco, caso nem isso seja capaz de entregar. Palmas ou vaias para a Rio+20? Saberemos em breve.

*Aron Belinky é consultor especialista em sustentabilidade, responsabilidade social e consumo sustentável, com formação em Geografia (USP) e Administração Pública (FGV-SP). É Professor convidado pela FGV, Fundação Dom Cabral e Instituto Ethos, além de secretário-executivo da ECOPRESS e do GAO - Grupo de Articulação das ONGs brasileiras na ISO 26000, a norma internacional de Responsabilidade Social.Palestrante, requisitado no Brasil e no exterior, atua profissionalmente nessa área desde 2003, quando iniciou sua atividade como consultor do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente.

Como Coordenador de Processos Internacionais do Instituto Vitae Civilis, é responsável pela seção brasileira dos Diálogos Nacionais sobre Economia Verde, e por outros processos voltados à Conferência Rio+20.

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