Rolezinho no shopping "é para pegar mulher”, diz participante

Por Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo | - Atualizada às

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Jovem de 16 anos que se produz como se fosse para uma festa diz que há os que preferem usar o evento para roubar

“Uso Brooksfield, Puma Disc, Polo Play, Oakley, Mr. Kitsch, Mizuno, Airmax, Reebok... Só original.” Morador da zona leste de São Paulo, J.E. gosta de se vestir bem. Aos 16 anos, ele tem o perfil da maioria dos adolescentes da periferia que decide correr o risco de parar na delegacia em nome de um novo tipo de diversão: se reunir em grupo para correr, ostentar roupas de marca e principalmente flertar no shopping. "Protesto? Rolezinho é para pegar mulher", afirma.

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Enquanto alguns adolescentes tentam marcar encontros, outros alertam para o perigo dos rolezinhos. Foto: ReproduçãoO evento tem até a enquete “vocês vão ao shopping para quê?”. Algumas alternativas: tumultuar, tirar foto, beijar escondidinho. Foto: ReproduçãoAproximadamente 6 mil jovens realizaram o primeiro rolezinho em São Paulo, no shopping Itaquera. Foto: Divulgação/FacebookLojistas fecharam as portas do Shopping Interlagos após corre-corre em dezembro. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGJovens postam foto em rede social ao participar de rolezinho no shopping. Foto: Divulgação/FacebookParticipantes do rolezinho postam foto no Facebook da polícia revistando garotos que participaram de rolezinho. Foto: ReproduçãoJovens detidos para averiguação após 'rolezinho' em shopping. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGLojistas fecham as portas após corre-corre em shopping da zona sul. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGFavoráveis à manifestação, três amigas foram ao rolezinho no Shopping Interlagos para assistir e "dar uns beijos". Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iG

J.E. esteve presente na primeira vez que o fenômeno foi registrado, no Shopping Itaquera, no dia 7 de dezembro do ano passado, quando seis mil jovens provocaram pânico entre lojistas e clientes, três deles roubados.

Embora apoie o movimento, o garoto tem dúvidas se aparece no próximo rolezinho no mesmo shopping, marcado para as 16h de amanhã. O medo é terminar enquadrado pela polícia. "Nenhum amigo meu foi parar na cadeia, mas vi um rapaz levar uma rasteira de um policial no meio do shopping", recorda o adolescente, que divide os adeptos do rolezinho em dois grupos, o que sai de casa para se divertir e o que prefere roubar.

Leia também: Polícia prende 14 após ‘rolezinho’ em shopping

“Eu não concordo com quem vai para arrastar e roubar. Isso é coisa de trombadinha. Eu tive amigos que me deixaram sozinho para ir roubar, dizendo 'ah, se tá todo mundo arrastando, vamos arrastar também'”, relembra ele, que descreve, satisfeito, como aproveitou seu rolezinho: "Curti a minha ficando com as menininhas."

Preparativos

J.E. mora com a família. “Eles ficaram pê da vida quando souberam do arrastão, mas não me disseram nada.” Antes de partir para o rolezinho, ele se produz. Escolhe um de seus tênis, “de R$ 300 para cima”, e não dispensa o boné, de preferência da Quiksilver (R$ 180). “Tenho um tênis de R$ 1 mil. A blusa que estou vestindo agora custa R$ 300.”

Embora namore, no dia do rolezinho o garoto vai sozinho ao shopping, onde encontra os amigos da mesma idade. “Eu namoro, mas quando saio para o rolezinho aviso: 'amor, estou solteiro, quando eu chegar a gente volta'. Eu sempre peço um tempo e ela deixa.”

Quando o corre-corre no shopping começa, os garotos se dividem. Enquanto “um povo começa a correr, puxar o boné de quem está usando, pegar os tênis dos mostruários e derrubar tudo pelo caminho”, J.E. chega nas “novinhas”. “As meninas já vão com a intenção de ficar. Você tendo o que elas gostam, sendo simpático, sabendo conversar, consegue fácil. No primeiro eu fiquei com cinco e no segundo com outras cinco.”

Facebook

As características de J.E. são predominantes entre os mais de 820 jovens que confirmaram presença na página do Facebook que convoca a população para o rolezinho de amanhã. Além de o espaço servir para divulgar festas de funk e alertar contra o perigo policial, a maioria dos participantes usa o evento para flertar.

“Em vez de roubar vamos atacar essas novinhas”, diz um participante. “Quem vai querer tirar foto comigo?”, pergunta outro. “Há também os pessimistas: “As minas deram chapéu no último.”

O evento tem até a enquete “vocês vão ao shopping para quê?”. Algumas alternativas: tumultuar, tirar foto, beijar escondidinho, descer a escada rolante que sobe e subir a escada rolante que desce. J.E. escolheu “conhecer gente nova”. “Das últimas vezes não peguei o contato de ninguém, mas é um bom momento para encontrar novas pessoas, fazer amizades e pegar umas novinhas.”

Consumo e Protesto

Para o jurista Luiz Flávio Gomes, mesmo que inconsciente, o rolezinho representa a insatisfação de uma subcultura sem acesso ao mercado. "O shopping é bastante significativo porque é um dos maiores símbolos do consumo. É para marcar presença, dizer 'eu existo'."

Gomes acredita que "esse rolê é perturbador para o mercado de consumo porque tem gente que deixa de ir ao shopping por causa disso". "Como a polícia atua em favor desse poder, ela monta guarda e leva os menores para a delegacia com o intuito de intimidar e evitar que a prática se repita", explica o especialista. No rolezinho do Shopping Interlagos, 14 menores foram levados para a delegacia.

J.E., que está no segundo colegial e ganha R$ 750 com seu trabalho, nega a intenção de questionar o consumismo quando questionado a respeito. “Ninguém fala dessas coisas, mas é claro que você é discriminado quando vai mal vestido para o shopping.” Ele diz que uma vez chegou a gastar R$ 5 mil em uma ida ao shopping. “Tudo parcelado, né? Minha mãe não liga porque é com o meu dinheiro. Pelo menos é com roupa, não é com besteira, né?”

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