"Trauma do Carandiru é fruto do sistema autoritário", diz Michel Temer

Por Vasconcelo Quadros - iG São Paulo |

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Vice-presidente da República assumiu a Secretaria de Segurança após o massacre de 111 presos na Casa de Detenção de São Paulo. Acusados vão a júri popular esta semana

Chamado para debelar a crise gerada na segurança pública de São Paulo pelo massacre do Carandiru, em outubro de 1992, o ex-secretário e atual vice-presidente da República, Michel Temer, 21 anos depois, diz que o episódio foi traumático para São Paulo e deixou como lição a necessidade de reforçar o diálogo entre Estado e sociedade civil. Ele avalia que de 1992 para cá a violência aumentou e o crime organizado se expandiu.

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AE
Fachada da Casa de Detenção do Complexo Penitenciário do Carandiru, dois dias após o massacre ocorrido no local

“Naquela época não havia organizações criminosas como as de hoje”, afirma Temer, referindo-se ao Primeiro Comando da Capital (PCC), a quadrilha que age dentro e fora dos presídios e se enraizou no rastro da violência policial e do caos penitenciário. A chacina acabou estimulando o surgimento do PCC, cujos líderes estavam recolhidos na Penitenciária do Estado, que ficava no quadrilátero em que se situava o complexo prisional.

“O trauma do Carandiru é fruto do sistema autoritário. Foi superado à época com o diálogo produtivo e um misto de educação, disciplina e autoridade, mesmo num ambiente hostil, como são as cadeias”, diz o vice-presidente. Nesta segunda-feira, 26 dos 79 policiais acusados pelo massacre serão submetidos a júri popular.

O promotor Márcio Friggi, que tinha 13 anos na época e atuará na acusação, diz que o júri será um dos mais difíceis da história por envolver um debate ideológico - entre os que defendem os direitos humanos e que são contra a violência policial e aqueles nos quais impera o senso social comum segundo o qual “bandido bom é bandido morto”.

Procurador Geral do Estado em outubro de 1992, Temer assumiu a Secretaria de Segurança Pública logo após o massacre que resultou na morte de 111 detentos do Pavilhão 9 da Casa de Detenção. Entrou no lugar do promotor Pedro Franco de Campos, cuja permanência, embora fosse amigo e homem de confiança do então governador Luiz Antônio Fleury Filho, se tornara insustentável com a repercussão internacional da chacina.

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“Tive medo que a confusão envolvendo a Polícia Militar virasse uma guerra contra mim. Perguntei ao governador se teria liberdade para agir. Ele garantiu que sim e então aceitei. Tomei posse sem solenidade e imediatamente convoquei representantes da sociedade civil, entre eles o promotor Hélio Bicudo, para acompanhar o inquérito. Trinta e quatro pessoas acompanharam as investigações”, lembra o vice-presidente.

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