“A gente tenta conter os punks”, diz liderança do Movimento Passe Livre

Por Wanderley Preite Sobrinho e Carolina Garcia - iG São Paulo | - Atualizada às

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Organizadores dos protestos em São Paulo, que se alinham aos manifestantes pacifistas, admitem que a depredação afasta a população da causa


Gabriela Bilo/Futura Press
Depredação de agência bancária durante protesto contra o aumento das passagens de ônibus, trens e metrô em SP

Seis horas de protesto, 20 manifestantes na cadeia, três policiais feridos, bancas de jornal pichadas e ônibus quebrados. O saldo da última marcha contra o aumento da passagem de ônibus em São Paulo colocou de lados opostos manifestantes pacifistas e punks anarquistas, que pregam a depredação da cidade como símbolo de oposição a governos e à iniciativa privada.

Até agora no meio do fogo cruzado, o Movimento Passe Livre (MPL) – principal organizador da passeata – começa a escolher um lado ao descolar sua imagem do grupo que destruiu a fachada de cinco agências bancárias na última terça-feira (11).

“A gente não apoia nenhum tipo de depredação, seja de ônibus ou de estação de metrô”, diz um dos porta-vozes do MPL, o estudante Caio Martins Ferreira (19). “A gente tenta contê-los, mas é difícil.”

Quem se uniu às mais de 5 mil pessoas na terça se impressionou com a reação de um grupo de cerca de 20 pessoas vestidas com a indumentária punk. Antes dos primeiros disparos da Polícia Militar, alguns integrantes já pichavam equipamentos públicos com o símbolo anarquista. Depois da repressão policial, a prática se generalizou. Além das pichações, os garotos passaram a atirar pedras contra ônibus e agências de banco.

Ferreira admite que a atitude anarquista pode comprometer o resultado dos protestos, uma vez que a opinião pública – contrária ao quebra-quebra – atribui essas ações a todos os manifestantes. “Eles formam uma cultura própria, são independentes.”

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O estudante afirma que o MPL não detém os direitos sobre os protestos, e que por isso não pode impedir a participação punk. “A gente não é dono para dizer quem vai e quem fica”, diz ele ao atribuir outras responsáveis: “A ação policial repressora cria o clima de confronto e a mídia faz a generalização na TV.”

Um dos coordenadores do Mudança Já, Renato Fel afirma que seu grupo é “completamente contra” vandalismo. “Atos de destruição de patrimônio sujam a manifestação e não condizem com o ato. Em três dos quatro protestos que participamos não houve vandalismo até que a PM começasse a jogar bombas. Os ânimos ficaram exaltados”, diz ele.

Fel também atribui a violência às redes sociais, o principal catalisador de manifestantes. “Cada evento criado no Facebook convida diversos grupos para o ato. Acaba ficando impossível monitorar se todos estão ali pela mesma causa. Alguns aproveitam para realizar algazarra e acabam sujando o movimento, ao afastar o povo da causa”.

O cientista político da PUC-SP Pedro Arruda explica que "nem todo anarquista é punk". "As teorias anarquistas do século 19 reivindicavam a ausência de poder, seja do patrão e do Estado. O individuo é autônomo. O anarquismo tem diversas correntes, e o movimento punk é um deles. Mas também existem movimentos pacifistas e até quem defenda o terrorismo como forma de pôr fim ao Estado."

De acordo com o professor, os equipamentos públicos são um símbolo do poder e sua destruição também é simbólica. "Eles pregam a ausência da propriedade privada, do aparelho de repressão [polícia] e do instrumento de classe [partidos políticos]."

Veja como foi o conflito:


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