Gravidade do planeta e longa duração da viagem são algumas das novas condições que uma equipe especial da agência precisa levar em conta com quase 20 anos de antecedência

Em um prédio da década de 1950 em Houston, no estado do Texas, que viu o início da era espacial, um grupo de cientistas em jalecos brancos está misturando, mexendo, fervendo e provando o resultado de seus estudos.

Sua missão: montar um cardápio para a missão da Nasa a Marte, prevista para 2030.

O menu tem que sustentar um grupo de seis a oito astronautas, mantê-los saudáveis e felizes e oferecer uma variedade grande de alimentos. Não é uma tarefa simples, considerando-se que a viagem até Marte deve levar seis meses, a tripulação ficará lá por 18 meses e depois serão mais seis meses até a volta à Terra. Imagine comprar suprimentos para três anos e planejar todas as refeições desse período com tanta antecedência.

“Marte é um desafio por ser tão longe,” diz Maya Cooper, pesquisadora sênior da Lockheed Martin, que está liderando os esforços para montar o cardápio. “Não temos a opção de mandar um veículo com mais comida a cada seis meses, como fazemos atualmente com a Estação Espacial Internacional”.

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A tripulação da Estação Espacial (na sigla em inglês, ISS) tem uma grande variedade de alimentos, quase uma centena de opções. Mas todos são pré-cozidos e congelados, com uma validade de pelo menos dois anos. E, embora os astronautas aprovem o que será servido ainda na Terra, a falta de gravidade significa que o aroma e sabor da comida são bastante prejudicados. No fim, tudo fica sem gosto.

Mas em Marte há um pouco de gravidade, o que dá espaço para algumas mudanças no cardápio. É nisso que a equipe de Maya está trabalhando. Existe a possibilidade de que os astronautas possam picar vegetais e cozinhar um pouco. E mesmo com a pressão atmosférica diferente da Terra, seria até mesmo possível ferver água.

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Outra opção seria uma “horta marciana”, com algumas frutas e vegetais cultivados em uma solução hidropônica. Os astronautas cuidariam das plantas e usariam estes ingredientes, combinados com outros trazidos da Terra, como nozes e temperos, e preparariam suas refeições eles mesmos. “É uma boa ideia porque os ajudariam a ter comida fresca e liberdade de escolha,” diz Maya.

A prioridade, no entanto, é manter a tripulação bem nutrida para manter sua saúde e desempenho durante a missão.

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Mas o cardápio também tem um importante componente psicológico, afirmou Maya, mencionando estudos que alguns alimentos em determinadas ocasiões – como peru no Natal – melhoram o humor e vão ajudar na longa viagem.

Até agora, o grupo já montou 100 receitas, todas vegetarianas porque não será possível levar carne ou laticínios a bordo – não há como conservá-los por tanto tempo e “levar uma vaca para Marte não é uma opção,” brinca Maya. Entre as opções, está uma pizza tailandesa, que não tem queijo, mas é coberta com cenoura, pimentão, cogumelos, cebolinha, amendoins e molho de tomate apimentado.

Para isso, os pesquisadores estão considerando até a possibilidade de um astronauta dedicado apenas à preparação da comida – o cozinheiro da missão.

Mas o orçamento para alimentação ainda não está claro. Existe um plano B, composto de refeições pré-preparadas, como o atual cardápio da ISS. Para isso, a validade dos alimentos terá que ser de pelo menos cinco anos. A Nasa e outras instituições estão estudando meios de viabilizar essa ideia. Mas o ideal seria combinar as duas opções.

Um dos principais obstáculos no momento são as restrições orçamentárias. O presidente americano Barack Obama cancelou uma missão conjunta com Europa para Marte em 2016, e o r esto do orçamento também foi reduzido .

No momento, são gastos um milhão de dólares anualmente na pesquisa e planejamento do cardápio para Marte – o orçamento anual geral da Nasa é de US$ 17 bilhões. Michele Perchonok, pesquisadora líder de tecnologias avançadas para alimentação da agência espacial americana, espera que quando a missão estiver mais próxima – a dez ou quinze anos antes do lançamento – o orçamento aumentará, permitindo pesquisas mais conclusivas.

De acordo com a Nasa, a missão a Marte é muito importante: será uma oportunidade única para se pesquisar desde formas de vida extraterrestres, a origem da vida na Terra e os efeitos de pouca gravidade no organismo humano. E também dará a chance de estudar sustentabilidade a longo prazo: “Como sustentamos uma tripulação, reciclando tudo, por dois anos e meio?”, pergunta Perchonok. Mas nada disso acontecerá sem comida.

(Com informações da AP)

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