Jacques Audiard conta história de amor vigorosa e diferente

Um ano após ganhar Grande Prêmio do Juri, cineasta francês volta a Cannes com "De Rouille et d'Os"

Mariane Morisawa, enviada especial a Cannes |

Getty Images
A atriz Marion Cotillard em Cannes
Depois de levar o Grande Prêmio do Júri em 2011 por “O Profeta”, a história do nascimento de um chefe do crime, Jacques Audiard volta ao Festival de Cannes com uma história de amor. Terceiro filme em competição na 65a edição, “De Rouille et d’Os” (“Ferrugem e Osso”, na tradução literal), exibido na manhã desta quinta-feira (17) em sessão de imprensa, é uma história de amor cheia de vigor e violência, mas também delicadeza.

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Ali (Matthias Schoenaerts) sai do norte da França em direção à Riviera com seu filho de cinco anos, Sam (Armand Verdure). Ele tirou o menino da mãe, que o usava para transportar drogas, mas, na verdade, tem pouca conexão com o garoto. Para se virar, arruma emprego como segurança de boate, onde conhece Stephanie (Marion Cotillard) numa noite em que ela é atacada por um dos clientes.

Pouco depois, a treinadora de orcas num parque aquático sofre um acidente no trabalho que a deixa sem pernas. Os dois acabam se reaproximando para uma relação pouco convencional. Stephanie está ferida pela perda de sua vida como era. Ali é incapaz de expressar sentimentos ou palavras, usando apenas o físico e a violência, como os animais com que Stephanie costumava lidar.

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Nas mãos de um diretor menos capaz, tinha tudo para virar um grande dramalhão, mas Audiard desenvolve os personagens com carinho, cola a câmera na pele e corta no exato momento em que tudo poderia descambar. E ainda conta com atuações fortes de seus protagonistas, primeiros candidatos aos prêmios de interpretação. Essa história de amor diferente é uma espécie de desculpa para falar da crise e dos problemas sociais na Europa hoje. Pode não ter a mesma força de “O Profeta”, mas é um grande filme.

Divulgação
Cena de "De Rouille et d'Os"
Na entrevista coletiva que se seguiu à projeção, o cineasta disse que, depois de “O Profeta”, um filme masculino, numa prisão, sem muita luz, estava com vontade de “retratar uma história de amor cheia de luz e espaço, uma história de amor em tempos de crise”.

Para Marion Cotillard, apesar de algumas circunstâncias da trama, esses dois personagens não estão distantes das pessoas comuns. “Tenho a impressão de que é a realidade de muitas pessoas. Todos temos dificuldades na vida, instinto de sobrevivência e procuramos a felicidade. Se você tem a força para buscá-la, tem como superar as dificuldades.”

Para interpretar uma pessoa sem pernas, segundo a atriz, bastou usar a imaginação. “Nem sei se posso explicar. Tive de imaginar ter essas pernas mecânicas, é preciso encarnar o personagem.” Porém ela admitiu ter ficado assustada ao ler o roteiro pela primeira vez. “Em geral, quando leio um roteiro e me emociono, sinto que imediatamente entendo o personagem, pelo menos parcialmente. Com Stephanie, eu cheguei ao final e não sabia quem ela era. Falei para Jacques que estava com medo. E ele disse: ‘Também não sei quem ela é, esse é o objetivo’.”

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O belga Matthias Schoenaerts, que fez “Bullhead”, indicado ao Oscar de filme estrangeiro deste ano, disse que ficou intimidado. “Na primeira vez que a vi no set, Marion parecia deprimida na cadeira de rodas. Pensei: ‘Ai, não vai funcionar’. Não me toquei que ela já estava no mundo da Stephanie.”

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