“Lucy” tinha pé semelhante ao de humanos modernos

Fóssil de osso encontrado em Hadar, na Etiópia, comprova que Australopithecus afarensis tinha pés arqueados, ideais para caminhada

Maria Fernanda Ziegler, iG São Paulo | 10/02/2011 17:01

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Foto: Science/AAAS Ampliar

Foto do quarto osso metatarsal de um Australopithecus afarensis

A dúvida sobre o modo de caminhar do hominídeo Australopithecus afarensis, um dos ancestrais do homem, chegou ao fim. A hipótese de que a espécie, cujo fóssil mais famoso é conhecido como Lucy, praticava uma forma de locomoção intermediária entre chimpanzés quadrúpedes que viviam em árvores e humanos bípedes caiu por terra com a descoberta em Hadar, na Etiópia, de um osso fossilizado, de 3,2 milhões de anos. O osso em questão é o quarto metatarsal – que conecta o dedo ao lado do mindinho à base do pé – e indica que a espécie tinha pés arqueados, semelhantes aos humanos modernos, por isso, andava em dois pés como fazemos atualmente.

Este osso é elemento chave que diferencia os pés de primatas e de humanos, pois forma arcos longitudinais e transversais na estrutura do pé. Isto quer dizer que o Australopithecus afarensis não tinha o pé chato e se movimentava com mais facilidade. Parece um detalhe, mas o desenvolvimento de pés arqueados foi uma mudança importante na evolução humana, pois significa o abandono da vida nas árvores.

“Nós sabemos há muitos anos que a espécie de Lucy, o Australopithecus afarensis, era um bípede ereto. Mas havia ainda o debate sobre se esta espécie continuava a viver entre as árvores e as hipóteses se baseavam em aspectos do esqueleto locomotor deles que lembra mais o de macacos que de humanos. A descoberta adiciona à evidência de um padrão de humanos modernos na estrutura e função do pé, o que implica uma adaptação a locomoção por dois pés”, disse ao iG William Kimbel, da Universidade do Arizona e um dos autores do estudo que será publicado esta semana no periódico científico Science.

Lucy andarilha
Os seres humanos são os únicos entre os primatas que têm pés arqueados. Esta característica facilita a locomoção em duas pernas, pois os arcos são responsáveis pela absorção do choque quando o pé toca o solo, assim como servem de plataforma dura para se impulsionar contra o chão. Os pés dos outros primatas não têm estes arcos, são mais flexíveis que os dos humanos e o dedão tem mais mobilidade, o que facilita a escalada de árvores e o engate em galhos.

Foto: AP Photo / Michael Stravato Ampliar

Esqueleto de 3,2 milhões de anos do Australopithecus afarensis chamado Lucy

Kimbel afirma que até a descoberta do fóssil do osso em Hadar, o padrão semelhante aos pés de humanos só havia sido visto em fósseis de Homo erectus de 1,8 milhões de anos, na Eurásia. “No entanto, é bom lembrar que os ossos do pé são muito raros em registros fósseis antigos, portanto não é surpreendente que a estrutura de pé igual a do homem moderno seja mais antiga que isto”, disse.

O Australopithecus afarensis viveu na África há mais de 3 milhões de anos e tinha cérebros menores e mandíbulas mais fortes que o homem moderno. Antes deles, registros fósseis revelam que vivia no Quênia e na Etiópia o Australopithecus anamensis, há 4,2 milhões de anos. E antes ainda, vivia o Ardipithecus ramidus, o mais antigo ancestral humano que vivia da Etiópia, há 4,4 milhões de anos. Embora as espécies fossem bípedes, passavam parte do tempo entre as árvores e seus pés ainda tinham características mais semelhantes aos de primatas como os chimpanzés. Ficavam em pé, mas não eram bons de caminhada.

A nova descoberta de Hadar permite dizer que há pelo menos 3,2 milhões de anos bons andarilhos vivem na Terra – isto porque não há muitos registros fósseis do A. anamensis que comprovem que estes também tivessem pés arqueados. De acordo com os cientistas, a nova descoberta sugere ainda que a vida entre as árvores tenha se tornado desfavorável aos parentes de Lucy.

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