Mildred Dresselhaus, a cientista que  ajudou a criar a era da nanotecnologia

Conhecida como rainha do carbono, pesquisadora do MIT há mais de 50 anos inventa técnicas inovadoras para estudar o elemento

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Mildred Dresselhaus, conhecida como a Rainha do Carbono, recebeu o prêmio Kavli de nanociência pelo pioneirismo no estudo de fibras de carbono

Mildred Spiewak Dresselhaus, professora de Física e Engenharia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), deixou um longo rastro de pegadas de carbono. No caso dela, isso é uma coisa boa.

Por mais de meio século, Dresselhaus estudou as propriedades fundamentais do carbono – o carbono como grafite, o mineral escuro usado para fabricar as minas dos nossos lápis, e o carbono como líquido, elemento com o maior ponto de fusão da natureza; e o carbono que em um momento se comporta como isolante, e em outro como supercondutor.

Ela inventou técnicas inovadoras para estudar camadas individuais de átomos de carbono. Descobriu maneiras de capturar a energia térmica de partículas vibrantes em "fronteiras" bem definidas. Mais tarde, aprendeu a usar o calor para produzir eletricidade.

Ela desenvolveu fibras de carbono mais fortes do que o aço e bem mais leves do que ele. A sua pesquisa ajudou a inaugurar a era da nanotecnologia, um esforço extremamente popular para reduzir o tamanho de circuitos eletrônicos, dispositivos médicos e uma série de outros produtos de dimensões moleculares.

Recentemente, Dresselhaus ganhou o Prêmio Kavli 2012 de Nanociência, uma distinção de 1 milhão de dólares que corresponde ao valor da bolsa e tem a mesma origem escandinava do Nobel, isso se não tiver um status à altura. O novo prêmio se junta a uma longa lista de conquistas, entre elas a Medalha Nacional de Ciência, o Prêmio Enrico Fermi, as presidências da Sociedade Americana de Física e da Associação Americana para o Avanço da Ciência, 28 doutorados honorários e uma temporada no Ministério de Energia do governo do presidente Bill Clinton.

Dresselhaus também foi uma destacada defensora das mulheres na Física e na Engenharia, disciplinas que ainda têm poucos rostos femininos e que eram completamente hostis às mulheres quando ela começou a carreira, no final dos anos 1950. Mesmo antes de adentrar na ciência, Dresselhaus estava bem acostumada à hostilidade e aos tempos difíceis, tendo crescido de modo bastante humilde em uma parte violenta do Bronx.

Hoje, aos 81 anos, a mulher apelidada de Rainha do Carbono ainda trabalha durante longas horas no laboratório, publica prolificamente, dá palestras em todo o mundo e toca violino e viola em grupos de câmara. Com um marido também físico, Gene Dresselhaus, ela é a mãe de quatro filhos e avó de cinco netos, incluindo uma neta que ingressa no MIT no próximo semestre para estudar nanotecnologia.

Conversei com Dresselhaus em seu escritório de formato trapezoidal, frente à presença vigorosa de uma tapeçaria venezuelana resplandecente que cobria grande parte de uma parede.

Seus pais eram imigrantes da Polônia e seu pai muitas vezes teve dificuldades de encontrar trabalho. Você já deu entrevistas sobre como foi não ter brinquedos quando criança, não ter o que comer às vezes e usar um único conjunto de roupas, que a sua mãe lavava todas as noites para você. Agora, com o prêmio Kavli, você é uma integrante genuína do clube do 1 por cento. Como se sente?
Dresselhaus: É engraçado, sabe? Como cientista, não se recebe um grande salário, mas é mais do que o suficiente. Quando se está ocupado aproveitando o que se está fazendo, não se gasta muito dinheiro. Eu não esperava prêmios.

Como você foi parar no Bronx, já que nasceu no Brooklyn?
Dresselhaus: Meu irmão mais velho era um prodígio musical e conseguiu uma bolsa para estudar na Escola de Música Bronx House. Nós nos mudamos para o Bronx quando eu tinha 4 anos para ficar perto da escola de música dele. Depois, também consegui uma bolsa de estudos de música quando tinha 6 anos, mas para uma escola em Greenwich Village. Eu tinha que pegar o trem elevado e depois metrô para chegar lá. Caí naquelas escadas do metrô inúmeras vezes. Eu carregava peso demais, meu violino, meus livros da escola. Eu tropeçava e perdia o equilíbrio.

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Professora de física e engenharia do MIT, Mildred Dresselhaus, mostra uma cápsula com fibra de carbono

Você ia sozinha ao centro aos 6 anos?
Dresselhaus: O mais assustador era chegar em casa e descer do trem, no Bronx, quando tinha que caminhar por aquele bairro perigoso. Mas eu sobrevivi.

Eu quero ler uma passagem curta sobre você, de quando você ainda era Mildred Spiewak. "Ela consegue resolver qualquer equação; ela consegue resolver qualquer problema. Mildred combina a inteligência à diversão. Em Matemática e Ciências, ela é inigualável."
Dresselhaus: De onde você tirou isso?

É do álbum escolar de 1948 da minha mãe, da Escola Secundária Hunter. Ela foi sua colega lá, mas diz que não conhecia você na época.
Dresselhaus: A Escola Secundária Hunter foi um verdadeiro momento de virada para mim. Descobri a existência dela por meio da escola de música. Ninguém que eu conhecia tinha estudado em uma dessas escolas secundárias especiais, e os meus professores não achavam que era possível estudar lá. Mas a Hunter me enviou um exame prático e estudei o que precisava saber para passar. Era uma escola excelente, com excelentes professores.

No final, você ficou conhecida como gênio da ciência e da matemática. No entanto, você não achava que seguir uma carreira científica seria possível.
Dresselhaus : Naquela época, havia apenas três tipos de trabalhos que se abriam comumente para as mulheres: ensino, enfermagem e secretariado. Fui para a Faculdade Hunter achando que seria professora do ensino fundamental.

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Mas então você conheceu Rosalyn Yalow, que viria a ganhar o Prêmio Nobel.
Dresselhaus: Eu fiz o curso de Física Nuclear Básica que ela lecionava. Era uma turma pequena, talvez de três alunos, talvez de 10. Ela era uma verdadeira líder, uma pessoa muito dominadora. Quem a conhecia a ouvia dizer: "Você deve fazer isso". Ela disse que eu deveria me concentrar na ciência. Não chegou a mencionar exatamente qual seria essa ciência, mas disse que eu deveria fazer algo na vanguarda de alguma área. Depois disso, sempre esteve presente na minha vida, escrevendo cartas de recomendação para mim, acompanhando o meu progresso. Ela morreu há apenas um ano. Eu fui a primeira oradora a falar no simpósio dedicado à memória dela.

Você estudou com outros gigantes da ciência, como Enrico Fermi.
Dresselhaus: Isso foi na Universidade de Chicago, onde fiz minha pesquisa de pós-graduação, e que na época era a melhor universidade na área de Física. O Fermi era parecido com a Rosalyn Yalow de algumas formas: ele tinha poucos alunos e se interessava por eles de um modo pessoal. Nós dois morávamos perto da universidade e acabamos caminhando juntos no início da manhã. Ele tinha um pensamento bastante perspicaz. Aprendi a pensar sobre Física com ele.

No doutorado, você pesquisou a supercondutividade, na qual a corrente elétrica flui através de um material e os elétrons não encontram quase nenhuma resistência, certo?
Dresselhaus: A supercondutividade ajudou a ampliar meu domínio profissional. Quando comecei a minha pesquisa, já se sabia que os campos magnéticos podem enfraquecer a supercondutividade. Eu descobri que a transição não era contínua, que inicialmente a supercondutividade aumentava na presença de campos magnéticos, e então diminuía de repente. Isso foi um tanto surpreendente, e por isso a minha tese de doutorado chamou um pouco de atenção.

Você e seu marido não acabaram indo para o MIT porque era a única instituição que não tinha regras contra o nepotismo?
Dresselhaus: Tanto o MIT quanto a IBM não tinham regras contra o nepotismo, e ambos nos ofereceram cargos. Quando vim para o MIT em 1960, apenas 4 por cento do corpo discente era do sexo feminino. Hoje, cerca de 40 por cento dos alunos de graduação são mulheres. No Laboratório Lincoln, havia mil homens e duas mulheres. Mas tivemos um chefe muito bom, que nos tratava de modo igualitário.

O que a inspirou a estudar o carbono?
Dresselhaus: Eu achava o carbono um material interessante e que combinava com as capacidades laboratoriais que nós tínhamos em termos de ótica magnética. Eu também gostava de estudar algo que não era muito popular. Tinha filhos pequenos na época. Se tivesse que ficar em casa para cuidar de um filho doente, não era o fim do mundo.

Todo mundo estava pesquisando semicondutores. Eles achavam que o carbono era muito difícil e que não uma área de pesquisa frutífera. Praticamente não existiam trabalhos publicados sobre o carbono quando comecei, e ele foi subindo, subindo e subindo durante toda a minha carreira.

Você preparou o terreno para pesquisas que renderam dois prêmios Nobel, pelos fulerenos, em 1996, e os nanotubos de carbono, em 2010. Você se sente um pouco menosprezada por não estar entre os vencedores?
Dresselhaus: Nem um pouco. Em ambos os casos, eles tiveram ideias que eu não tive, e fizeram um trabalho excepcional. Fui bastante reconhecida pelas minhas contribuições, além de ter sido convidada especial da cerimônia do Nobel em 2010.

Como você conseguiu conciliar uma carreira tão potente com a criação de quatro filhos?
Dresselhaus: Ter um bom marido é uma parte fundamental disso, alguém que entende o que você está tentando fazer e a incentiva. Eu também tive uma boa babá. Ela trabalhou para mim durante 29 anos.

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