"Prender um cineasta é intolerável", diz Kiarostami

Notícia não-oficial sobre greve de fome de Jafar Panahi provoca lágrimas na atriz Juliette Binoche

Mariane Morisawa, enviada especial a Cannes |

EFE
Juliette Binoche: lágrimas pelo cineasta Jafar Pahani, preso há dois meses no Irã
O assunto da prisão do diretor iraniano Jafar Panahi, encarcerado desde 2 de março pelo governo de Mahmoud Amahdinejad, dominou o início da coletiva de imprensa de Copie Conforme , de seu compatriota e amigo Abbas Kiarostami. O cineasta começou a entrevista com uma mensagem: “Não tenho dúvidas de que todos estamos aqui por causa do filme. Mas quero falar de outro assunto que não pode ficar sem comentário. Obviamente, estou falando de Jafar Panahi. Um cineasta ser preso é intolerável. Acredito que ninguém pode ficar indiferente em relação à situação nem pode abandonar a esperança. Quando um artista é preso, a arte está sendo atacada. Precisamos de explicações. Não posso entender como um filme pode ser considerado crime, principalmente se ele nem foi feito ainda”.

Ele contou ter recebido uma mensagem da mulher de Panahi, poucos minutos antes da coletiva, pedindo que ele ligasse para Teerã. “Espero que sejam boas notícias”, afirmou. No meio da entrevista, no entanto, uma jornalista disse que havia a informação de que Panahi tinha começado uma greve de fome, o que provocou o choro de Juliette Binoche.

Kiarostami disse que reagiu assim que foi anunciada a prisão do amigo – era uma espécie de resposta às críticas de que não teria se manifestado. Ele entregou cópias de sua carta aberta, escrita no início de março, condenando a prisão de Jafar Panahi.

O diretor afirmou que faz cinema há mais de 40 anos e sempre teve de conviver com a censura. “Até agora nunca tive medo, mas claro que o medo não depende de sua vontade”, disse. “Mas a prisão de Jafar Panahi é um sinal de que as coisas foram elevadas a novo patamar. Pode ser que a mobilização mundial em torno de sua prisão leve a algum resultado. Mas no Irã de hoje não é possível saber.”

AFP
Antes da coletiva, o diretor Abbas Kiarostami, Juliette Binoche e o ator William Shimell posam para fotógrafos
Partindo para o filme, Kiarostami afirmou que, se há uma ideia desenvolvida pelo filme, é a de que “o valor da obra e do ser humano depende da forma como você olha. Dependendo do jeito de olhar, o objeto pode ser muito mais original do que parece”. O diretor disse que “o relacionamento amoroso é o único campo em que a experiência não conta para nada, você não aprende nada com o tempo”.

Juliette Binoche disse que, quando foi convidada pelo diretor a ir a Teerã, não imaginou que fosse fazer um filme. “Ele gosta de natureza, não usa atrizes. Mas aproveitei para descobrir mais sobre o cinema iraniano, sobre as mulheres”, disse. “Fiquei muito animada com a forma como ele filma mulheres, é o oposto do que seu país diz sobre elas.” O diretor contou que ficou surpreso quando ela expressou o desejo de trabalhar com ele. “Perguntaram se ela queria trabalhar em Hollywood, e ela disse: ‘Não, quero trabalhar com Abbas Kiarostami’”, disse.

Ele se lembra que a encontrou e contou a história do filme. “Eu vi a expressão em seu rosto, é a mesma expressão que você vê no filme. Quis eternizar essa expressão, então desenvolvi a história. Engraçado que contei a história no meu inglês péssimo, e foi a última vez que ela entendeu meu inglês”, disse, provocando risos.

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