‘Eu esperava o prédio desabar e morrer no concreto’, diz sobrevivente do Andraus

Tragédia que matou 16 pessoas e deixou mais de 330 feridas completa 40 anos nesta sexta-feira. Veja imagens do dia do incêndio e de hoje do edifício

Daniel Torres, iG São Paulo |

Assim como fazia todos os dias, o funcionário da área administrativa da antiga companhia de seguros Novo Mundo Walter Sperandio havia começado a trabalhar às 8h daquela quinta-feira. Entre reuniões, o dia transcorria normalmente no escritório do oitavo andar do prédio de mais de 30 pavimentos na rua Pedro Américo, número 32, esquina com a avenida São João, no centro de São Paulo. Mas no meio da tarde, daquele 24 de fevereiro de 1972, a queda de energia repentina sentida apenas nos andares mais baixos era o início da mudança da rotina dos cerca de 2.000 frequentadores dos quase 500 escritórios e salas comerciais do edifício em que Walter trabalhava há pouco mais de 1 ano, o Andraus.

Do dia que é lembrado com uma das maiores tragédias da história de São Paulo, Walter é um de seus sobreviventes. Dez anos após ser construído, o edifício Andraus foi consumido pelo fogo no maior incêndio em um prédio na América Latina até aquele dia. Dezesseis pessoas morreram e pelo menos 330 ficaram feridas. Quarenta anos depois, as lembranças tristes da tragédia ainda se misturam com as de heroísmo.

Veja outras imagens históricas de antes e depois de São Paulo

"Ninguém tinha ideia do que era um incêndio como aquele. Ficamos presos esperando tudo cair ou explodir. Eu esperava o prédio desabar e morrer no concreto. Porque a gente ouvia muito barulho de explosão. A cada explosão, a gente sentia tremer o prédio", relembra Walter.

Até hoje, a causa do incêndio foi pouco esclarecida. Os indícios apontam para uma sobrecarga no sistema elétrico nos primeiros andares. O fogo começou no segundo andar do prédio e consumiu todo o edifício, que reunia diversos escritórios empresariais, além da famosa loja de departamento da época “'Casas Pirani". Outros cinco edifícios vizinhos também foram afetados pelas chamas.

Os sobreviventes foram resgatados ou pelo terraço, do heliponto, por pilotos de helicópteros particulares e civis, já que os bombeiros e a polícia ainda não contavam com esses equipamentos, ou pelo meio do prédio, onde foi feita uma ponte improvisada até outro prédio.

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Só o heroísmo dos diversos pilotos civis que dirigiram suas aeronaves para o heliponto do edifício, sem nenhum treinamento de técnica de resgate em uma situação tão delicada, deve ter salvado mais de 500 pessoas. Os bombeiros que trabalhavaram naquele dia também são constantemente lembrados, já que resgataram outras centenas de pessoas, como aconteceu no caso de Walter, com equipamentos totalmente obsoletos.

A ideia de escapar ou de se refugiar no heliponto também passou pela cabeça do funcionário da empresa de seguros desde o início do incêndio, mas assim como boa parte dos funcionários que trabalhavam no prédio, ele não conseguiu chegar até lá.

"Eu estava em uma sessão do lado da minha e comecei a ouvir uns barulhos de vidro quebrando, uma gritaria. Quando eu voltei para a minha sessão vi que já tinha fumaça concentrada no teto. Eu corri para a janela do oitavo andar e olhei para baixo. As labaredas atravessam a avenida São João. Olhava pra baixo e só via fogo. Foi quando a gente pensou em ir para o heliponto. A nossa ideia era simples: subir para o heliponto, esperar o bombeiro apagar o fogo e descer. Quando a gente chegou lá em cima encontramos a porta travada. Quem já tinha subido para o heliponto trancou a porta do terraço. Assim, ficamos fechados e prensados. Todos continuavam a subir e a gente não tinha para onde ir. A nossa sorte é que o vento vinha do sentido da República (praça) para a São João (avenida), então as labaredas que saiam lá de baixo iam em direção a avenida e não voltavam para o prédio pela janelas. Se não fosse assim, o vento traria as labaredas de volta e queimaria todo mundo na escada", afirma o sobrevivente.

Foram cerca de 4 horas de espera pelo resgate. A noite tinha chegado e a angustia, o calor e a fumaça eram complicadores para as centenas de pessoas que ainda precisavam ser resgatadas. "Ficamos por muito tempo fechados na escada e com muita fumaça. Já era noite. Dava para ver o reflexo do prédio todo queimado nos prédios vizinhos. Mas em momento algum eu pensei em me jogar ou algo assim. Porque teve gente que perdeu a noção do que fazer no momento como aquele. O nosso copeiro tentou descer daquela altura por uma mangueira de incêndio. Do terraço, a gente soube que teve gente tentando descer pelo cabo do para-raios e caindo.”

Segundo Walter, que na época do incêndio tinha apenas 22 anos, o alívio da esperança do resgate veio quando avistaram a movimentação dos bombeiros na altura do 14º andar. "As pessoas estavam todas desorientadas. Ficavam todos falando que a gente ia morrer. Eu chorava, rezava. Mas lá de cima a gente começou a ver os bombeiros. Eles fizeram uma ponte com duas escadas pelo prédio vizinho. Aí eu chamei as pessoas para irmos pra lá e quando chegamos tinha muita gente aglomerada. Foi bem difícil porque ficávamos pressionados por um monte gente e foi o sufoco maior. Se a estrutura da janela se rompesse caia tudo mundo”, afirma.

A tragédia do Andraus, junto com outra ocorrida dois anos depois e bem mais fatal – o incêndio do edifício Joelma matou mais de 180 pessoas – foi marco para a evolução do Corpo de Bombeiros na capital paulista, já riscada por arranha-céus, e dos órgãos de fiscalização de prédios da prefeitura. O Departamento de Controle de Uso de Imóveis (Contru), que até hoje atua na prevenção e fiscalização de instalações e sistemas de segurança de edificações do município de São Paulo, foi criado nesta época.

Veja abaixo outras imagens do prédio na atualidade:

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