À procura de sinais de vida nas profundezas da Antártida

Por The New York Times |

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Projetos científicos dos Estados Unidos, Reino Unido e Rússia querem perfurar lagos submersos sob o gelo antártico para descobrir micróbios que vivem em condições extremas

The New York Times
Cientistas americanos trabalham na perfuração do lago Whillans na Antártida, em um projeto de 10 milhões de dólares

Três grandes projetos científicos com o objetivo de buscar indícios de formas de vida em lagos nas águas profundas sob o gelo da Antártida foram iniciados nesta estação. Tais indícios podem fornecer pistas que colaborem com a busca de formas de vida em outros lugares do sistema solar, talvez no passado de Marte, ou mesmo sob a superfície de Encélado, uma das luas de Saturno. Contudo, apenas um dos projetos, uma expedição norte-americana de 10 milhões de dólares, tem chance de identificar micróbios há muito escondidos antes que o clima no continente gelado ponha fim à perfuração, daqui a cerca de um mês.

Um dos projetos, uma iniciativa britânica, enfrentou problemas técnicos e teve que ser cancelado nesta temporada. Uma expedição da Rússia vai retornar ao país com amostras para análises posteriores.

O projeto dos EUA, financiado por três agências federais e uma fundação privada, está prestes a começar a perfurar o solo sob um lago a aproximadamente um quilômetro abaixo de uma geleira chamada Corrente de Gelo Whillans. A iniciativa irá analisar amostras no local, em um laboratório de campo. As descobertas da expedição podem ser anunciadas já nas próximas semanas.

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John C. Priscu, da Universidade Estadual de Montana, um dos líderes do projeto, disse não haver garantias disso. "Nós não sabemos, vai haver surpresas", disse ele em uma conferência em dezembro, com os dois outros membros do comitê executivo do projeto, Ross D. Powell, da Universidade do Norte de Illinois, e Slawek Tulaczyk, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz. Priscu e Tulaczyk estavam se preparando para voar para a Antártida; Powell já estava na Estação McMurdo, a base científica dos EUA no local.

Priscu está otimista, disse ele, considerando que "10 anos de indícios circunstanciais" sugerem que "deve haver uma comunidade microbiana viável vivendo no escuro e no frio". O projeto se chama WISSARD, que significa Perfuração de Pesquisa de Acesso Subglacial da Corrente de Gelo do Lago Whillans.

Tanto o projeto russo quanto o britânico tinham como objetivo alcançar as águas sob três ou mais quilômetros de gelo. Há uma camada de aproximadamente um quilômetro de gelo sobre o lago Whillans. No caso dos três projetos, não há sol para fornecer energia a células vivas, apenas minerais e o calor proveniente do interior da Terra. Embora se saiba que a vida pode prosperar no fundo do oceano, sem fotossíntese, águas profundas, geladas e doces como essas nunca foram exploradas. Robin Bell, cientista de pesquisa sênior do Observatório da Terra Lamont-Doherty, da Universidade de Columbia, que estuda o comportamento das camadas de gelo com o uso de radar e outras técnicas, disse que os lagos subglaciais da Antártida guardam "ecossistemas inteiros que nunca foram de fato examinados".

Chris McKay, astrobiólogo do Centro de Pesquisa Ames, da NASA, disse que explorar ambientes extremos ajuda a se preparar de modo prático para conduzir pesquisas em outros planetas, possibilitando "aprender a fazer medições em locais onde há escassez de formas de vida". E, segundo ele, entre os possíveis candidatos à vida microbiana no sistema solar, passados ou atuais, "nenhum habita ambientes próximos à superfície".

A pesquisa do Lago Whillans também visa compreender o fluxo de água sob geleiras no Oceano Austral e a taxa de derretimento do gelo antártico, o que pode vir a fornecer informações importantes para estudos climáticos.

O projeto russo perfurou a superfície do Lago Vostok em fevereiro, depois de uma década de esforços para atravessar mais aproximadamente três quilômetros de gelo até chegar à água que havia ficado reservada há milhões de anos. Isso aconteceu no final da estação de trabalhos na Antártida, e o clima em Vostok, local da temperatura mais baixa já registrada na Terra (-53,67 graus Celsius), forçou uma partida rápida.

Os russos estão de volta ao Lago Vostok neste ano para coletar amostras da água que veio para a superfície do lago após a perfuração, mas eles apenas saberão o que encontraram ao retornarem à Rússia com o que recolheram para a realização de análises. Uma das limitações desse projeto é o fato de que as amostras provêm de um único ponto na superfície de uma massa de água que tem o tamanho do Lago Ontário.

O projeto britânico também se destina à coleta de amostras de água para estudos posteriores, a partir de outro corpo de água menor, o lago Ellsworth. Contudo, os pesquisadores cancelaram a tentativa de perfuração que realizavam no dia de Natal, pois o processo enfrentou dificuldades ao atingir a profundidade de 300 metros. Eles esperavam atingir águas que estão a pouco mais de três quilômetros de profundidade.

O projeto dos EUA é diferente sob vários aspectos. O lago Whillans é menor e não tão profundo, e se reabastece mais rapidamente graças a outras fontes de água sob a plataforma de gelo da Antártida. Trata-se de uma bacia localizada em um rio subglacial onde a água se acumula para formar um lago, mas continua a fluir, atingindo, por fim, o oceano.

Priscu disse que embora as águas do Lago Vostok sejam substituídas a cada 10 mil anos, e as águas do lago Ellsworth mudem pelo menos a cada 700 anos, a taxa de substituição do Lago Whillans é de cerca de uma década.

A abordagem científica também é diferente. O projeto WISSARD envolve a utilização de um submersível remoto em forma de torpedo com cerca de 80 centímetros de comprimento. O dispositivo ficará preso a um cabo com cerca de 1,60 quilômetro de comprimento e será usado para mapear o espaço tridimensional do fundo do lago, incluindo os pontos de entrada e escoamento de água. Tulaczyk disse que a compreensão da forma do lago, e da maneira como as águas entram e saem, é importante para saber como e por que as geleiras que ficam sobre esses lagos profundos se movimentam, assim como por que a cobertura de gelo de algumas partes da Antártida está aumentando enquanto a de outras está diminuindo.

Os glaciologistas têm uma boa noção de como as camadas de gelo que ficam na superfície da Antártida se movimentam, disse ele, mas os cerca de quatrocentos lagos escondidos de que se tem notícia afetam o movimento do gelo sobre eles. Eles podem servir como uma espécie de lubrificante entre as montanhas e vales da massa do continente antártico e as grandes massas de gelo sob as quais ela se esconde.

A equipe do projeto WISSARD também vai recolher amostras dos sedimentos no fundo do lago, para procurar por micróbios vivos ou evidências de atividades químicas do passado. A presença de micróbios subglaciais pode, por exemplo, estar alterando a composição mineral da água, liberando quantidades de ferro que, em seguida, seguem para o oceano ao redor da Antártida.

Sobre as várias abordagens exploradas pela equipe, Bell disse: "Quem faz uma perfuração em uma camada de gelo como essa deve fazer tudo o que estiver ao seu alcance".

O projeto envolveu não só o desenvolvimento e o teste de uma broca de água quente com um sistema de filtragem para evitar a contaminação do lago escondido, mas o transporte da broca – juntamente com o submersível e um laboratório capaz de realizar análises de amostras de água e sedimentos no próprio local – sobre 800 quilômetros de gelo, da Estação McMurdo até o ponto onde a equipe se concentrou no Lago Whillans. Treze tratores arrastaram o equipamento da estação de pesquisa McMurdo ao longo de duas semanas, chegando ao local em 12 de janeiro.

Priscu, falando da Estação McMurdo na manhã do último domingo (o fuso horário da Estação McMurdo fica 18 horas à frente do de Nova York), disse que eram esperados voos trazendo os cientistas, perfuradores e outros membros da equipe para o local nos próximos dias. Até o dia 21 de janeiro, quando ele espera dar início à perfuração, haverá cerca de 50 pessoas no acampamento.

O frio não trouxe nenhum problema logístico até agora. Em vez disso, o clima excepcionalmente quente deixou as pistas tão moles que os aviões de rodas não têm como decolar. Segundo Priscu, pode ser que venham a ser usados aviões que pousam e decolam sobre esquis.

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