“Eu não vivo, apenas sobrevivo”, diz mãe de criança desaparecida há 20 anos

iG conversou com mães que, com ajuda da tecnologia da Polícia Civil, não desistem de procurar os filhos sumidos há muitos anos

Carolina Garcia, iG São Paulo |

Início da tarde de 12 de novembro de 1992. Uma quinta-feira aparentemente tranquila como os outros dias da semana. Fabiana Renata Gonçalves, de 13 anos, colocou então seu uniforme e saiu para ir ao colégio a pé, como sempre fazia, no Jardim Ipanema, zona leste da capital. A aula começou às 14h30, mas Fabiana não apareceu. E o silêncio já dura quase 20 anos. “Nos últimos 20 anos não vivo, apenas sobrevivo”, disse a mãe de Fabiana, Vera Lúcia Ranu.

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“Qualquer toque de telefone é um susto, qualquer notícia que você escuta se transforma em fio de esperança. Logo penso que meu sofrimento vai acabar”, explicou Vera dizendo ainda que sua dor e dificuldade nas buscas motivaram a criação da organização-não governamental (ONG) Mães em Luta, com sede no centro de São Paulo.

O último fio de esperança a Vera surgiu no último dia 25 de maio durante o lançamento do programa “São Paulo em Busca das Crianças e dos Adolescentes Desaparecidos”, do governo do Estado de São Paulo. Dentro do plano de ação, a Polícia Civil apresentou a tecnologia de Progressão de Idade 3D. E Fabiana foi a primeira criança analisada pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

Carol Garcia
Vera Lúcia Ranu, na sede da ONG Mães em Luta
No dia da apresentação, Vera estava sentada próximo ao telão e aguardava ansiosamente o novo retrato da filha. Foi quando então uma animação coma projeção de Fabiana, hoje com 33 anos, apareceu. “Não tenho palavras para explicar o que senti, foi como se ela tivesse voltado para mim. Na minha mente, ela ainda é aquela menina de 13 anos com uniforme. Não tinha pensado que hoje ela é uma mulher de 33 anos”, disse emocionada ao iG na sede da ONG, no centro da capital.

“No dia seguinte da apresentação (sábado, 26), eu não desgrudei do telefone. Pedia a Deus que alguém ligasse dizendo que conhecia ou era amigo da minha filha. Mas infelizmente isso ainda não aconteceu. O jeito é continuar buscando.”

Segundo Vera, aproximadamente outros mil desaparecidos estão cadastrados na Mães em Luta. E para Zeni Souza do Carmo, de 54, mãe de Sthephany de Souza, considerada desaparecida aos cinco anos desde 2002, o nome da ONG se aplica perfeitamente à realidade das mães que não sabem o paradeiro de seus filhos. “É uma luta constante e só paro quando morrer, pois eu sinto que ela está viva. Mesmo após dez anos sei que um dia vou abrir o portão para a minha filha.”

O desaparecimento da filha de Zeni é investigado pela Polícia Civil como sequestro. Enquanto as famílias realizavam buscas na região de Guaianazes, também zona leste, uma testemunha afirmou que viu uma menina, com as mesmas descrições de Sthephany, sendo levada por ‘uma mulher loira’. “Eu recebo uma ligação anônima e vou atrás. Acredito que já viajei para dez Estados, encontrei diversas crianças, fui até chamada para reconhecer corpos, mas nunca a encontrei.”

Avanço de 15 anos em 15 dias

Álbum de família
Sthephany de Souza está desaparecida desde 2002
No próximo dia 15, Sthephany completará 15 anos e a angústia da família só aumenta. “A cada dia que passo longe dela dói. Sinto que estou perdendo a melhor fase da vida dela”, contou. Como a criança desapareceu quando tinha apenas cinco anos, tornou-se necessária a realização da imagem digitalizada e com progressão de idade.

“A foto digitalizada já me causou emoção, imagina se tenho a oportunidade de fazer em 3D? Mas tenho consciência que tive sorte em conseguir essa primeira análise. Muitas não têm a oportunidade de melhorar as fotos e continuam as buscas pelos filhos com imagens defasadas”, explicou Zeni.

E é exatamente essa desatualização dos bancos de imagens que Sidney Barbosa, coordenador do setor de Arte Forense no Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP), quer exterminar. Há 25 anos trabalhando com retrato-falado e há 15 anos com progressão de idade, Barbosa explicou a importância das buscas serem acompanhadas pelos recursos tecnológicos.

“Uma busca constante sem a computação gráfica parece ser em vão. A pessoa desaparecida poderia passar do seu lado e você não conseguiria reconhecê-la”. O processo da Progressão de Idade em 3D é longo. Atualmente a equipe de arte da Polícia Civil conta com quatro especialistas e, por isso, a elaboração do retrato tridimensional pode levar até 30 dias.

Segundo o coordenador, nos próximos 15 dias, sua equipe será transferida para uma sala maior com quatro estações de computação gráfica e dois scanners de alta definição. “Com essas mudanças, conseguiremos otimizar o processo e gerar retratos em até 15 dias. Avançaríamos 15 anos de busca em apenas três semanas”.

Processo

Barbosa explicou ainda que o processo é complexo e, se realizado com pressa ou sem precisão, pode ocasionar “a distorção do desaparecido prejudicando as buscas”. Infelizmente, segundo o coordenador, o serviço exige alguns critérios. “As pessoas que sumiram há pelo menos 15 anos são o nosso primeiro alvo. Precisamos atualizar o banco nacional de desaparecidos.”

O primeiro passo, segundo o especialista, é a coleta de fotos da vítima, dos pais e possíveis irmãos. “Assim analisamos as características mais fortes da família e como a criança pode ter se desenvolvido”. O segundo passo é entender o contexto familiar.

“Caso a criança tenha fugido e seja usuária de drogas, por exemplo, há alterações físicas. Por isso, precisamos que as famílias sejam sinceras na coleta de informações.” Já envelhecido, o desaparecido receberá a animação tridimensional na terceira etapa.

O resultado é julgado então pela própria família que, em uma nova visita ao DHPP, irá validar a imagem. “Faço meu trabalho com muita satisfação. É o projeto da minha vida. Não espero encontrar milhares de crianças, mas se a polícia encontrar uma já pagou todo o meu trabalho e dedicação”.

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