Marsilac, o bairro esquecido de São Paulo

Por Wanderley Preite Sobrinho |

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Como no interior, as galinhas ciscam e o comércio abre tarde. Rodeados por Mata Atlântica, as crianças brincam e jovens reclamam: falta ônibus e internet a 60 Km da Praça da Sé

O relógio apontava meio-dia quando o repórter do iG desceu do ônibus e colocou os pés em Marsilac, extremo sul de São Paulo. O canto de um galo, um grupo de crianças brincando de bola e as três horas de viagem não deixavam dúvidas de que se tratava do último bairro de São Paulo, mais próximo do litoral que da Praça da Sé. Enquanto os cachorros se espreguiçavam na rua principal e alguns comerciantes iniciavam o expediente, um burburinho agitava a única praça do bairro: o trem de carga estacionara mais uma vez e não tinha previsão de partir, dividindo em dois o bairro de 8 mil habitantes.

O trem que causava irritação é o que passa na mesma linha férrea responsável pela formação do distrito em 1935. Em frente a uma das 120 composições carregadas de grãos, uma mulher que voltava do mercadinho aguardava pacientemente a partida do trem. Por sorte, ele não levou dois dias para se mover como acontecera na semana anterior, e em alguns minutos a aposentada Júlia Maria (61) pôde cruzar a linha e chegar em sua casa, construída no meio de um terreno de terra batida e com a Mata Atlântica de quintal.

Veja imagens do bairro:

Uma linha de trem corta o bairro. Na semana passada, as composições permaneceram dois dias paradas, dividindo o bairro. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGCerca de 8 mil habitantes.moram no bairro. Imagem do centro de Marsilac. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGMoradores reclamam que o esgoto não é tratado e que o Samu demora horas para chegar. Foto: Wanderley Preite, iG São PauloJovens reclamam da falta de internet no bairro. O campo de futebol é o único lugar com sinal de celular. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGNa casa de dona Janete moram oito pessoas. Foto: Wanderley Preite, iG São PauloDona Janete e o filho mais velho. Foto: Wanderley Preite, iG São PauloCasa na beira da ferrovia. Foto: Wanderley Preite, iG São PauloO filho mais velho de Janete. Foto: Wanderley Preite, iG São PauloMaria Lucia Cirillo, vendedora. Foto: Wanderley Preite, iG São PauloManuel Tertuliano, 62, o ativista. Foto: Wanderley Preite, iG São PauloOs fundos do pesqueiro. Foto: Wanderley Preite, iG São PauloPesqueiro em Marsilac. Foto: Wanderley Preite, iG São PauloVaral com roupas em Marsilac. Foto: Wanderley Preite, iG São PauloVendedoras no Caminho para Marsilac. Foto: Wanderley Preite, iG São Paulo

A primeira parada foi na casa vizinha, de 13 moradores, onde duas adolescentes cuidavam de dois bebês. A mãe, que se aprontava dentro da casa de madeira, preferiu não sair. “Eu não tenho vontade de mudar porque aqui tem cachoeira (a uma hora a pé) e muito espaço”, disse Thalia Pedra da Silva, 16 anos. “Eu sinto falta do Facebook”, admitiu a irmã Thainá Alves Ferreira, de 13. “Só consigo usar quando vou à ONG.”

Marsilac não tem sinal de internet. Para usar a web, é preciso ir à base da Polícia Militar ou à UBS (Unidade Básica de Saúde). Mais grave: também falta sinal de celular. Quando a ligação é urgente, o morador corre para o campinho de futebol, ponto mais alto do distrito e único lugar com sinal. A alternativa é torcer para que os poucos orelhões do lugar funcionem, o que é raro.

Embora lamente a falta dessas tecnologias, a catadora Janete Aparecida Elias, de 50 anos, nem pensa em deixar o bairro por causa disso. Mãe de três filhos, ela exalta os baixos índices de violência, embora seu marido esteja no hospital depois de ter sido espancado por um grupo em condições que ela prefere não comentar. “Eu já morei em lugar urbanizado e nunca me senti segura em deixar meus filhos sozinhos. Aqui não vejo problema”, assegura ela, que ganha R$ 200 por mês recolhendo e separando plástico para reciclagem.

Janete reclama mesmo é da falta de água tratada. Os mais sortudos têm ligação direta com um poço artesiano, mas a maioria precisa construir o seu no quintal. “O esgoto não é tratado e uma ambulância do SAMU (Serviço de Atendimento Médico de Emergência) demora duas horas para chegar”, esbraveja o servidor aposentado Manuel Tertuliano, de 62 anos. Ativista do bairro, ele aponta indignado para um para-raios pendurado há quatro anos no topo de uma escola. “A subprefeitura me respondeu que o distrito tem problemas muito piores para eu me preocupar.”

Angustiada estava Marlene Willms de Souza, de 59 anos, proprietária de um pesqueiro de quase 200 mil metros quadrados. Viúva há quatro anos, ela lamenta contrariar a vontade do marido e colocar à venda o terreno, há 20 anos palco de festas nos finais de semana.

Reprodução
Foto da fundação de Marsilac

A ideia é do filho, Jefferson Willms de Souza, de 29 anos, desgastado com a rotina de trabalho na região mais central de São Paulo. Para cumprir sua jornada diária, ele acorda às 6h, sai de casa às 7h e vai trabalhar em um fórum de Santo Amaro. De lá, segue para o curso de direito em uma faculdade na Vila Mariana. Depois faz todo o caminho de volta. “Ele chega em casa por volta da 1h, vai dormir às 2h. Ele pede que nos mudemos para uma região mais urbanizada.”

Marlene espera há dois anos por uma contraproposta aos R$ 800 mil que pede pelo pesqueiro. O problema, revela Tertuliano, é que não houve regularização fundiária e nenhum terreno no distrito tem escritura. “Se pelo menos tivéssemos uma linha que ligasse Marsilac a Santo Amaro...”, suspira Marlene, lembrando o repórter que já era hora de voltar para o centro.

Enquanto as três horas de viagem em dois ônibus (Marcilac-Terminal Varginha-Terminal Bandeira) transformavam mata virgem em arranha-céus e estradas de terra em viadutos congestionados, Marlene ia cuidar do que prometeu ao repórter ao se despedir: “Vou caçar aquela raposa maldita que reduziu a 15 as minhas 30 galinhas.”

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