Conheça o Gaudí brasileiro, homem que mora em castelo na favela

Por Carolina Garcia - iG São Paulo | - Atualizada às

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Casa de jardineiro foi inspirada (por acidente) em cultuado artista catalão. Já Berbela tem ateliê com 8 mil esculturas de peças de carro; veja mais sobre 'Paraisópolis das Artes'

Artista plástico por vocação, o jardineiro Estevão Conceição, de 56 anos, construiu durante quase três décadas o próprio 'castelo' de pedra na zona sul de São Paulo. E mal sabia que sua arte tinha traços do consagrado artista catalão Antoni Gaudí. Descoberto por uma jornalista e uma estudante de arquitetura, o baiano ganhou fama nacional e internacional pela sua obra e o apelido “Gaudí brasileiro”. A construção “Casa de Pedra” faz parte do roteiro Paraisópolis das Artes, que explora o turismo cultural e a criação de moradores nas vielas da comunidade.

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Assista ao depoimento de Estevão Conceição:

Tímido, Estevão recebeu o iG em seu castelo de 75 m² e oito metros de altura. Já na entrada, o visitante pode ter a sensação de já ter visto a cena em algum lugar. E não está enganado. A fachada lembra o Parque Güell, em Barcelona, obra do então “desconhecido” que inspirou Estevão. É impossível não se impressionar com os detalhes das paredes irregulares de concreto, que receberam milhares de louças e objetos inusitados como decoração. Com uma pá de pedreiro e um balde de concreto, Estevão construiu sua imaginação até um jardim suspenso, no terceiro andar, onde abriga inúmeras plantas.

Casa de Pet, de Antenor Clodoaldo, impressiona pela riqueza de detalhes e criatividade. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloEntrada da casa de Antenor e o número de garrafas utilizadas na construção da casa, 25.670. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloUma das escadas da casa tem o teto revestido de pets sincronizadas. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloEm seu terraço, Antenor construiu quiosque, banco e área de descanso. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloCom tampinhas, o artista construiu réplica da própria casa e uma grua, que representa os trabalhos com construção civil. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloDesde 2008, Antenor decidiu dar mais cor à favela e construiu "Casa de Pet", com mais de 26 mil garrafas descartáveis. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloDetalhe em vidro com a data 22/09/1981, quando o artista começou a vida na capital paulista. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloFiguras de mulheres enfeitam o quarto do solteiro Antenor. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloAlém de decoração, pets brancas ganharam a função de porta-sapatos. 'Não gosto de deixar sapatos jogados', diz. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloAo fundo, uma peça que aguarda finalização. 'A marca que eu usava agora trocou por tampinhas verdes, não deu para continuar'. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloQuando pensa em um projeto, Antenor calcula o número de tampinhas que irá precisar . Foto: Carolina Garcia/iG São PauloO artista prestou uma homenagem ao primeiro prédio onde trabalhou como pedreiro em São Paulo. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloMeninas do projeto Ballet Paraisópolis durante aula na sede da União dos Moradores. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloMeninas do projeto Ballet Paraisópolis durante aula na sede da União dos Moradores. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloMeninas do projeto Ballet Paraisópolis durante aula na sede da União dos Moradores. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloProjeto Ballet Paraisópolis foi montado pela bailaria Monica Tarragó, com blusa cinza à direita. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloMaestro Paulo Rydlewski, diretor da Orquestra Filarmônica de Paraisópolis. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloPaulo durante aula de teoria musical. Para ele, Paraisópolis deveria ganhar o título de bairro. Foto: Carolina Garcia/iG São Paulo'Como chamar de favela um lugar que tem orquestra?', questiona o maestro. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloAs jovens violinistas Thaís Melo, de 17, e Francisca Mirelle, de 18. . Foto: Carolina Garcia/iG São PauloUma atração para emocionar é conhecer os dons musicais dos jovens da comunidade. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloUma das principais atrações do roteiro é a Casa de Pedras, construção de Estevão Conceição, o Gaudí brasileiro. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloO baiano Estevão já foi convidado para conhecer a obra do verdadeiro Gaudí, na Espanha. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloPratos, bules e canecas fazem parte da decoração da casa. Estevão divide a casa com a mulher e duas filhas. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloEstevão e a mulher Edilene na parte central da Casa de Pedra. Ela está animada com o reforço de visitantes. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloO artista mostra a parte "Casa das Estrelas", parte onde mora com mulher e filhos . Foto: Carolina Garcia/iG São PauloTodas as paredes da casa receberam a decoração inusitada. Telefones, carros, espelhos podem ser vistos nos detalhes. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloEstevão também fabrica vasos usando a mesma técnica. "Os gringos adoram, acham exótico", disse. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloEle exibe também um de seus quadros, o Pantanal. Todos os objetos são oferecidos aos turistas durante o tour. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloQuadros ficam armazenados no segundo andar da Casa de Pedra, ao lado da cozinha da família. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloQuarto da filha Stephana, de 18 anos, a Miss Paraisópolis. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloEstevão posa no jardim suspenso da casa, onde cultiva diversas plantas. "É relaxante ficar aqui". Foto: Carolina Garcia/iG São PauloOutro artista da comunidade é Berbela, famoso por suas esculturas com peças automotivas e recicláveis. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloBerbela luta com a falta de espaço para armazenar suas mais de oito mil peças. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloEntre suas criações estão as bicicletas em miniaturas. Cada peça pode sair por R$ 150 aos turistas. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloO artista plástico mostra com orgulho uma de suas peças, a piranha. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloRecentemente, Berbela criou o jogo de jantar com seis cadeiras usando vários tipos de metal, entre eles moedas e peças de carros. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloA maioria das peças do mecânico é de animais, como a raposa com o nome de Berbela. Foto: Carolina Garcia/iG São Paulo"Eu tenho uma igual a sua", disse Berbela ao mostrar reprodução de uma câmera fotográfica. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloParaisópolis das Artes. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloComunidade Paraisópolis é a segunda maior favela de São Paulo, com mais de 100 mil moradores. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloGuia cultural Higo Carvalho, de 22 anos. Ele é o responsável pela seguranças dos turistas. . Foto: Carolina Garcia/iG São PauloO roteiro passa também pela Viela Souza, onde está sendo construída a Escola de Música do Grotão. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloO roteiro passa também pela Viela Souza, onde está sendo construída a Escola de Música do Grotão. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloOutro ponto do roteiro com obra de urbanização é a construção do Parque Sanfona e o Condomínio E, que recebeu selo azul da Caixa (padrão sustentável). Foto: Carolina Garcia/iG São Paulo

Para um visitante, o local é um labirinto na rua Hebert Spencer, número 38. Mas o baiano, natural de São Estevão (BA), não encontra dificuldades para encontrar o primeiro prato que cravou no concreto e sua peça favorita. “Comprei quase tudo o que você vê aqui. Fico chateado se alguém fala que peguei as peças na rua”. Estevão divide seu tempo entre o trabalho em um prédio de Pinheiros, na zona oeste, e idas aos bazares da Vila Madalena em busca de novas peças.

Durante a entrevista, ele ainda exibiu quadros e vasos decorados, que são vendidos até R$ 250. O “palácio” é divido com sua mulher Edilene Souza Conceição e os dois filhos, Stefana, de 18 anos, que ganhou o título de Miss Paraisópolis, e Enrique, de 10. Para a família, que já está acostumada com a frequência de visitantes estrangeiros, o roteiro cultural na favela só traz benefícios, inclusive financeiros.

Conheça um trecho do passeio por dentro da Casa de Pedra:

Os artistas que participam do programa "Paraisópolis das Artes" recebem parte dos R$ 150 cobrados pelo ingresso. Antigamente, o artista e a mulher cobravam R$ 15 por um tour pela Casa de Pedra. Edilene guarda um livro de recados com as informações dos primeiros visitantes - maioria avassaladora estrangeira. “Quase todos saíram daqui querendo pagar mais, achando que eu cobrava pouco. É legal ver que todos gostam”, disse o modesto Estevão.

Arte com ferro-velho

Nas mãos de moradores da comunidade, materiais recicláveis, louças e até ferro-velho viram obras de arte. No ateliê improvisado ao lado de sua oficina, o mecânico Edinaldo da Silva, de 49, o "Berbela", exibe mais de oito mil peças entre animais, plantas e personagens.

Carolina Garcia/iG São Paulo
Berbela em seu ateliê na favela de Paraisópolis

Apesar de vender algumas de suas criações, o pernambucano confessa que tem certo apego e não sente vontade “de perdê-las por aí”. “Meu sonho mesmo é expor todas elas e ter uma galeria”, diz Silva enquanto mostrava as peças espalhadas pela casa sujeitas às intempéries.

A paixão pela soldagem começou em 2001 quando viu uma reportagem na TV sobre um idoso criando réplicas de animais com ferro. “Se eu pudesse, largava a mecânica e viveria disso. É a minha paixão”. Para ele, o brasileiro ainda não reconhece o potencial dos artistas na comunidade. Entre os visitantes de sua garagem estão gringos e artistas plásticos, que são surpreendidos pela sensibilidade de Berbela.

O mecânico recebeu o iG enquanto soldava pedaços cortados de latinha e arames e criava um batalhão de formigas com asas. Ele garantiu que montaria pelo menos 40. E não era nenhuma encomenda. “Estava sentado aqui e vi uma fila imensa de formigas com asas. É a temporada delas, né? Quis fazer uma homenagem”, disse enquanto soldava o material sem nenhuma proteção nos braços e olhos.

Nesta quarta-feira (23), o leitor do iG conhecerá a história do morador Antenor Clodoaldo, que construiu a "Casa de Pet " em um dos pontos mais altos da favela de Paraisópolis. Mais de 26 mil garrafas foram usadas na sua casa.

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