Crítica internacional se limita a elogiar beleza de "Na Estrada"

Adjetivos como "respeitável", "bonito" e "atmosférico" convivem com outros como "desbotado", "tedioso" e "sem alma"

Mariane Morisawa, enviada especial a Cannes |

Quem já veio ao Festival de Cannes sabe que aplausos (ou falta de) na sessão de imprensa significam pouco – muitas vezes, os jornalistas estão cansados ou simplesmente o filme não lhes despertou tamanha empolgação. Mas, depois da exibição para os jornalistas, dá para saber o que os críticos do mundo todo acharam de “Na Estrada” , coprodução entre Brasil e França falada em inglês dirigida pelo brasileiro Walter Salles.

Walter Salles ao iG: "Kerouac mostrava que é preciso viver à flor da pele"

Manohla Dargis, do jornal americano The New York Times, abre o texto chamando o filme de “respeitável e desbotado”. Mais adiante, apesar de chamar o diretor de “inteligente”, diz que ele não coloca a selvageria necessária para uma adaptação do livro de Jack Kerouac no estilo visual, na narrativa e nos protagonistas.

Richard Dumas, do jornal francês Le Monde, relembra os percalços que o livro de Jack Kerouac enfrentou para ser adaptado e que o filme do cineasta brasileiro desvenda novamente "as cores vivas, as emoções agudas e a descoberta estonteante de uma forma de viver que implodiu – pelo menos por um tempo – o american way of life". Não faltaram elogios para Salles: "O elenco impecável e o roteiro de uma inteligência que frustra as armadilhas da adaptação não são nada sem a mão do diretor. (...) Walter Salles reabriu por inteiro a estrada das origens."

Justin Chang, da revista de mercado Variety, chama o trabalho de “bonito” e “feito com talento”. Ele escreve que “o filme de Walter Salles pulsa com energia jovem, mas dá a impressão de ser calculado demais em sua busca pela espontaneidade, atestando a dificuldade e talvez futilidade de tentar reproduzir a luz literária de Kerouac na tela”.

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Todd McCarthy, da revista The Hollywood Reporter, resume: “Uma adaptação bonita e respeitosa do romance fundamental de Jack Kerouac que de vez em quando decola”. Mais adiante, ele escreve: “Enquanto o impacto dramático do filme é variável, visualmente e climaticamente é um prazer constante”.

AP
Sam Riley e Kristen Stewart, protagonistas de "Na Estrada", em sessão de fotos em Cannes
Peter Bradshaw, do jornal progressista inglês The Guardian, deu duas estrelas para o longa-metragem. Para o crítico, “Walter Salles trouxe a Cannes um filme belo, mas sem direção e encantado demais consigo mesmo”. Conservador, o jornal inglês The Daily Telegraph também usou a cotação duas estrelas. Segundo Robbie Collin, o filme tem um elenco bonito e cores solares, “mas rapidamente se contenta em um ritmo repetitivo tedioso de Sal Paradise (Sam Riley) experimentando algum tipo de farra beatnik com os companheiros de viagem Dean Moriarty (Garrett Hedlund) e Marylou (Kristen Stewart), antes de se retirar para um canto sombrio e escrever loucamente num caderno”.

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Lee Marshall, da revista inglesa Screen International, escreve: “Apesar de ter um bom elenco, ser rodado de maneira resplandecente e embalado por uma trilha de jazz atmosférica, ‘Na Estrada’ não consegue ‘queimar, queimar, queimar como as fabulosas velas amarelas romanas’, para citar uma das passagens mais famosas do livro”. Mais adiante, o crítico diz que “em alguns momentos a produção capta algo do espírito bebop da época, mas na maior parte do tempo parece uma apostila sobre o movimento beat”. Apesar disso, a publicação considera “Na Estrada” comercialmente inteligente, pois vai atrair tanto espectadores mais velhos quanto os mais jovens.

Veja fotos e cartazes de "Na Estrada - On the Road"

Na resenha intitulada “Adaptação sem alma de ‘Na Estrada’”, Carlos Boyero, do jornal espanhol El País, publica: “Walter Salles realizou um filme frio e rotineiro com um material que estava em carne viva”. Para ele, “que os cenários, a atmosfera, o número de locações, a época e a música estejam bem cuidadas não serve para capturar a alma dessa gente complexa”.

Luis Martínez, do também espanhol El Mundo, descreve o filme como “desastre total”. “O pior não é a absoluta falta de intenção, nem o coma narrativo do longa, nem a imperícia de alguns atores que confundem atuar com agitar-se, nem as duas horas compridas de nada. Todos esses elementos, bem tratados, podem dar num belo tratado existencial sobre o vazio”, escreve. Falando da declarada dificuldade de fazer uma versão cinematográfica do romance episódico de Jack Kerouac, ele continua: “Partamos do princípio que não há livro difícil de adaptar, há cineastas sem ideias”.

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