“Não muda a sociedade, mas ajuda”, diz autor de frase que virou hit em São Paulo

Por Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo | - Atualizada às

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Para o autor de “Você praça, acho graça/Você prédio, acho tédio”, ninguém com uma boa ideia de estêncil deve esperar autorização da prefeitura: “Vai para rua e faz”

“Existe amor em SP”, “Mais amor por favor”, “Amor é importante, porra”. Com ou sem nenhuma sutileza, pichadores e grafiteiros espalham por São Paulo frases implorando à população uma cidade menos violenta. O último hit diretamente das paredes para as redes sociais tira o “amor” do verso, mas mantém a “provocaçãozinha poética”, nas palavras do autor, o jornalista cearense Dafne Sampaio: “Você praça, acho graça/Você prédio, acho tédio” (Tumblr do autor).

Na capital paulista desde 1994, Sampaio usou seu estêncil (um suporte vazado que serve de matriz para frases pintadas com tinta ou spray) pela primeira vez no dia 31 de janeiro deste ano. Os versos, bolados com uma ex-namorada, logo caíram no gosto dos paulistanos, que os compartilham pelas redes sociais e aumentam o coro por uma cidade mais humana. Mas afinal, uma pichação, grafite ou estêncil pode mudar o comportamento de uma cidade? O autor diz que mudanças profundas dependem de outras ações, mas acredita que a criatividade de artistas de rua pode muito bem ajudar.

Para o jornalista, quem tiver uma ideia como a dele não deve esperar por alguma autorização da prefeitura: “Não dá para esperar uma papelada em três vias. Vai para rua e faz.”

Leia, abaixo, a entrevista completa:

Esta é a imagem mais compartilhada no Facebook. Foto: DivulgaçãoO jornalista Dafne Sampaio pensou em virar artista de rua depois de assistir a um documentário. . Foto: DivulgaçãoO autor disse que nunca foi incomodado nem pela PM. "As pessoas foram muito carinhosas". . Foto: DivulgaçãoPara Sampaio, a autoria da arte de rua é mais fluida: "A intenção é que ela seja pública". Foto: Divulgação"O importante é que esse tipo de arte circule", diz Sampaio sobre grafite em galerias de arte. Foto: Divulgação

iG - Conta como surgiu a ideia?

Dafne Sampaio - Comecei a ter essa vontade depois de assistir a um documentário do Banksy há três anos (Exit Through the Gift Shop, 2010). Eu pensei ‘tenho de fazer alguma coisa na rua’, ainda mais por estar em São Paulo, onde se tem esse medo idiota de ocupar a rua. Mas a frase surgiu em setembro do ano passado em uma brincadeira de palavras com uma ex-namorada. A gente viu um muro de um terreno que iria se transformar em prédio, na Vila Madalena [zona oeste], ela veio com a primeira parte da frase e eu completei. Mas eu ainda não sabia como por em prática. Este ano, solteiro de novo, precisava ocupar a cabeça (risos), então sentei com um amigo e, em uma hora, deixei o texto mais conciso e escolhemos a fonte. No dia seguinte, acordei e fui para gráfica. Entre a definição da fonte e fazer o primeiro grafite não levou 24h: fiz o primeiro em frente ao estúdio de uns amigos fotógrafos.

iG -E como ficou ?

Sampaio - Tentativa e erro. O primeiro não tinha uma moldura grande para deixar só o texto. A partir do terceiro já rolou uma moldura. Nesse primeiro dia já fiz uns sete.

iG - Quais são seus critérios para escolha do muro?

Sampaio - Busquei pontos estratégicos da cidade, como a avenida Paulista, tapumes de obra, lugares do centro, muro de terreno baldio... Esses lugares servem justamente para falar ‘olha tem mais um prédio sendo construído aqui. E aí? Prédio ou uma praça?’.

iG - O que você pretende discutir com seu estêncil?

Sampaio - É uma provocaçãozinha poética: a discussão do que é público e do que é privado. A praça é pública, aberta, mas o prédio não. Tento escolher lugares que estabeleçam a reflexão sobre a necessidade de termos mais lugares comuns na cidade.

iG - E como foi que seu primeiro estêncil ficou tão famoso?

Sampaio - Como jornalista, eu queria fazer uma cobertura dessa ação, principalmente em redes sociais. Logo no primeiro dia montei um álbum no Facebook e passei a atualizá-lo. Também comecei a marcar no Google Maps os lugares em que a mensagem foi gravada. Bem, justamente no primeiro dia uma delas começou a ser muito compartilhada - curiosamente a que inspirou a quadrinha original: a parede preta com o estêncil em amarelo na rua Mourato Coelho. Os compartilhamentos acabaram saindo do controle. Então fiz um texto introdutório da ação e disponibilizei para download um arquivo PDF do estêncil. Até agora foram 250 downloads.

iG - Você já se deparou com a frase pintada na parede por outra pessoa?

Sampaio - Vi duas vezes. A primeira foi escrita com giz num tapume de obra na Vila Beatriz. A outra foi pintada no chão durante uma manifestação popular no Largo da Batata [zona oeste]. Era o que eu queria. A ação foi minha, mas a intenção é que ela seja pública. Eu queria que a autoria se diluísse, virasse coisa de todos.

iG - Essas intervenções nem sempre são encaradas como arte. Você já recebeu críticas ou foi impedido de reproduzir a frase?

Sampaio - Nenhuma vez. Nem a PM, nem a Guarda Civil ou segurança particular. As pessoas que me pararam na rua foram muito carinhosas. Acharam bonitinho. Na internet rolou um pouco. Alguns leitores da minha coluna chamaram a ação de vandalismo e que o spray causaria poluição ambiental, mas não dá pra levar essas críticas a sério.

iG - Você acha que a reprodução da arte de rua pode por fim à ideia de autoria?

Sampaio - Não acho. O que pode acontecer – vale para fotografia, street art – é gente que assine como coletivo e não por pessoas. Vai depender do projeto, do autor. Se ele quiser minimizar sua autoria, ele consegue. Mas para outros tipos de arte isso não faz sentido porque algumas expressões são muito pessoais.

iG - Isso vale para o estêncil também?

Sampaio - Em estêncil, a autoria é mais fluida por não haver assinatura. É quase uma mensagem publicitária. A linguagem tem de ser direta, visível e tem de pegar rápido. Tem o pessoal como o lambe-lambe também. É parecido com estêncil. Eles fazem em grandes quantidades e usam poemas, desenhos e fotos como conteúdo.

iG - Você está bolando outras frases? Pensa em aprender a desenhar?

Sampaio - Não sei desenhar nem homem palito. Já tenho 38, sou velhinho, não dá para aprender (risos). Mas comecei um novo estêncil. Fiz três até agora. Ele é mais difícil, o texto dele é menos pop, mais enigmático: “Menos mimimi, mais Cariri” é a frase, que vem acompanhada de uma espécie de xilogravura. É uma brincadeira pessoal por eu ser do Ceará. Eu quero dizer que, no sertão não tem chororô, não tem esse ‘mimimi’. Enquanto surgir coisas para falar, eu quero continuar fazendo.

Assista à execução do primeiro e do centésimo estêncil:

iG - O que é mais divertido em espalhar uma frase pela cidade?

Sampaio - É gostoso de várias maneiras. Tem a coisa pessoal, que é estar em movimento, criar alguma coisa. Tem o fato de ser na rua, fazendo e dialogando com a cidade e com as pessoas...

iG - Uma exposição de grafite foi realizada recentemente no Museu Brasileiro da Escultura (MuBE). Além da rua, você acha que lugar de grafite é na galeria de arte?

Sampaio - Nos dois lugares. Eu acho muito tosco qualquer purismo a esse respeito. Cada lugar ou cada público vai fazer uso do grafite de seu jeito. Acima de tudo, o importante é que esse tipo de arte circule.

iG - Uma obra de Os Gêmeos foi apagada no ano passado no vale do Anhangabaú. Mas outras grandes obras se espalham por São Paulo. É possível fazer a cidade se tornar uma galeria a céu aberto?

Sampaio - Não dá para ficar esperando por alguma autorização da prefeitura. É necessário que as pessoas façam. Eu não tenho autorização para fazer, por exemplo, mas não dá para esperar uma papelada em três vias da prefeitura. Vai para rua e faz.

iG - Outras frases fizeram sucesso nas paredes da cidade, como “Existe amor em SP” e “Mais amor por favor”. Você acha que essas frases mexem com a população?

Sampaio - Não é uma frasezinha, música, filme que vai mudar uma sociedade, mas elas dão umas arranhadinhas em algumas coisas, pessoas. É aquela coisa acumulativa. “Existe amor em SP”, “Mais amor por favor”, “Amor é importante, porra”... Essas coisas vão se acumulando e as pessoas que são tocadas com aquilo podem mudar alguma coisa. É um processo lento, mas o bagulho é doido (risos).

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