'Pai' da Cracolândia tenta botar ordem no caos

Com experiência de quem viveu 20 anos sob o rígido código dos presidiários, Ronaldo avocou para si a missão de tentar disciplinar a Cracolândia

Ricardo Galhardo, iG São Paulo |

Frâncio de Holanda
O pai da Cracolândia
“Isso aqui é um lugar tão esquecido que nem o PCC vem para cá”, disse o pernambucano Ronaldo da Silva, 53 anos, enquanto lançava um olhar abrangente sobre a esquina das ruas Helvétia e Barão de Piracicaba, na Cracolândia. “Aqui eu sou a disciplina”.

Mestre de obras aposentado, ex-presidiário sobrevivente do massacre do Carandiru, Ronaldo é conhecido pelo nome de batismo por pouca gente. Na Cracolândia, ele é chamado de Pai.

“Pai, quer comprar?”, ofereceu um rapaz der aproximadamente 20 anos, mostrando várias pedras de crack na mão.

“Pai, tem pedra?”, perguntou outro.

“Pai, desculpa por aquele dia. Eu tinha tomado muita cachaça”, explica uma moça.

Com experiência de quem viveu 20 anos sob o rígido código moral dos presidiários, Ronaldo avocou para si a missão de tentar estabelecer um mínimo de ordem no caos da Cracolândia.

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Do alto da autoridade e respeito conquistados ao longo de quatro anos ele distribuiu afagos e reprimendas, arbitra disputas por drogas ou dinheiro, aconselha em casos de desavenças conjugais, orienta os demais usuários sobre direitos frente à truculência policial e também sobre os riscos do roubo e do tráfico, estimula a solidariedade, exerce a política da boa vizinhança com moradores e comerciantes, encaminha pedidos de empregos e internações.

“Já tirei um monte de gente deste lugar. Tem uns meninos e meninas que não tem nada a ver com a droga e acabam aqui por equívoco ou por brigas familiares”, explicou. “Agora, se neguinho folgar, meto a mão na cara de qualquer um”.

“Ele é o nosso pai. É o único que debate. É um conselheiro”, resumiu Jailton Mota Santos, companheiro de Ronaldo desde os primórdios da Cracolândia.

Como qualquer pai de família, ele tenta acumular respeito por meio do exemplo. Todas as manhãs pega um vassourão deixado por garis da prefeitura e varre as calçadas da rua Helvétia. Além disso, Ronaldo ganhou a confiança dos colegas em vários enfrentamentos com as autoridades, alguns deles com consequências dolorosas.

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“Esse aí é meu pai pelo jeito de proceder e pelo carinho. Fui eu que cuidei quando os guardas quase acabaram com a vida dele”, diz Mauro Sandro Tavares da Silva. Chapéu de camurça, óculos escuros modelo Porche Carrera, bandeira do Corinthians amarrada sobre as costas, Ronaldo atravessa a Cracolândia brandindo um martelo.

“Este martelo é uma arma?”, perguntou ele ao repórter. Pode ser. “Pois para mim é só uma ferramenta de trabalho. Acabei de ganhar um troco instalando uma porta numa pensão. Mas se a polícia aparecer vai levar o martelo, minha ferramenta de trabalho, achando que é uma arma”, explicou.

Apesar do respeito, Ronaldo está ciente dos riscos da vida que escolheu. “Pode ser que na madrugada alguém apareça aqui, me dê um enquadro, me leve daqui e acabe com a minha vida”.

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