Sem água, população da zona sul recorre a poços desativados

Por Maria Fernanda Ziegler - iG São Paulo | - Atualizada às

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Abastecidos pela Guarapiranga e com falta de água, moradores reativam poços usados nos anos 1990, antes da água encanada

Sebastião de Souza tem uma riqueza no quintal de casa, e está todo prosa. Em tempos de seca e de crise no abastecimento de água, o antigo poço, há anos tampado por pedra e placas de madeira, voltou a ter valor. A água proveniente do lençol freático é retirada com um baldinho preso a fios. “Olha só, é geladinha e transparente. Não tem gosto”, diz o morador do Jardim Maracá, bairro localizado no extrema zona Sul da cidade de São Paulo.

Poço foi inutilizado nos anos 1990. Foto: Maria Fernanda Ziegler/iGPor conta da falta de água encanada em alguns períodos da semana, família resolveu reabrir poço. Foto: Maria Fernanda Ziegler/iGÁgua agora está sendo usada quando falta abastecimento. Foto: Maria Fernanda Ziegler / iGÁgua que sai do poço é inodora e incolor, mas não se sabe se é potável. Foto: Maria Fernanda Ziegler/iGO antigo motor que bombeava a água já não existe mais. Para retirá-la é preciso usar balde e cabos. Foto: Maria Fernanda Ziegler/iGJuarez Sanches, de 24 anos, experimenta a água. Foto: Maria Fernanda Ziegler/iGO mesmo faz Sebastião Sousa, pai de Juarez. Foto: Maria Fernanda Ziegler/iG

O poço é remanescente do bairro. Juarez Sanches, de 24 anos e filho de Sebastião, conta que em 1998, com a chegada a água encanada na região do Capão Redondo, técnicos passaram nas casas pedindo para que os poços fossem aterrados. A última análise da água, realizada pela Cetesb ainda nos anos 1990, dizia que a água era potável.

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De lá para cá, muita coisa mudou. Novas casas foram construídas e a família avalia se deve usar a água do poço. Juarez evita beber a água. “Vou experimentar só um pouquinho, mas sei lá se ela é potável ainda, né?”, diz e dá um gole mirrado. A esposa de Sebastião, Claudinei Sanches diz que nunca vai beber. ”Nem sei de onde vem isso aí. Está há tanto tempo fechado”, disse.

Embora pareça uma riqueza, o receio da família de Sebastião em beber a água faz todo o sentido. Poços antigos, mesmo que no passado tenham sido classificados como de água potável, podem com o tempo e a urbanização terem sido contaminados por esgoto.

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“A água proveniente do lençol freático é água recarregada da chuva, se tiver sujeira ou contaminação no solo vai para esta água também. Fora isso, se houver esgoto perto ocorre a contaminação. A distância ideal depende do solo”, explica o , engenheiro hídrico e professor da Universidade Mackenzie, Antonio Eduardo Giansante.

Além do Cantareira

A falta de água nessa região da cidade mostra que o desabastecimento não atinge apenas quem tem a casa abastecida pelo Cantareira. Por ali, a água é proveniente da Guarapiranga, que teoricamente ainda funciona dentro da normalidade.

Na prática, no entanto, a água já não sai mais pelas torneiras da casa de seu Sebastião como antes. Dia sim e dia não por volta das sete da noite a água acaba. A caixa d’água da casa da família é de 250 litros apenas. "Ligo para a Sabesp para reclamar, mas recebo a resposta de que não há problema de abastecimento”, conta Juarez.

A dona de casa Marinalva da Silva, de 53 anos, mora há 50 na casa ao lado da família de Juarez. O terreno também tinha um poço, mas foi aterrado. A caixa d’água da casa dela tem mil litros, por isso ela ainda não sofreu com a falta de água. "Mas estou economizando bastante e reutilizando água da máquina para limpar a calçada e o quintal”, conta. 

“Ah, se arrependimento matasse”, diz o metalúrgico aposentado Antônio Paranhos, 64 anos e morador da mesma rua. “Tinham bomba e tudo para retirar água do poço da minha casa, mas ele foi aterrado quando chegou a água encanada. Agora pelo que parece vai acabar, né?”. Na casa de Paranhos, também não faltou água. A caixa d’água é de mil litros e em baixo da lavanderia recém-construída está o poço aterrado.

A procura por água proveniente do lençol freático não se restringe apenas àqueles que mantiveram a estrutura em seus terrenos. Tanto que a empresa São Paulo Poços informa em seu site que por conta da demanda de solicitação por perfuração só fará orçamentos de novos trabalhos em janeiro de 2015. A empresa só trabalha com poços a partir de 100 metros de profundidade (muito maior que o da família de Sebastião).

O Estado de São Paulo enfrenta uma crise hídrica por conta da seca que atinge os reservatórios, principalmente o da Cantareira, que abastece grande parte da capital e regiões populosas como Guarulhos e Campinas.

A assessoria de imprensa da Sabesp afirma que é preciso averiguar se a falta d'água na casa de Sebastião é falha no abastecimento ou um problema pontual. 

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