Conheça 5 animais transgênicos e entenda argumentos contra e a favor de seu uso

Por BBC |

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Lista inclui mosquitos que ajudam a combater dengue e pestes que atacam lavouras, além de frango que não transmite gripe aviária e um peixe para consumo humano

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Um tipo de mosca transgênica programada para se autoextinguir pode ser a solução para pestes que afetam lavouras de alimentos em países europeus, segundo cientistas de uma empresa britânica de biotecnologia.

Um estudo detalhando a nova tecnologia foi publicado neste mês na revista científica Proceedings of the Royal Society B.

Recentemente, a mesma companhia, a Oxitec, de Abingdon, na Inglaterra, foi manchete no Brasil e no mundo. Ela recebeu aprovação das autoridades brasileiras para comercializar no país uma mosca transgênica que, segundo a empresa, é capaz de combater o mosquito transmissor da dengue.

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O Brasil é o primeiro país do mundo a autorizar a liberação, na natureza, de um animal transgênico para fins como este e a decisão brasileira foi recebida com preocupação por specialistas dentro e fora do país.

Um animal transgênico, ou geneticamente modificado, é aquele que contém material genético adicional ou alterado. O objetivo das alterações - que são feitas com recursos da biotecnologia ou biologia molecular - é dar ao animal uma nova característica.

Os defensores da engenharia genética tendem a promovê-la como a solução para problemas tão diversos como fome, crime, mudança climática e doenças como o câncer.

Outros, no entanto, se preocupam com o impacto que animais transgênicos possam ter sobre alimentos, saúde, agricultura,meio-ambiente e sociedade.

Polêmicas à parte, há mais e mais animais transgênicos sendo desenvolvidos no mundo.

Conheça cinco deles e entenda os argumentos contra e a favor de seu uso.

Frango

Um tipo de frango transgênico que não transmite o vírus da gripe aviária foi desenvolvido por pesquisadores das universidades de Cambridge e Edimburgo, na Grã-Bretanha.

Mesmo que esteja em contato com outros frangos, o animal infectado não transmite o vírus para outros. Segundo os cientistas envolvidos, essa alteração genética tem o potencial de impedir que a doença se alastre.

Isso protegeria a saúde não apenas de aves, mas poderia também evitar que um novo vírus da gripe provocasse epidemias na população humana.

A alteração genética - uma pequena molécula desenhada especificamente para impedir que o vírus se reproduza após infectar um animal - não protege o frango contra o vírus, apenas impede que ele o transmita.

Os cientistas ressaltam que esse frango foi desenvolvido para fins de pesquisa apenas e não para o consumo humano.

O projeto permitiu que a equipe tivesse confirmação de que a alteração genética funciona. Portanto, há probabilidade de que ela seja útil no desenvolvimento, no futuro, de frangos imunes à gripe.

A equipe do Roslyn Institute da University of Edinburgh explica, no entanto, que não observou diferenças no desenvolvimento ou na saúde dos frangos transgênicos em relação aos frangos comuns. E acrescenta não ter encontrado qualquer indício de que esse frango não seja adequado para o consumo humano.

Alguns, no entanto, questionam a eficiência do frango transgênico em interromper a transmissão da gripe.

A cientista Helen Wallace, da ONG Genewatch - que monitora o uso de tecnologias de engenharia genética - disse à BBC Brasil que há a preocupação de que a transmissão do vírus continue a ocorrer sem ser detectada.

Além disso, "o vírus quer se reproduzir e evoluir. Então, uma única mutação em qualquer vírus pode alterar suas propriedades, permitindo que se transmita mais facilmente, ou tornando-o ainda mais agressivo".

Mosquito da Dengue

A Oxitec realizou vários testes de campo em Juazeiro, na Bahia, com um tipo de mosquito transgênico que contém genes do Aedes Aegypti - transmissor da dengue.

Segundo a companhia, a liberação do mosquito transgênico em dois bairros da cidade resultou na morte de 90% da população de Aedes Aegypti na área.

O princípio de funcionamento é semelhante ao da mosca de fruta transgênica: quando o mosquito macho transgênico criado em laboratório cruza com fêmeas do Aedes Aegypti na natureza, os filhotes resultantes não sobrevivem até a vida adulta, bloqueando a reprodução da espécie naquela área.

Em abril desse ano, a Oxitec obteve aprovação da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) para comercializar o mosquito transgênico no Brasil.

Agora, a empresa precisa obter um registro comercial para que possa começar a disponibilizar o mosquito no mercado.

Esta é a primeira vez que um produto desse tipo recebe aprovação no Brasil - e no mundo.

Indagados sobre possíveis riscos de que o mosquito transgênico transmita doenças ao homem, pesquisadores que desenvolvem mosquitos geneticamente modificados no Brasil disseram não haver riscos de que o mosquito pique humanos. Eles explicaram que apenas machos transgênicos serão liberados na natureza, e estes se alimentam exclusivamente de néctar de flores.

A transmissão do vírus da dengue é feita pela fêmea do Aedes Aegypti.

Grupos de cientistas, agricultores e técnicos que se opõem ao uso de transgênicos no Brasil apontam vários riscos associados ao uso do mosquito trangênico.

Eles dizem, por exemplo, que a tecnologia foi testada em outros países mas só obteve aprovação no Brasil. Questionam o princípio de que eliminar o mosquito transmissor leve à eliminação da doença.

E explicam também que quando uma espécie de mosquito desaparece, outras tendem a se proliferar em seu lugar, levando a um possível aumento na transmissão de outras doenças, como malária e febre amarela.

Além disso, alguns argumentam que quando as empresas "fabricantes de mosquitos" liberam os insetos na natureza, muitas fêmeas transgênicas são liberadas também, acidentalmente. Isso cria o risco de que as fêmeas se reproduzam, o que pode ter consequências imprevisíveis.

Helen Wallace, da Genewatch, disse estar surpresa com a decisão da comissão brasileira de aprovar a tecnologia.

"A companhia diz que houve uma redução no número de casos de dengue mas não publicou os resultados do estudo", disse a cientista.

"A Universidade de São Paulo disse que não há evidência de diminuição nos casos", diz Wallace. "Pelo contrário, em uma das áreas (onde os testes de campo foram feitos) foi declarada uma emergência por causa de um aumento nos casos".

"A preocupação é de que a tecnologia possa agravar o problema da dengue", concluiu Wallace.

Camundongo

Cada vez mais, animais transgênicos são usados por cientistas em experimentos de laboratório.

De um total de 4,11 milhões de experimentos em animais realizados na Grã-Bretanha em 2012, 1,91 milhão envolveram animais transgênicos. Isso representou um aumento de 22% no uso de cobaias transgênicos em relação ao ano anterior.

Camundongos mutantes foram os mais usados, seguidos por ratos e peixes. Também houve um aumento de 22% no uso de primatas não-humanos, entre eles, babuínos.

Também houve um aumento de 13% no número de procedimentos envolvendo animais submetidos a mutações genéticas prejudiciais.

Quaisquer que sejam os benefícios trazidos pelos experimentos, a ideia de que milhões de animais - transgênicos ou não - estejam, nesse momento, sofrendo e morrendo em laboratórios no mundo provoca o repúdio de ativistas que combatem a crueldade contra animais.

Mosca da Fruta

Um tipo de mosca da fruta transgênica, programada para a "auto-extinção" poderia, de acordo com cientistas britânicos, ser um método eficiente de controle de pestes em lavouras.

A mosca, desenvolvida pela companhia Oxitec, com sede no condado de Oxfordshire, na Inglaterra, é um inseto macho que, quando se reproduz, gera apenas filhotes machos.

Isso porque as larvas fêmeas possuem um gene que as leva a morrer antes de se tornarem adultas, ou seja, são programadas para morrer.

Como resultado, após várias gerações, a população se extingue - já que os machos não conseguem encontrar fêmeas para o acasalamento.

Segundo os pesquisadores, testes com a mosca transgênica em uma estufa resultaram no "colapso da população" de moscas.

A equipe defende o uso dessa mosca transgênica como uma forma eficiente e ecológica de evitar danos às lavouras provocados pela mosca da fruta, que afeta mais de 300 tipos de plantações.

Para fazer com que a mosca transgênica se reproduza, a companhia "silencia" o gene da auto-extinção em laboratório, usando um antibiótico chamado tetraciclina. A droga funciona como um botão que desliga o transgene, permitindo que moscas fêmeas se desenvolvam. Uma vez que o antibiótico é retirado, as fêmeas deixam de sobreviver.

A ideia é que milhares de machos transgênicos sejam soltos no ambiente. Segundo os pesquisadores, rapidamente, começa a haver um desequilíbrio na proporção entre moscas machos e fêmeas, o que torna aquela população insustentável.

"Na área onde se faz essa operação, os índices de população (da mosca de fruta) diminuem rapidamente, reduzindo massivamente os danos às plantações", disse um dos autores do estudo, Philip Leftwich, da University of East Anglia e da Oxitec, à BBC.

O especialista diz que o próximo passo são testes de campo, fora do laboratório. Para isso, no entanto, a empresa precisa da aprovação do governo.

A cientista Helen Wallace, da ONG Genewatch - que monitora o uso de tecnologias de engenharia genética - faz sérias críticas ao projeto.

Segundo ela, os efeitos, a longo prazo, da liberação de milhões de moscas transgênicas no ambiente seriam impossíveis de prever.

Ela alerta também para possíveis riscos à saúde caso larvas das fêmeas mortas sejam deixadas dentro dos alimentos.

E acrescenta que, a longo prazo, o mecanismo de "auto-extinção" pode falhar, à medida que moscas desenvolvam resistência ou se reproduzam em locais contaminados pelo antibiótico tetraciclina, bastante usado na agricultura.

Salmão

A empresa americana de biotecnologia AquaBounty desenvolveu o primeiro peixe geneticamente modificado para consumo humano do mundo.

O salmão, de uma espécie selvagem encontrada no Atlântico, contém genes extras da espécie Chinook, do Pacífico, e de enguia. Esses genes fazem com que o peixe cresça mais rápido, ao longo de todo o ano. Como resultado, chegam ao tamanho máximo duas vezes mais rápido.

Mas, como em qualquer experimento transgênico, há preocupações. A Federação Atlântica de Salmão, por exemplo, teme que o peixe modificado escape dos tanques de cultivo e laboratórios e vá parar na natureza, e que destrua as espécies selvagens de salmão.

O especialista Francisco Aragão, pesquisador responsável pelo laboratório de engenharia genética da Embrapa, disse que esse risco existe.

Falando à BBC Brasil no ano passado, Aragão disse que estava acompanhado o caso do salmão "com interesse", e que não tinha dúvidas sobre sua segurança para consumo humano.

"A dúvida é em relação ao impacto no meio ambiente". Embora seja criado em cativeiro, o salmão poderia escapar, ele explicou.

Uma vez livre na natureza, "o salmão poderia aumentar sua população muito rapidamente e eventualmente eliminar populações de peixes nativos. As probabilidades de risco para o meio ambiente são baixas, mas não são zero...na natureza não existe o zero".

Segundo a AquaBounty, todos os salmões modificados serão fêmeas estéreis criadas em ambientes fechados.

A empresa tenta há 21 anos obter aprovação oficial para que seu peixe chegue às mesas de jantar.

No entanto, a Food and Drug Administration (FDA), agência que regula alimentos e medicamentos nos EUA, reluta em autorizar a comercialização do produto.

Em 2012, no entanto, a agência declarou que o salmão transgênico era seguro para ser consumido pelo homem e que não tinha "impacto significativo" sobre o ambiente.

Há cerca de oito anos, a agência reguladora americana aprovou a primeira droga de consumo humano produzida a partir de um animal transgênico - uma cabra.

Há também vacas transgênicas com genes humanos que produzem leite semelhante ao materno.

Mas grupos de defesa dos animais afirmam que "a modificação genética apenas contribui para a crueldade já infringida em animais criados para virar comida e usados em experimentos".

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