Estrangeiros que trabalham no Rio elogiam a rotina à beira-mar e o relacionamento mais descontraído entre funcionários nos escritórios

O americano Eric Scott sobre a vida no Rio:
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O americano Eric Scott sobre a vida no Rio: "Feijoada não tem nada demais. Mas a caipirinha..."
“Quando vier ao Rio, use bermuda e camiseta para tudo, em qualquer lugar. Menos para almoçar no Cipriani”, recomendou Eric Scott a seu pai que saiu de Nova York (EUA) para visitá-lo no Brasil há alguns meses, referindo-se ao estrelado restaurante do Hotel Copacabana Palace. Há pouco mais de dois anos na cidade, Eric, um nova-iorquino de 54 anos, louro, com cara e bochechas rosadas de gringo, já incorporou o jeitinho carioca. “Até aprendi a ser mais agressivo no trânsito”, diverte-se ao relatar sua rotina na cidade.

Dos 26.500 estrangeiros autorizados pelo Ministério do Trabalho e Emprego a trabalhar no Brasil neste ano, 11.300 foram parar no Rio de Janeiro. A cidade lidera, por dois anos consecutivos, a lista de destino desses trabalhadores. As indústrias naval e de petróleo têm sido responsáveis pelo maior número de imigrações ( 7.103 de janeiro até agora, segundo a Coordenação Geral de Imigração do governo federal ).

Eric é gerente de operações dos cargueiros da Gearbulk nos serviços prestados para o Brasil, Uruguai e Argentina. Tem gostado tanto do serviço, que pensa em ficar. “Pretendo passar um bom tempo no Rio de Janeiro. Para o brasileiro, ‘life is good ’, as pessoas aqui têm problemas, mas parecem não se abalar por isso”, avalia. “Tem também a caipirinha. No Rio, tudo é caro: aluguel, serviços e transporte. Só a caipirinha na praia é barato. E isso é bom”, empolga-se.

Scott mora em Ipanema, assim como o norueguês Halvard Idland, de 36 anos, e o francês Laurent Moulin, de 41 anos, que também vieram para o Rio de Janeiro a trabalho. Idland, economista, foi convidado há cinco anos para representar um estaleiro norueguês que conquistou DNA verde e amarelo ao abrir filial na capital carioca. Na sequência, recebeu outro convite mais atraente e agora está em seu terceiro emprego, em uma empresa brasileira - ele ressalta - que atua no mercado financeiro.

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Halvard está há cinco anos no Rio, mas torce pelo Corinthians.
Flavia Salme / iG
Halvard está há cinco anos no Rio, mas torce pelo Corinthians. "O primeiro lugar que morei no Brasil foi São Paulo"
“Gosto do dia a dia no Rio de Janeiro. Depois do trabalho, chego em casa e percebo que vivo onde o resto do mundo tira férias”, deleita-se. “Saio para ir à praia e sempre encontro um conhecido, não preciso marcar nada. Isso é fantástico”, continua em ótimo português.

Moulin, um geólogo nascido na cidade de Montpellier, no sul da França, também é só alegria ao descrever a vida entre os cariocas. “Há 10 anos eu visito este País, ouvi até dizer que há uma iniciativa entre governos para declarar o Rio e Montpellier cidades gêmeas. Adoro. Me apaixonei por uma brasileira e, na sequência, tive a sorte de conseguir um emprego aqui. Estou feliz”, conta ele, que vive há dois meses no Rio e impressiona com o vocabulário próximo do correto, "aprendido nas praias, nas ondas e nas ruas".

“Gosto muito do ambiente de trabalho. O colega te chama para tomar um chope no fim do expediente ou para fumar um cigarro durante um intervalo”, relata ao lado do geólogo Fabiano Couto, com quem trabalha para a petrolífera franco-britânica Perenco. “Nos lugares em que trabalhei antes não tinha isso, era clima de competição acirrada”, relata.

Violência não incomoda tanto; corrupção, sim

Antes de se mudar para o Brasil, o gerente de operações Eric Scott foi recomendado por amigos e familiares: “’ Don’t go out! Don’t go to the beach! Don’t go anywhere! ’ Quando cheguei aqui, percebi que era um exagero. Mas, claro, não ando com relógio, minha mulher não usa joias e não caminhamos na beira do mar à noite. Mas é por precaução”, diz intercalando frases em português e em inglês.

“Só vejo violência no Rio pela TV, comigo nunca aconteceu nada”, garante o francês Laurent Moulin. “Pelo contrário, certa vez fui chamado à atenção por um policial e ele foi muito educado comigo. Nunca fui extorquido ou assaltado”, assegura.

“No dia a dia, a violência não me afeta. Mas eu gostaria de andar mais tranquilamente, sem ter medo de cair no lugar errado. Queria, por exemplo, caminhar por uma das florestas da cidade e ter medo de cobra, e não de ser assaltado”, conta o norueguês Idland. "De toda forma, considero que o nível de violência aqui no Rio de Janeiro não e aceitável do jeito nenhum".

Em comum, os três criticaram a violência mas apontaram a corrupção como o maior problema do País. “Já morei em Nova York, na Noruega, em Londres... Corrupção existe em qualquer lugar, mas nada me parece tão gritante, tão amplo, quanto no Brasil. A burocracia facilita isso. No trabalho eu preciso chamar os advogados da empresa para tudo”, reclama Scott.

“Acho ruim perceber que de um lado do Túnel Rebouças a realidade é mais difícil que do outro lado. São dois mundos à parte, essa discrepância social não me agrada”, lamenta Idland, referindo-se ao principal túnel que liga a zona sul à zona norte da capital carioca. “Acho que está melhorando. Mundo afora, ainda há aquela história de o rico ficar mais rico e o pobre, mais pobre. Mas aqui no Brasil, o pobre agora esta ganhando melhor e a distância entre rico e pobre está diminuindo”, opina.

Laurent diz que convivência nos escritórios brasileiros é mais tranquila.
Flávia Salme/iG
Laurent diz que convivência nos escritórios brasileiros é mais tranquila. "O colega de trabalho te chama para tomar chope", diz ao lado do geólogo Fabiano Couto
“Percebo que ainda há um capitalismo agressivo, selvagem mesmo. A diferença social é grande, a pobreza é um problema muito grande e a corrupção tem parte nisso”, diz Moulin. “Na França há pobres, pessoas que pedem dinheiro nas ruas, mas o serviço social cuida delas, ninguém dorme ao relento como aqui”.

Feijão com arroz

Para Idland, Scott e Moulin a adaptação ao clima quente do Rio e à comida carioca não foi problema. Já do trânsito, todos reclamam: “Na França, primeiro vem o pedestre e, em seguida, o ciclista. O motorista de ônibus tem que zelar por eles. Aqui no Rio, não. O pedestre e os demais motoristas têm que parar para o ônibus passar. Isso é estranho, tenho a impressão de que se o pedestre não se cuidar muito o ônibus vai passar por cima”, pontua Laurent.

Com exceção de Scott, para quem a “feijoada não tem nada demais”, Idland e Moulin renderam-se ao feijão com arroz. O reinado absoluto, no entanto, é da caipirinha. “Não recuso”, diz Idland, que já adquiriu sotaque e gírias cariocas. “Pô, cara”, inicia uma resposta, “Tenho hábitos cariocas, jogo futevôlei na praia, faço exercícios ao ar livre. Mas torço para o Corinthians”, ressalva, lembrando que sua entrada no Brasil foi por São Paulo, onde morou inicialmente por oito meses a fim de estudar na Fundação Getúlio Vargas.

“O Rio é feliz. As pessoas são abertas, te recebem bem. Pensava em abrir uma pousada na praia, mas acabei em um escritório. Não tem problema. De casa até o trabalho tem a praia no meio, isso é maravilhoso”, concluiu Moulin.


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