Por que a gripe se tornou um bicho papão?

Por Alessandro Greco - colunista do iG* | - Atualizada às

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O levantamento da moratória de estudos sobre a gripe aviária, na semana passada, é mais um exemplo de como uma doença corriqueira pode tirar o sono dos cientistas

Getty Images
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O romance “A Dança da Morte”, um dos grandes livros do mestre do terror Stephen King, começa com um surto de gripe que mata 99,4% da população humana, devido a um supervírus criado em uma base militar americana que escapa acidentalmente. Publicada em 1978, a fantasia de King foi um sucesso, virou série para televisão e foi adaptado para os quadrinhos.

Mas o medo gerado pela gripe não fica apenas na ficção. Ela faz parte do inconsciente coletivo humano desde muito antes do livro de King e continua até os dias de hoje. Ano passado, quando dois laboratórios -- um na Holanda e outro nos Estados Unidos -- anunciaram que haviam conseguido criar uma versão do vírus da gripe aviária (conhecido como H5N1) de transmissão mais fácil e iriam publicar o conteúdo da pesquisa, uma polêmica foi criada.

Vídeo: Papo na Redação: Alessandro Greco comenta os perigos da gripe 

As cepas, desenvolvida nos laboratórios de Ron Fouchier, do Centro Médico Erasmus, na Holanda, e de Yoshihiro Kawaoka da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, eram capazes de se transmitir entre mamíferos e poderiam, segundo as autoridades americanas, ser copiadas por bioterroristas se os detalhes dos estudos fossem tornados publicados. Após muita análise, ambos os estudos foram publicados nos periódicos Nature e Science, mas os cientistas entraram em uma interrupção auto-imposta de seus estudos, que terminou apenas na semana passada.

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A verdade é que o H5N1 sobre o qual se fez a moratória é mortal para os pássaros, mas sua transmissão de aves para humanos ainda é considerada ocasional. Por causa disso, seu estrago não é nada se comparado ao que já fez o H1N1, causador da Gripe Espanhola de 1918, que infectou aproximadamente um terço da população mundial da época (500 milhões de pessoas) e matou cerca de 50 milhões.

O problema da virulência de uma gripe reside basicamente na capacidade humana de gerar anticorpos para combatê-la que é fruto de três fatores: o corpo haver tido contato anteriormente com a cepa específica daquele vírus da gripe e já gerado alguns anticorpos, a capacidade imunológica (que varia de organismo para organismo) e a habilidade do vírus de se transmitir de pessoa para pessoa. No caso de haver uma combinação desses três fatores, a situação complica e ele realmente pode causar um estrago grande como foi o caso da gripe de 1918.

O H1N1 continua circulando por aí e se modificando – como todo vírus que se preze. Não surpreendentemente é uma variante dele o responsável pela pandemia de gripe que ocorreu em 2009 e trouxe à tona o medo da gripe presente no inconsciente coletivo humano. O fato é que a nova cepa do H1N1 está instalada nos cinco continentes, e teremos de conviver com ela como já fazemos com a gripe sazonal – boa parte dela causada por uma outra variante do H1N1.

A única questão a ser olhada com cuidado é a possibilidade de mais mutações que tornem o H1N1 mais agressivo. A ação concreta que pode-se tomar para mitigar esta questão é monitorar a estrutura genética do vírus para ver como ele está se modificando e isso está sendo feito. Porém, antes que H1N1 leve a fama de único malvado é bom saber que há uma cepa de H5N1 bastante virulenta e com a qual os cientistas, com razão, se preocupam seriamente.

Veja o infográfico: a ciência real nas obras de ficção científica 

Em tempo: em 1976, dois anos antes de King publicar “A Dança da Morte”, houve um surto de gripe em Fort Knox, uma base militar americana. A notícia da gripe levou o governo americano a fazer uma grande campanha de vacinação nos Estados Unidos que imunizou 40 milhões de pessoas. O vírus, no entanto, terminou por naturalmente não se espalhar. A fatura ficou em 13 hospitalizações, 1 morte e 230 casos e a vacinação entrou para a história como um grande fracasso do governo. O vírus era uma cepa de H1N1.

Leia a coluna anterior:
Transgênicos: em direção a um debate puramente científico



*Alessandro Barros Greco é jornalista e engenheiro mecânico pela POLI-USP. Escreve sobre ciência desde 1998. Acredita que falar sobre ela ajuda as pessoas a viverem melhor. Foi o terceiro brasileiro a receber a bolsa Knight Science Journalism Fellowship do Massachusetts Institute of Technology (MIT) 

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