Por 90 minutos, seleção afasta crack da cracolândia: 'Isso sim é Brasil'

Por Bruna Talarico e Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo | - Atualizada às

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iG assistiu ao jogo na tenda do De Braços Abertos, cujo objetivo é reduzir danos provocados pelo uso de crack nessa área de SP

Ainda faltava mais de uma hora para que o apito do juiz marcasse o início da partida entre Brasil e Colômbia pelas quartas de final da Copa do Mundo, mas a bola já rolava na Cracolândia de São Paulo.

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A., uma criança com não mais que três anos, se divertia com uma camisinha inflada pelo pai, um usuário de crack descrito como agressivo por colegas de convivência. O preservativo cheio de ar consistia em seu único brinquedo, chutado a esmo enquanto era vencido pela mais fraca brisa.

Fazia sol na tarde de sexta-feira (4) na zona central da capital, e o calor ajudava a enfatizar os cheiros que emanam da esquina da Rua Helvétia com Alameda Cleveland, vizinha à Estação da Luz. Dejetos humanos se somam, no terreno que funciona como área de uso de crack, ao lixo orgânico em decomposição e azedume do próprio suor de seus habitantes; é que uma vez entorpecidos, a noção de tempo escasseia, assim como a dignidade.

A cracolândia é um dos pontos mais evitados de São Paulo tanto pela degradação que ela resguarda quanto pelo medo que ela inspira. Desde janeiro, no entanto, a implantação do programa De Braços Abertos tem ajudado a resgatar um pouco a humanidade da região.

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Até o momento, 400 usuários foram albergados em casas de convivência da região; alguns já trabalham, e outros tantos podem dizer com orgulho que estão em recuperação. Lançado pela Prefeitura, ele é formado por uma equipe multidisciplinar que se inspira nos mesmos moldes dos programas de redução de danos bem-sucedidos em países europeus, como os que acumulam viciados em heroína: não há internação compulsória, nem tentativas de "conversão" dos adictos. Ao contrário: o programa tenta oferecer, por reforços positivos, alguma perspectiva de vida para além da droga.

Uma dessas iniciativas consiste na enorme tenda armada em um terreno que faz frente com a cracolândia. Sob ela, usuários que ainda não participam do programa podem estender seus colchonetes e dormir durante a tarde; fazer refeições; participar de oficinas de desenho, aulas de dança; frequentar grupos de oração; e, programa mais concorrido, assistir à TV.

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Cerca de 250 pessoas compõem essa população do "fluxo", termo usado por assistentes sociais para designar aqueles que fazem parte das cenas de uso de crack; essa população aumenta até 35% nos fins de semana, quando usuários flutuantes fazem da cracolândia suas casas. Desse último grupo fazem parte alunos de faculdades do entorno, profissionais liberais e mais gente com boa pinta, roupas limpas e uma vida fora dali.

Veja imagens dos usuários da cracolândia sob as lentes de fotógrafo italiano 

Usuárias Danielle e Sabrina, ambas com 19 anos. Algumas meninas usam a prostituição para conseguir o crack. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiJúnior, de 24 anos, autorizou ser fotografado fumando crack no centro de São Paulo. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiMãos do usuário Daniel, de 24 anos, em posição "espiritual", segundo Ortu. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiJá as mãos Pedro Enrique, de 18 anos, revelariam agressividade do jovem. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiThiago Rodriguez, de 26 anos, foi flagrado por Ortu na Cracolândia, no centro de São Paulo. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiValéria, de 32 anos, deixou ser fotografada pelo profissional italiano. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiRegistro do jovem Gabriel, de 17 anos. O fotógrafo se espantou com a presença de menores na Cracolândia. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiUsuários Jay e Kelly. Ortu passou ao menos um ano registrando os moradores da região. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiGiuliano, de 16 anos, cobre o rosto durante registro de Alessio Ortu. "Sempre após um pedido de autorização humano", diz. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiJerson, de 34 anos, limpa o rosto de Jonatas, de 25. Fotógrafo presenciou cenas de amizade entre os usuários. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiUsuários Júnior, de 24, e Rangel, de 27. Fotos foram expostas no Palácio da Justiça. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiCena do documentário Simulacrum Praecipitii com o trabalho de Alessio Ortu (na foto). Foto: Reprodução

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Quando o jogo começou, não havia mais cadeiras de plástico para se sentar. Um homem com cabelos oleosos e cheio de agasalhos, apesar da alta temperatura, deitou um carrinho de compras de supermercado no chão, forrou o piso com lençóis e fez dali seu próprio camarote.

Um senhor com escaras na face forrou um banco de jardim com plástico bolha e se acomodou confortavelmente no divã improvisado. Uma mulher sentou-se no meio-fio de cimento do canteiro de plantas, colocou um seio para fora e esperou o filho, de pouco mais de um ano, sugá-lo enquanto bebia vinho em uma garrafa de refrigerante de plástico. Aliás, todos os presente, cerca de 50 usuários de crack, mantinham consigo garrafinhas com bebida alcoólica - especialmente cachaça ou vodca, transparentes, o que driblava a fiscalização da Prefeitura para dentro dos limites do terreno do programa.

Assistir a um jogo de futebol decisivo para a equipe nacional no meio de uma das mais famosas cracolândias do país não é, apesar de todos estes fatores, muito diferente de assistir ao lado de amigos. As reações são as mesmas que se encontraria em um bar da Vila Madalena, por exemplo: prova contundente de que o futebol é mesmo um catalisador de paixões de cunho democrático, que não cativa por classe social, sanidade mental ou vulnerabilidade individual.

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Viciados em crack não são zumbis, como se pode ouvir por aí. Eles vibram com boas jogadas, xingam com passes errados e, claro, vão ao delírio quando o Brasil marca um gol. Na tarde desta sexta, foram dois. Dois momentos de êxtase, abraços em estranhos, e gritos de "isso sim é Brasil".

De sua sala na única construção de concreto do terreno, a coordenadora do equipamento De Braços Abertos, Zélia Pagliarde, falou ao iG sobre o caráter agregador do futebol: "Quando os jogos aconteciam entre times, a comoção não era tão grande. Mas é o Brasil que está em campo, e eles se comportam exatamente como nós: viram todos técnicos da seleção."

Ela transitou com a equipe dentro do terreno, tornando o ambiente menos hostil à equipe de reportagem, e apresentou o árido cenário das cenas de uso. Conhecida por todos, era encarada com certo acanhamento por quem fumava crack. "Eles tem vergonha de fumar na minha frente", justificou.

Durante os 90 minutos em que o Brasil esteve em campo, todos foram torcedores apaixonados. Mais que isso: foram torcedores apaixonados e sóbrios. Não se via por ali a descoordenação motora ou a afobação comum a quem acaba de fumar uma pedra. O prazer proporcionado pelo futebol suplantou ali a necessidade do escape proporcionado pela pedra - teóricos como o neuropsiquiatra afroamericano Carl Hart, professor da prestigiada Universidade de Columbia, defendem que "reforços positivos" são essenciais no processo de recuperação.

Mas ainda assim, não foram raros os pedidos de dinheiro para a compra de uma dose recebidos pela reportagem do iG; depois do jogo, uma vez passada a alegria do futebol, um usuário convidou insistentemente a equipe para fumar com ele. Diante das negativas, chegou a dizer que roubaria o celular para comprar mais doses. Durariam, pelo menos, até o próximo jogo.

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