Organismos marinhos ajudam cientistas na reconstituição da história da Terra

Foraminíferos, criaturas marinhas conhecidas como pedreiros da natureza,são usadas para datar rochas e indicar reviravoltas na história do planeta

The New York Times |

Ao norte de Roma, na Úmbria, uma série de antigas cidades pitorescas se aglomera no topo ou nas laterais dos sopés dos Apeninos. Construí-las aqui foi um imperativo de defesa para sucessivos ocupantes umbros, etruscos, romanos e cristãos ao longo dos milênios. Mas a localização nas encostas também serviu como uma grande vantagem para a construção de enormes prédios, muralhas e aquedutos, por causa do acesso a um número ilimitado de fontes locais de calcário.

Os turistas se apinham em lugares como Gubbio, na encosta do Monte Ingino, para admirar as suas impressionantes igrejas e palácios medievais. Mas ninguém liga muito para as pequenas criaturas que ajudaram a formar os materiais necessários para produzir tais monumentos espetaculares e longevos.

Em grande parte, o calcário é composto de carbonato de cálcio cristalizado. Parte dele vem de restos de esqueletos de criaturas bem conhecidas, como corais, mas grande parte do restante vem de organismos menos apreciados, mas verdadeiramente notáveis, chamados foraminíferos.

Os foraminíferos costumam ser chamados de "pedreiros da natureza" – e merecidamente. A maioria das 6 mil espécies desses protistas unicelulares constrói conchas ornamentais surpreendentemente complexas e bonitas para proteger o corpo.

Após a morte dos foraminíferos, as suas conchas se estabelecem em sedimentos oceânicos – e podem, eventualmente, tornar-se pedras que podem ser usadas para abrigar nosso corpo.

Embora pequenos em relação a nós, humanos, e às criaturas marinhas mais conhecidas, os foraminíferos são extremamente grandes em comparação aos outros organismos unicelulares, muitas vezes chegando a ter um terço de um milímetro, um tamanho 100 vezes maior do que o da maioria das bactérias e três vezes maior do que um óvulo humano, uma das maiores células de nosso corpo.

Leia mais:
Impacto de asteroide ainda lidera teoria sobre extinção dos dinossauros
Mudança nos oceanos pode acabar com vida marinha ainda neste século
Acidificação do oceano faz com que peixe-palhaço vire presa fácil
Oceano apresenta sintomas de grandes extinções em massa
Temperatura da água no Ártico é a mais quente em 2 mil anos

Os maiores foraminíferos podem chegar a ter alguns centímetros. Os mais impressionantes de todos, agora extintos, eram de uma espécie plana, em forma de disco, chamada nummulites (em latim, "pequenas moedas") que eram abundantes no calcário usado para construir as grandes pirâmides do Egito.

Em tempos mais recentes, os foraminíferos serviram a um propósito completamente diferente – à ciência.

Como produzem conchas que constituem bons fósseis, e por muito tempo tiveram uma presença abundante e generalizada nos oceanos, os foraminíferos, para os geólogos e paleontólogos, são particularmente valiosos para nos contar a história da Terra.

Os foraminíferos do calcário próximo a Gubbio forneceram as primeiras pistas para uma das descobertas científicas mais entusiasmantes do século passado.

Na década de 1970, o geólogo Walter Alvarez (atualmente da Universidade da Califórnia, Berkeley) foi estudar as requintadas formações calcárias em torno da cidade. Uma vez que espécies diferentes, com formas diferentes de conchas, evoluíram em momentos diferentes, os fósseis foram amplamente utilizados para datar rochas.

Alvarez estava tentando descobrir as idades das rochas no entorno de Gubbio. Ele descobriu que a camada superior das rochas do período Cretáceo continha sempre uma gama diversificada de foraminíferos fósseis de grande porte.

Mas a camada de rocha logo acima dela, que assinalava o início do período terciário tardio, não tinha a maior parte dessas espécies cretáceas, apresentando apenas algumas espécies muito menores de foraminíferos. Uma fina camada de argila, na qual não foi identificada a presença de fósseis, separava as duas camadas de rocha.

O geólogo Jan Smit, agora da Universidade VU de Amsterdã, descobriu um padrão semelhante em rochas no sul da Espanha.

O desaparecimento repentino de foraminíferos nessas camadas de rochas indica que alguma coisa aconteceu na fronteira entre os períodos Cretáceo e Terciário. O fim do período Cretáceo também coincidiu com a extinção dos dinossauros, assim como de animais marinhos antes abundantes, como os amonites.

Alvarez, Smit e seus colegas se perguntaram: o que poderia ter causado o desaparecimento de pequenos organismos cuja presença era generalizada, como os foraminíferos, assim como de criaturas muito maiores?

Como se veio a descobrir, não se tratava de algo presente na Terra, mas no espaço. Análises químicas da argila que marca a fronteira entre os dois períodos, realizadas por geólogos e colaboradores, revelou que ela continha níveis extraordinários do elemento irídio, um material raro na Terra, mas mais abundante em certos tipos de asteroides. Os cientistas propuseram a hipótese de que o irídio era proveniente de um asteroide que atingiu a Terra no final do período Cretáceo, 65 milhões de anos atrás.

Demorou um pouco para localizar onde isso aconteceu, mas a cratera gerada pelo impacto foi finalmente identificada sob a vila mexicana de Chicxulub, na península de Yucatán.

O asteroide tinha aproximadamente o tamanho do Monte Everest e viajava a cerca de 80 mil quilômetros por hora quando atingiu a Terra, perfurando uma cratera de 120 quilômetros de largura e jogando tanto material na atmosfera (e até mesmo fora dela) que cadeias alimentares na terra e nos oceanos foram interrompidas durante milhares de anos. O impacto causou uma das maiores extinções em massa da história, matando desde animais maiores até foraminíferos minúsculos.

Eventualmente, os foraminíferos e os oceanos se recuperaram, e novas espécies evoluíram.

Mas hoje, os foraminíferos estão chamando nossa atenção para uma nova ameaça, pois são não apenas testemunhas da história da Terra, mas participantes fundamentais dela.

Os foraminíferos são uma parte vital de uma "bomba biológica" que remove o dióxido de carbono da atmosfera. Quando o dióxido de carbono se dissolve na água do mar, um produto que resulta da reação é o carbonato. Ao fabricar suas conchas de carbonato de cálcio, a grande massa dos chamados foraminíferos planctônicos flutuantes nos níveis superiores dos oceanos sequestra cerca de um quarto de todo o carbonato produzido nos oceanos a cada ano.

Os níveis crescentes de dióxido de carbono na atmosfera do nosso planeta, que atualmente estão em um nível maior do que em qualquer momento dos últimos 400 mil anos, ameaçam submergir essa bomba biológica, inibindo a formação de conchas de carbonato de cálcio. À medida que mais dióxido de carbono se dissolve no oceano, as águas passam por um processo de acidificação, diminuindo a concentração de carbonato e dificultando que esses organismos formem conchas de carbonato de cálcio.

No momento, a superfície do oceano está aproximadamente um décimo de uma unidade de pH mais ácida do que estava em épocas pré-industriais. E, de fato, um recente estudo sobre foraminíferos realizado no Oceano Antártico descobriu que suas conchas são hoje 30 por cento a 35 por cento mais finas do que eram na era pré-industrial.

Como somos animais terrestres, estamos mais focados em como a mudança climática afeta o nosso habitat imediato. Mas a acidificação dos oceanos pode ser uma espécie de asteroide secreto das mudanças ambientais.

Com as taxas atuais de produção de dióxido de carbono, a acidez dos oceanos deve aumentar em mais três a quatro décimos de uma unidade de pH até o final do século, com efeitos potencialmente catastróficos sobre as criaturas que produzem conchas e sobre as cadeias alimentares.

E no período geológico atual, adivinhe quem está no topo dessas cadeias?

    Leia tudo sobre: geologiaForaminíferosTerradióxido de carbono

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG